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Tecnologia e inovação

10 min de leitura

DApps e seu uso nos negócios

Descubra uma nova maneira de criar, gerenciar e executar aplicativos por meio da tecnologia blockchain

Colunista Tatiana Revoredo

Tatiana Revoredo

08 de Junho

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Artigo DApps e seu uso nos negócios

Com o surgimento da tecnologia blockchain e o desenvolvimento da web 3.0 (que tem ser humano como razão de ser e a descentralização como uma das características principais), os aplicativos descentralizados adquiriram uma importância única no mundo dos negócios que pretendem perdurar ao longo dos próximos anos. Neste artigo, vamos explorar um pouco os aplicativos descentralizados ou dApps (abreviação de decentralized applications).

Lógica de negócios através de dApps

DApps são aplicativos baseados em blockchain ou na Web 3.0, que exigem vários recursos da tecnologia da confiança como contratos inteligentes e redes peer-to-peer. Pense que, ao invés de executar a lógica de negócios em um servidor centralizado, um dApp executa a lógica de negócios em um blockchain.

Por que uma empresa iria querer isso? A razão para executar a lógica de negócios através de dApps reside no fato de que em um blockchain, você pode contratar com alguém que você não conhece ou não confia, sem a necessidade de um intermediário para executar esse contrato em caso de descumprimento do acordado.

Isso diminui a assimetria de informações, otimizando a velocidade do negócio e evitando os altos custos que envolvem as transações tradicionais mais centralizadas.

A origem de uma ideia

Um criptoativo como bitcoin constitui uma reserva de valor, porque representa literalmente o valor (o ativo) sendo registrado em um blockchain. Em 2013, época em que o bitcoin começou a ganhar maior aceitação, a tecnologia de suporte (blockchain) desse criptoativo passou por um exame mais apurado.

Observando a resiliência da tecnologia, algumas empresas começaram a experimentar ideias onde os “metadados” de ativos reais foram carregados em cima de bitcoins. Essa configuração ficou conhecida como “colored coins”.

O objetivo dessas empresas era, basicamente, registrar dados em uma rede blockchain com propriedades robustas de imutabilidade e resistência à adulteração, e que sua transferência de mecanismos de propriedade pudesse ser prontamente aplicadas.

Como exemplo, os dados de propriedade de um imóvel poderiam ser “armazenados” em um blockchain para produzir um registro onde a propriedade poderia ser verificada sem um intermediário como um tabelião, o que poderia reduzir drasticamente o custo de registro. E foi assim que a ideia dos aplicativos descentralizados surgiu. Qual o principal benefício dos dApps? O principal benefício dos dApps vem do fato de que sua tecnologia subjacente (blockchain) é capaz de substituir os sistemas centralizados de cada parte interessada por uma solução descentralizada, onde todas as partes interessadas podem ter acesso.

Para que você possa compreender melhor, vamos entender como a centralização cria desafios para os modelos de negócios ou para os direitos dos consumidores no mundo atual.

Um ótimo exemplo são as redes sociais, onde todas as nossas interações são capturadas pela plataforma que pode monetizar esses dados como nossas fotos, nossos relacionamentos com outras pessoas, nossos comportamentos de navegação e usar esses dados para vender produtos e serviços.

Na verdade, se você está usando um serviço e ele é grátis, então você é o produto real que está sendo vendido, porque as plataformas de redes sociais estão usando seus dados e comercializando-os para profissionais de marketing e terceiros para pagar pelo custo de fornecer esse serviço para você.

Ora, esse modelo já está sofrendo restrições tanto no âmbito regulatório (como as recentes aprovações das leis de proteção de dados), quanto no âmbito tecnológico, com o próprio desenvolvimento das novas tecnologias que caminham para o uso de redes distribuídas.

Em contrapartida, a premissa dos aplicativos descentralizados é a possibilidade de usar protocolos blockchain e moedas digitais como o mecanismo subjacente que as pessoas usarão para pagar por esses serviços dApps para obter esse modelo.

O objetivo é “invertê-lo” para que consumidores e usuários de aplicativos tenham mais motivação, enquanto também permite mais inovação sobre esses protocolos e dApps, abrindo o ecossistema para os desenvolvedores. Antes de prosseguirmos, vamos conhecer os princípios que norteiam os dApps.

Os princípios dos aplicativos descentralizados

Os dApps são open source, isso é, possuem código aberto. Traduzindo: código aberto é um mecanismo para desenvolver, de maneira colaborativa, novos tipos de software, onde não há um único arquiteto ou autor, mas sim muitas pessoas diferentes que contribuem para o todo e obtém o benefício do compartilhamento de conhecimento.

Daí, a natureza descentralizada da plataforma blockchain significa que é mais fácil coordenar as atividades de muitos desenvolvedores diferentes que estão contribuindo para uma base de código comum.

O segundo princípio dos dApps é que eles são, como o próprio nome indica, descentralizados. Todos os registros e atividades relacionados aos dApps são armazenados e executados num sistema blockchain cuja principal característica é o uso de redes peer-to-peer (distribuídas).

Por fim, o último princípio diz respeito ao fato de que os dApps são incentivados. Vamos usar o bitcoin como exemplo para compreendermos como funcionam esses incentivos numa rede blockchain:

Os integrantes da rede (validadores, também conhecidos como mineradores) que registram as informações no bloco, validam as transações e ajudam a tornar a rede bitcoin extremamente segura. Os validadores são incentivados com o recebimento da taxa de mineração (que atualmente está em 6,25 bitcoins). Ou seja, eles recebem uma quantia em bitcoin para realizar os cálculos que permitem que as transações de bitcoin aconteçam de maneira segura, e sem possibilidade de fraude.

Mas voltando aos dApps, os participantes no suporte às atividades dos aplicativos descentralizados e, de alguma maneira, recebem incentivos, e existem muitas maneiras de se fazer isso (que abordaremos com profundidade em outro artigo). Por enquanto, guarde a noção de incentivos.

Qual o principal desafio dos dApps?

Sem dúvida, o principal desafio dos dApps é que eles fazem parte de uma “mudança de era” que impõe aos players tradicionais e ao status quo uma nova maneira de se pensar, e conceber modelos de negócios “em rede”. Já falamos disto no primeiro artigo desta coluna.

Daí porque, a concepção e o desenvolvimento dos dApps tem uma complexidade peculiar, dada a exigência de aquisição e integração de diferentes partes interessadas de um determinado sistema.

Mesmo assim, alguns dApps já conseguiram superar essas dificuldades, que em grande parte envolvem uma oxigenação cultural, e já estão comercializando seus serviços, como veremos mais adiante. Mas antes de verificarmos o “uso de dApps no mundo real”, vamos compreender os componentes críticos e categorias dos dApps para negócios.

Componentes críticos e categorias

Construir aplicativos usando blockchain requer um entendimento de três componentes críticos: (1) quem são os participantes envolvidos; (2) que ativos serão criados, gerenciados e executados pelo dApp; (3) quais são as regras para interações (contratos).

Normalmente, os dApps são divididos em três categorias: (1) aplicativos que gerenciam dinheiro, (2) aplicativos onde o dinheiro está envolvido; (3) “outros” aplicativos. Alguns especialistas, contudo, preferem classificá-los em apenas duas categorias: aplicativos financeiros e não financeiros.

Nessa classificação, os aplicativos descentralizados financeiros ajudam os usuários a gerenciar transações e firmar contratos que envolvem dinheiro. Como exemplos de dApps financeiros, podemos citar as carteiras de criptomoeda (wallets), testamentos, meios de pagamento, derivativos financeiros e contratos de hedge.

Essa categoria também abrange aplicativos cujo foco principal pode não necessariamente envolver dinheiro, mas ter elementos financeiros vinculados a eles, como micropagamentos para compras no aplicativo em jogos de computador.

Já os aplicativos descentralizados não financeiros concentram-se apenas em projetos em que os pagamentos não fazem parte do aplicativo. E como exemplo dessa categoria, temos os aplicativos para votação on-line (como Voatz), registro de imóveis, registro de veículos, cadeia de suprimentos, rastreamento de procedência, dentre outros.

Acredita-se que o Namecoin tenha sido o primeiro a criar uma cópia do bitcoin para desenvolver um blockchain não financeiro onde os usuários poderiam possuir nomes em vez de bitcoins. Nessa linha, temos o NameID que é um dApp que permite aos usuários criarem identidades online legíveis por humanos.

Agora que já vimos os componentes críticos e as categorias dApps para negócios, vejamos como eles são usados hoje.

O uso de dApps

No início de 2018, a maioria dos dApps estavam em fase de desenvolvimento ou em estado experimental. No entanto, a partir de 2019, esse cenário mudou com uma velocidade impressionante, com o desenvolvimento de protocolos e toda a infraestrutura que a tecnologia blockchain exige. Já em 2020, o número de dApps nos principais blockchains existentes era o seguinte:

  • 2.696 dApps no blockchain Ethereum: MakerDAO era o dApps melhor classificado com sete dias de volume de USD $ 3.722.417;

  • 636 dApps no blockchain Tron: WINk era o dApp melhor classificado com sete dias de volume de USD $ 340.610;

  • 316 dApps no blockchain EOS: EOS Dinasty era o dApp melhor classificado com 7 dias de volume de USD $ 32.652;

  • 92 dApps no blockchain Steem: Splinterlands era o dApp melhor classificado com 7 dias de volume de USD $ 44.047;

  • 24 dApps no blockchain Tomochain: TomoMaster era o dApp melhor classificado com 7 dias de volume de USD $ 63.100; dentre outros.

Um caso de uso atual de sucesso que podemos mencionar para facilitar a compreensão do que vimos até aqui é o dApp da Provenance que oferece um serviço de rastreamento para cadeias de suprimentos onde organizações, e até mesmo os usuários finais, podem verificar a procedência dos produtos que eles usam ou consomem em tempo real, sem possibilidade de adulteração ou falsificação.

O interessante nesse caso da Provenance é que ela busca satisfazer as demandas de transparência de marcas populares, fabricantes e governos, onde cada um dos participantes pode verificar de maneira independente se a cadeia de suprimentos do início ao fim atende às condições estabelecidas.

Ora, tal proposta pode ser bastante interessante para evitar, por exemplo, diamantes minerados em condições antiéticas.

Vamos, então, utilizar a cadeia de diamantes para traçar uma lista típica de partes interessadas nesse tipo de dApp.

Basicamente, as partes envolvidas neste aplicativo inclui:

  • Produtores (por exemplo, um minerador de diamantes);

  • Fabricantes (joalheiros de diamantes);

  • Registradores (serviços de credenciamento de diamantes);

  • Organizações e órgãos de normas que definem as regras de um determinado esquema como, por exemplo, a Fairtrade;

  • Certificadores e auditores que atuam como agentes independentes para verificar padrões;

  • Clientes e consumidores que compram o produto final (por exemplo, clientes de joalheria).

Nesse caso de uso, você pode esperar que cada um dos interessados possa visualizar detalhes como o lugar de onde vieram os diamantes, sua qualidade e quantidade original e a propriedade do diamante ao passar por diferentes estágios até alcançar o joalheiro.

Essa é a promessa única da tecnologia blockchain e ledger distribuída (DLT) como um todo, já que suas funcionalidades e recursos tecnológicos associados são propícios a atualizações em tempo real e maior transparência e auditabilidade.

Ethereum

O blockchain mais utilizado para o desenvolvimento de dApps, sem dúvida, é o Ethereum, que fornece aos desenvolvedores uma camada fundamental: um blockchain com uma linguagem de programação Turing-complete integrada. Ela permite que qualquer empresa desenvolva aplicativos descentralizados onde possam criar contratos inteligentes e dApps com suas próprias regras de propriedade, formados de transações e funções.

Todavia, como vimos, não existem apenas dApps no blockchain Ethereum. Há inúmeros blockchains surgindo a cada dia, trazendo novas possibilidades ao ecossistema dos dApps.

Por fim, conquanto os custos para o desenvolvimento “do zero” de um blockchain sejam desaconselháveis em razão dos altos custos, uma empresa não precisa utilizar os protocolos já existentes para desenvolver seu dApp.

POSSIBILIDADES

Já teve curiosidade sobre como os protocolo blockchain e os dApps são desenvolvidos? Pensou nas vantagens e desvantagens que uma empresa pode obter ao adotar o desenvolvimento colaborativo (open source) de novos tipos de protocolo e softwares?

Além disso, pensou que que nesses novos protocolos e software não há um único arquiteto ou autor, mas sim muitas pessoas diferentes que contribuem para o todo e obtém o benefício do compartilhamento de conhecimento? Pense nessas questões até nosso próximo encontro. Até breve.

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Colunista

Colunista Tatiana Revoredo

Tatiana Revoredo

Especialista em Blockchain Business Applications pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e estrategista blockchain pela Saïd Business School - University of Oxford. CSO na The Global Strategy, pesquisadora da Plataforma Internacional Atopos (USP), e autora do livro “Blockchain: Tudo o que você precisa saber”.

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