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Desperdício e fome no mundo

Poderíamos eliminar a fome no Brasil com o combate à perda e ao desperdício de alimentos. Temos os fatos, os dados e os caminhos para isso, mas falta inovar para acelerá-los

Colunista Suelen Schneider

Suelen Schneider

15 de Agosto

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Artigo Desperdício e fome no mundo

No mundo, 690 milhões de pessoas passam fome todos os dias. Esse é o equivalente a mais de três vezes a população brasileira. Os efeitos colaterais da Covid-19 podem trazer um incremento de 83 milhões a 132 milhões de pessoas à esta trágica estatística de acordo com cenários levantados pela FAO (Food and Agriculture Organisation of the United Nations).

O Brasil vinha desempenhando seu papel muito bem e, inclusive, ocupando posição de destaque no controle e na luta contra a fome no território doméstico, conforme diversas publicações das Nações Unidas. Em 2014, o Brasil saiu do mapa da fome. Isso ocorre quando o país apresenta menos de 5% da população vivendo abaixo da linha de extrema pobreza.

Infelizmente, esta é uma realidade que está mudando. A ONU prevê que 5,4 milhões de brasileiros passem para a linha de extrema pobreza até o final de 2020. Assim, o total de pessoas que vivem em extrema pobreza passaria para mais de 14 milhões, ou 7% da nossa população.

Uma das 17 metas das Nações Unidas até 2030 é a fome zero no mundo. Entretanto, as estatísticas mostram que o mundo está na contramão dessa meta agora. Ao mesmo tempo, outros estudos - da mesma organização internacional - mostram um nível de desperdício e perdas de alimentos extremamente alto: cerca de um terço dos alimentos são perdidos ou desperdiçados, o que representa 1,3 bilhão de toneladas e seria suficiente para alimentar 2 bilhões de pessoas, acabando com a fome no mundo. Então, vem a pergunta: por que todo esse alimento não é usado para acabar com a fome no mundo?

Nesse ponto, é necessário uma pausa para explicar onde o problema ocorre e, para isso, gostaria de separar o problema seguindo a mesma classificação da ONU: (1) perda de alimentos e (2) desperdício de alimentos.

Por perda de alimentos, entende-se os alimentos perdidos durante toda a cadeia produtiva, que passa pela produção agropecuária, processamento industrial e distribuição logística até o ponto de comercialização ao cliente final. Globalmente, estima-se que 14% da produção de alimentos são perdidos. Isso ocorre por problemas de produtividade, sanitários, climáticos, embalagens inadequadas, controle de frio insuficiente ou apenas de manuseio incorreto no transporte.

Apenas para citar um exemplo, na indústria de carnes, milhares de toneladas eram, e ainda são, descartadas do consumo humano por apresentar algum tipo de problema sanitário. Os controles sanitários no Brasil são muito rigorosos e assim devem ser para garantir a saúde da população. Porém, uma boa parte desses produtos poderia, com tratamento térmico adequado, voltar ao consumo humano. Portanto há muito espaço para pensar em soluções antes de descartar alimentos. Tais soluções devem ser pensadas colaborativamente entre governo, indústrias e universidades. Essas últimas, com a contribuição especial de pesquisas científicas.

Já por desperdício de alimentos entende-se todo o alimento perdido a partir dos restaurantes, supermercados e até mesmo na casa do consumidor. Algumas das causas desse tipo de perda são falta de manutenção de equipamento de frio nos supermercados, fragilidade das embalagens, porções muito grandes servidas nos restaurantes ou até mesmo nas casas, consumo não consciente de alimentos, dentre outros. No Brasil, calcula-se que mais de 26 milhões de toneladas de alimentos sejam desperdiçadas por ano.

Um exemplo muito interessante é o prato feito. O famoso PF (prato feito) é um vilão do desperdício de alimentos porque normalmente é servido em porções muito generosas. Tão generosas que sempre há muitas sobras nos pratos dos consumidores. O Instituto Akatu, uma organização não-governamental e sem fins lucrativos que trabalha para disseminar um consumo mais consciente, vendo o tamanho do desperdícios com os pratos feitos, lançou uma campanha remodelando os tamanhos dessas porções, o #novoPF, para os restaurantes.

Benefícios evidentes

O combate à perda e ao desperdício de alimentos pode trazer três benefícios fundamentais:

a) aumentar a produtividade das indústrias, o que tem um efeito positivo na economia de qualquer região; b) possibilitar alimentar mais pessoas e combater a desnutrição; e c) reduzir o “lixo” gerado e a poluição ambiental como um todo.

Então, cabe perguntar: se temos tantas vantagens e há sobra de alimentos, por que é tão difícil solucionar tal problema e levar esses alimentos a quem mais precisa?

Desafio sistêmico

Na verdade, estamos diante de um problema sistêmico, cuja solução pode ser encontrada adotando-se três grupos de ações que devem ser realizadas de maneira integrada e coordenada:

1) Educar a população em geral e os profissionais do setor de alimentos sobre um consumo consciente, evitando compras desnecessárias ou sobras nos pratos dos consumidores. 2) Implantar políticas governamentais e setoriais que abram as possibilidades aos empresários para tratarem os problemas das perdas na cadeia produtiva de maneira responsiva e inovadora. 3) Investir em infraestrutura e tecnologias que permitam uma cadeia de frio, armazenagem, transportes e acondicionamento dos alimentos mais adequados. Como há o problema de que nem sempre as sobras estão onde os mais necessitados precisam, transportá-las de maneira adequada a esses pontos é primordial neste grupo de ações.

Os fatos, os dados e os caminhos estão postos na mesa. Diversas ações estão sendo realizadas, mas ainda são insuficientes. Governo, empresários e sociedade precisam trabalhar de mãos dadas para solucionar esse problema mais rapidamente.

A pergunta que fica é: como acelerar essas ações?

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Colunista Suelen Schneider

Suelen Schneider

Especialista em estratégia e supply chain, Suelen Schneider ocupou posições-chave em uma das maiores empresas de alimentos do Brasil por 12 anos. Tem mestrado pela FGV-Eaesp e especializações internacionais pela University of Califórnia em Irvine, Indian Institute of Management Bangalore na Índia, Yale School of Management nos EUA e Koç Universiti na Turquia, Hoje é empreendedora, consultora e educadora na MultiConcept e doutoranda em liderança e mudanças globais na Pepperdine University, dos EUA.

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