
A ciência já comprovou que o conceito de hospital em casa (HOC) funciona em diversos casos. O contexto econômico, social e tecnológico é favorável. Mas por que ele ainda não decolou?
Hospitais sempre foram vistos como o centro da assistência à saúde, mas será que esse modelo ainda é o mais eficiente? Com o avanço da tecnologia e a necessidade de tornar o sistema mais sustentável, começam a surgir alternativas para um atendimento seguro e eficaz fora do ambiente hospitalar.
Em 2024, o custo anual dos serviços hospitalares nos EUA ultrapassou a marca de US$ 1 trilhão. Parte disso se deve ao aumento da incidência de doenças relacionadas a internações prolongadas, como infecções hospitalares e eventos adversos evitáveis.
Apesar do avanço da medicina, muitos indicadores de saúde mostram retrocessos, o que evidencia a necessidade de transformação no modelo assistencial. Tal cenário reforça a importância de repensar se o hospital deve, de fato, ser o centro de toda a prestação de cuidados aos pacientes.
No século 19, hospitais eram destinados à população pobre e marginalizada. As classes mais abastadas recebiam cuidados em casa, independentemente da complexidade do quadro clínico.
Com a profissionalização da saúde e o fortalecimento da enfermagem ao longo do século 20, os hospitais passaram a ser o centro da assistência médica, consolidando-se como a principal porta de entrada do sistema de saúde. Além disso, a criação e o desenvolvimento de cursos de formação em medicina e enfermagem, privilegiando a prática hospitalar como base de aprendizado, reforçaram esse modelo de atendimento.
A crescente especialização dos profissionais e a centralização das tecnologias no ambiente hospitalar trouxeram benefícios inegáveis, como maior capacidade de diagnóstico, tratamento e procedimentos de alta complexidade. Por outro lado, isso trouxe superlotação, aumento de custos e novas ameaças, como infecções e erros médicos.
Com a chegada do século 21, o debate sobre a sustentabilidade desse modelo hospitalocêntrico se intensificou. A demanda por serviços de saúde cresceu, impulsionada pelo envelhecimento populacional, o aumento das doenças crônicas e os custos crescentes de tratamentos de alta tecnologia.
Nesse contexto, diversos atores do setor passaram a questionar se a concentração do cuidado no hospital realmente oferece a melhor relação custo-benefício para todos os perfis de paciente. Mas essa discussão começou a criar forma ainda no século 20.
Desde a década de 1970, com o desenvolvimento dos primeiros sensores biométricos e o início do monitoramento remoto, surgiu a ideia de que determinados pacientes poderiam ser tratados fora do hospital com segurança e eficácia. O conceito de hospital em casa (HEC) surgiu no Reino Unido ainda nos anos 1970, propondo um modelo de atendimento domiciliar para reduzir custos e melhorar desfechos clínicos.
Nas últimas duas décadas, avanços em monitoramento remoto, dispositivos vestíveis, análise de dados estruturados e telemedicina impulsionaram a viabilidade do HEC. Ele deixou de ser uma experiência restrita a estudos-piloto e se tornou um modelo consolidado em várias partes do mundo, com respaldo de evidências científicas robustas.
Programas de HEC já foram implementados com sucesso em países como Austrália, Canadá e Espanha. Em todos eles, a modalidade não apenas reduziu o tempo de internação como também melhorou a satisfação de pacientes e familiares.
Durante a pandemia, o interesse por modelos de HEC cresceu ainda mais. Com a necessidade de distanciamento social e a superlotação dos hospitais, muitas instituições aceleraram a adoção de soluções de monitoramento remoto e teleconsultas.
Pessoas com quadros clínicos estáveis puderam receber acompanhamento médico em casa, liberando leitos hospitalares para casos mais graves. Essa experiência prática reforçou a ideia de que, em muitas situações, o hospital pode não ser o melhor lugar para o paciente.
Nem todas as condições clínicas são elegíveis para esse modelo de assistência. Estudos apontam que doenças crônicas e algumas linhas de cuidado selecionadas, como pneumonia adquirida na comunidade e infecção urinária, são as que mais se beneficiam do HEC.
Nessas situações, o risco de complicações pode ser controlado de maneira eficaz em casa, desde que haja uma equipe multidisciplinar acompanhando o paciente, seja de maneira presencial ou virtual.
O atendimento pode ocorrer em diferentes formatos.
Além de trazer benefícios ao paciente, o HEC pode ser uma solução para o esgotamento físico e emocional dos profissionais de saúde, agravado no período pós-pandemia.
Em vez de lidar com a superlotação hospitalar, a equipe atua de maneira mais focada e personalizada, reduzindo a carga de trabalho presencial e melhorando a qualidade da interação com o paciente.
Esse modelo também favorece a humanização do cuidado. O paciente permanece em seu ambiente familiar, cercado por seus entes queridos, o que pode acelerar a recuperação.
A tecnologia para viabilizar o HEC já está desenvolvida, regulamentada e validada cientificamente. Então, o que impede uma adoção em larga escala?
A mudança para um modelo assistencial menos dependente do hospital é uma necessidade econômica, clínica e social. O HEC representa um passo fundamental nessa transformação, trazendo benefícios para pacientes, profissionais e para o próprio sistema de saúde.
Ao permitir que boa parte dos cuidados seja realizada no domicílio, o HEC traz muitas vantagens. Reduz custos, melhora a experiência do paciente e libera recursos hospitalares para casos de maior complexidade.
É fato que ainda existem barreiras a ser superadas, como a adequação dos modelos de financiamento e a evolução cultural no meio médico. Mas a pressão por maior eficiência, a disponibilidade de tecnologias avançadas e a busca por práticas mais centradas na qualidade de vida dos pacientes indicam um caminho sem volta.
Mais do que um conceito, o HEC é uma oportunidade de repensar a forma como a saúde é oferecida. À medida que profissionais, instituições e fontes pagadoras alinharem esforços para viabilizar essa modalidade, estaremos cada vez mais próximos de um sistema de saúde moderno, sustentável e verdadeiramente focado nas pessoas, dentro e fora das paredes do hospital.
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1 comentário
Acredito e apoio fortemente as ações que promovem o modelo de Hospital em Casa (HEC), como destacado neste artigo. Trata-se de uma transformação necessária, viável e urgente. O monitoramento remoto de pacientes no pós-alta é um ótimo exemplo. Além de assegurar a continuidade do cuidado e contribuir para melhores desfechos clínicos, pode e deve ser encarado como uma nova fonte de receita para os hospitais. Precisamos acelerar a quebra de barreiras culturais e fomentar um modelo de saúde cada vez mais eficiente e eficaz.
Parabéns pela iniciativa e pela coragem de trazerem um assunto tão relevante, Anna e Gustavo!