Ou algumas ideias para fazer sua empresa realmente durar mais, entre as quais, colocar filósofos no conselho
O titulo acima é uma referência a um bordão de propaganda da Kodak nas décadas de 1950 e 1960, sempre acompanhado de foto colorida de criança soprando velas de aniversário, noiva jogando buquê, ou um casal em férias visitando a Torre Eiffel. Poderia ter escolhido outra empresa, em particular uma que vimos desaparecer de fato, como Atari, Compaq ou Blockbuster. (Sim, porque a Kodak está falimentar desde 2012, mas não acabou.)
Mas a Kodak é eloquente.
Recentemente a empresa fez uma manobra inteligente ao doar seu acervo de imagens para o (até então insolvente) fundo de pensão dos seus ex-funcionários. E no momento produz descartáveis para a guerra à Covid-19. Mas, parafraseando Drummond, hoje não passa de um retrato na parede.
A Fuji, por outro lado, depois de competir direto com a Kodak por décadas, vai bem, obrigado. Acaba de comprar uma fatia substancial da Xerox e pretende comprar a Hewlett-Packard. Quem sabe pretende criar um Jurassic Park de empresas…
Como o resto da literatura sobre o assunto, esta é uma obra em andamento, mas posso com razoável segurança indicar duas referências importantes:
– O trabalho de Geoffrey West no Santa Fe Institute (SFI). A Strategy+Business, revista da PwC, traz uma entrevista sensacional com ele. E recomendo com entusiasmo o livro dele (embora lide com seres vivos e cidades melhor que com empresas) [Scale: The Universal Laws of Life and Death in Organisms, Cities and Companies].
– O livro de Rita McGrath Seeing Around Corners: How to Spot Inflection Points in Business Before they Happen, que já mencionei em coluna anterior (com um erro: atribuí coautoria a Clayton Christensen, que na realidade só escreveu o prefácio).
Geoffrey West focaliza a escalabilidade, termo da moda sobre o qual se fala muito mas se entende pouco. Profissionais de venture capital perguntam: seu modelo de negócio é escalável? Ou seja, quando a empresa cresce, sua infra cresce junto? No livro, as correlações estatísticas entre empresas e seres vivos são impressionantes. Afinal, sempre suspeitamos que empresas às vezes comportam-se como seres vivos!
Muita gente acha que focar no crescimento permanente de uma empresa é o segredo da longevidade. Geoffrey West nos mostra em seu livro que, neste mundo ESG de ênfase em sustentabilidade, é melhor (1) buscar a escala ideal que ponha a empresa em permanente equilíbrio com seu ambiente de atuação e (2) a empresa deve permanentemente buscar a inovação, e saber reinventar-se na hora certa (aqui entra o livro da Rita McGrath). Como inovação (que começa com intuição) é um tema com vida própria, dedicarei coluna futura ao tema.
Outro tema importante é a distinção que Geoffrey West faz entre empresas que sumiram nas fusões & aquisições (M&A, na sigla em inglês) mas continuam a existir (partes do “DNA” de cada empresa envolvida de alguma forma sobreviveram) e empresas que sumiram porque faliram. Eu escrevi “importante” por duas razões:
A primeira é um argumento “antes”. Buscar ser vendida pode ser uma estratégia de sobrevivência válida para uma empresa com demanda saudável por seus produtos/serviços mas sem os ingredientes (qualidade da gestão, alcance geográfico, folego financeiro, etc) para prosseguir sozinha, e
A segundo é um argumento “depois”. 45% das M&A não dão certo, se calcularmos pelo critério usado pelos bancos de investimento: o valor de mercado da empresa resultante tem que exceder a soma do valor de mercado das duas empresas antes da transação. Ou seja, é mais ou menos como tirar cara-e-coroa (50%-50%)…
Por lidar com escalabilidade e longevidade de empresas em níveis agregados, o livro de Geoffrey West não lhe será muito útil diretamente. Embora seja relevante sabermos que metade das empresas não atingem seu 10º ano de vida, e este dado varia pouco de um pais para o outro, isso pouco ou nada nos diz sobre como fazer nossas empresas durarem bastante – e durarem em 2021.
Mas, sem querer, West nos passa uma dica: as equipes de pesquisa e ensino do SFI são multidisciplinares, e o intercâmbio de professores e pesquisadores entre o SFI e outras universidades também. Profissionais de outras disciplinas trazem um angulo novo para lidar com as complexidades e imprevisibilidades do mundo de hoje. No SFI são biólogos lidando com temas urbanos, matemáticos com temas políticos, e economistas com temas ambientais.
Essa ideia não é nova: quem se lembra do termo “renascentista” aplicado a pessoas ecléticas? E os bancos de investimento sacaram há mais de uma década que físicos fazem bonito no mercado de capitais!
Então, além do que escrevi acima sobre permanentemente escanear o ambiente ao redor da sua empresa, buscando:
• Atingir um tamanho onde ela não seja nem grande demais nem pequena demais para atender seu público-alvo.
• Identificar e lidar com as variáveis exógenas (nome bonito para oportunidades e ameaças que você não tem como controlar diretamente) e tirar proveito delas com novos produtos/serviços que tenham sinergia (idealmente, visíveis para seu público-alvo) com sua atividade atual.
• Contratar, onde possível, pessoas de disciplinas subrepresentadas na sua empresa. (Acréscimo meu.) E ponha no seu conselho de administração ou consultivo pessoas de disciplinas ausentes dentro da empresa. Sobre isso, eis uma curiosidade: muitas empresas francesas têm um filósofo no conselho. Por que será?
1.”