
Um estudo com 14 empresas, tais como S.C. Johnson, Unilever e Cemex, deu origem ao framework apresentado a seguir. Visualizado como uma casa, ele efetivamente ajuda a definir desde as prioridades de investimento e a otimização operacional de uma organização segundo o propósito
Na última década, as ideias de propósito ambiental e social se tornaram cada vez mais presentes na retórica pública das empresas. Mas, embora declarações e metas referentes a isso sejam abundantes, os investimentos na transformação do portfólio e da estratégia do negócio segundo essa lógica ainda registram números baixos e grande dispersão. Não para por aí: poucos investimentos são priorizados e/ou estão integrados à estratégia corporativa de longo prazo e aos planos operacionais.
Como as empresas podem incorporar significativamente o propósito corporativo como o autêntico princípio orientador da empresa?
Neste artigo, extraído do meu livro Beyond Shareholder Primacy: Remaking capitalism for a sustainable future, desenvolvo um framework prático para verdadeiramente embarcar o propósito no negócio, com base na experiência de várias empresas inovadoras.
Ao incorporar um propósito social/ambiental mais elevado como algo niclear na busca de negócios e comprometer-se a defender uma mudança maior do sistema e um redesenho institucional de acordo, os líderes empresariais podem ajudar a catalisar uma forma realmente sustentável de capitalismo, projetada para lidar com os desafios existenciais que enfrentamos no século 21.
A maioria dos esforços corporativos para incorporar o propósito social envolve um número relativamente pequeno de pessoas seniores – líderes de alto escalão, funcionais e de negócios.
O potencial de envolver e alinhar totalmente toda a organização, incluindo a média gerência e os funcionários da linha de frente, permanece inexplorado.
Se não houver foco na transformação da organização inteira, existe o risco de que sua chefia (ou seja, a alta administração) se desconecte do corpo (membros organizacionais), tornando todo o esforço ineficaz e potencialmente contraproducente.
Para entender a natureza dessa desconexão com mais profundidade – e a melhor forma de lidar com ela –, eu e meus colegas Priya Dasgupta e Kate Napolitan examinamos de perto alguns valores corporativos verdadeiramente diferenciados e inovadores. Observamos uma seleção de quase 15 empresas que identificamos como fora da curva quando se trata de propósito social, sustentabilidade e transformação corporativa.
Descobrimos que articular um propósito claro é necessário, mas não suficiente para a tarefa de focar a atenção da empresa nos desafios reais que busca enfrentar.
Nosso estudo descobriu que incorporar a sustentabilidade e um propósito social no DNA central de uma empresa requer o realinhamento sistemático de toda a arquitetura corporativa, incluindo propósito, metas, métricas e estratégias, bem como os principais elementos organizacionais – estrutura, sistemas, processos, recompensas e incentivos.
Pegamos emprestada a metáfora da “casa” da Griffith Foods, uma das empresas que estudamos, para representar como esses vários blocos de construção se encaixam como um sistema, criando um framework.
Nosso framework imagina a empresa como uma casa. [Veja figura abaixo.] Os valores corporativos formam sua base, e o propósito corporativo serve como o teto, que cobre todo o restante. Aspirações e buscas, metas e métricas, remuneração e incentivos, e estratégia constituem os diferentes andares da organização orientada por propósito.
Os valores da base da casa são aqueles compartilhados na empresa – têm a ver com o que a empresa acredita e com como as pessoas concordam em se comportar em sua vida diária no trabalho.
O telhado, que serve para abrigar, proteger e cercar todo o resto dentro da casa, é o propósito da empresa – uma articulação clara de por que a empresa existe.
As aspirações e buscas corporativas servem para dar textura e clareza ao propósito – quais impactos positivos específicos a empresa procura causar no mundo por meio do negócio.
O andar intermediário da casa é então composto pelos elementos centrais da estratégia, que definem como a empresa irá formatar o objetivo de ter sucesso em atingir as aspirações e buscas: estrutura e governança, experimentos e iniciativas, tecnologias e capacidades, parcerias e plataformas.
Por fim, metas e métricas específicas servem para acompanhar o progresso; recompensas e incentivos são então desenvolvidos para todos na empresa para permitir engajamento e realização.
Vamos examinar cada um dos elementos da arquitetura corporativa com mais profundidade, com exemplos das 14 empresas que estudamos.
Em que acreditamos: valores. As empresas transformacionais que examinamos estabeleceram uma base sólida construída sobre os valores de suas organizações.
Esses valores vividos compõem a cultura da empresa e abrangem o que ela acredita e como as pessoas se comportam umas com as outras e com seus stakeholders.
A base deve ser forte o suficiente para apoiar tudo o mais que a organização aspira a se tornar.
Por exemplo, a S.C. Johnson tem sido guiada por um forte conjunto de princípios e valores desde sua fundação em 1886 e formalizada em uma declaração em 1976 que estabelece cinco categorias de stakeholders perante as quais a empresa assume responsabilidades: funcionários, consumidores e usuários, o público em geral, vizinhos de suas sedes e a comunidade mundial.
Tudo na S.C. Johnson flui desses valores e princípios fundamentais – eles permeiam a cultura da empresa e influenciam o comportamento e as decisões do dia a dia de maneiras fundamentais.
Por que existimos: propósito. Com valores que servem de base, o telhado da casa consiste em uma clara articulação do propósito corporativo.
Um propósito social convincente é distinto dos esforços para articular a visão e a missão corporativas, que geralmente são de natureza competitiva ou técnica, enfatizando os pontos fortes da empresa e como eles levariam ao sucesso competitivo no futuro.
O propósito transformacional, por outro lado, dá voz ao motivo pelo qual a empresa existe – que impacto positivo ela busca ter no mundo. É um chamado moral à ação, um propósito maior, que promove a conexão emocional e o compromisso por parte dos membros da organização.
O objetivo da SC Johnson é “tornar o mundo um lugar melhor para a próxima geração, sendo uma empresa familiar que trabalha para um mundo melhor”.
O objetivo da Ben & Jerry’s é promover o movimento global por justiça social, econômica e ambiental por meio da “prosperidade conectada”. Para a Ben & Jerry’s, o sorvete é apenas um meio para um conjunto mais nobre de fins.
A Griffith Foods envolveu a base na definição de seu propósito corporativo: “Combinamos cuidado e criatividade para nutrir o mundo”.
Praticamente todas as empresas de ponta que estudamos proclamaram propósitos que se concentravam em seus papéis no mundo e forneciam o porquê por trás de tudo o que faziam.
Entre esse grupo de empresas “discrepantes”, o propósito também serviu para informar e orientar a estratégia por meio de um conjunto convincente do que chamo de aspirações e buscas.
O que solucionamos: aspirações e buscas. Declarações elevadas de propósito podem gerar frustração e cinismo se parecerem meros chavões ou não se conectarem com a realidade enfrentada por gestores e funcionários.
Para superar esse potencial de desconexão, muitas das empresas em nosso estudo desenvolveram aspirações e buscas para dar vida ao propósito corporativo e servir como tecido conjuntivo para o desenvolvimento de estratégias, metas, métricas, recompensas e incentivos.
Após amplo envolvimento com a alta administração e consulta aos stakeholders, a Griffith Foods convergiu para um conjunto de três aspirações de negócio, com impacto e métricas financeiras para cada uma.
As aspirações do negócio eram distintas das metas de sustentabilidade mais fundamentais, que lidavam com objetivos operacionais e funcionais, como uso de energia, uso de água, P&D, engajamento e realização dos funcionários.
A primeira aspiração de negócios relacionada a oportunidades se concentrou na parte upstream da cadeia de valor da Griffith – defendendo um futuro agrícola sustentável para os pequenos plantadores que cultivam especiarias e ervas da Griffith e para os agricultores que cultivam os grãos de commodities usados em seus produtos.
Financeiramente, a Griffith pretendia obter 25% de seu lucro até 2030 de ingredientes e produtos cultivados usando práticas agrícolas regenerativas.
A segunda aspiração de negócio se concentrou na transformação da própria tecnologia e portfólio de produtos da Griffith Foods, com o objetivo de dimensionar o impacto positivo por meio de produtos acabados mais nutritivos e sustentáveis para o cliente.
Financeiramente, a Griffith pretendia obter 50% de seu lucro até 2030 de produtos de clientes que atendessem ou excedessem os padrões globais externos de nutrição ou sustentabilidade.
Finalmente, a terceira aspiração relacionada a oportunidades de negócios se concentrou na parte downstream da cadeia de valor da Griffith, ampliando o impacto positivo pela criação de novos mercados e atendimento a pessoas com carências econômicas e nutricionais.
Em termos financeiros, a Griffith pretendia obter 10% de seus lucros até 2030 de negócios que atendessem a esse público.
As aspirações de negócio recém-definidas também serão usadas para determinar o direcionamento de investimentos de capital para o futuro – o que o CEO T.C. Chatterjee chama de “grandes apostas” – para permitir que as aspirações se tornem realidade.
O próximo passo será a elaboração da missão corporativa da Griffith Foods. Ao contrário das aspirações de negócio, que podem ser impulsionadas pelos esforços da empresa em toda a cadeia de valor, as buscas são maiores do que qualquer produto, negócio, empresa ou cadeia de valor.
Eles buscam transformar fundamentalmente indústrias e sistemas inteiros por meio de parcerias focadas em determinadas questões, ação coletiva e inovação política.
A Interface, líder em carpetes e pisos, com sede em Atlanta (EUA), por exemplo, assumiu a missão de “liderar a revolução industrial”.
A intenção é construir um negócio que seja negativo em emissões de carbono e influenciar outras empresas a tomar suas próprias ações para reverter o aquecimento global.
A empresa busca transformar fundamentalmente a indústria por meio de parcerias focadas em problemas reais, ações conjuntas e inovação política. Essa busca da Interface quer catalisar uma mudança maior no sistema – um impacto metafórico do Escopo 4, métrica de emissões evitadas capaz de transformar mercados inteiros e cenários da indústria.
Juntas, aspirações e buscas servem como sustentação para a mudança, traduzindo propósito e intenção em estratégia e realidade operacional.
Como vencemos: estratégias e iniciativas. Para viver o propósito e tornar reais as aspirações e buscas, estratégia e execução são fundamentais. É preciso foco organizacional (estrutura e governança), inovação e iteração (experimentos e iniciativas), investimento em competências essenciais para o futuro (tecnologias e capacidades) e alcance do ecossistema mais amplo (parcerias e plataformas) para tornar as aspirações e buscas uma realidade.
Uma estrutura e um sistema de governança com sustentabilidade incorporada, em vez de ficar como algo lateral, estabelecem funções e responsabilidades claras para permitir a definição de prioridades, as tomadas de decisão e a execução da estratégia.
A governança ajuda a incorporar os esforços de sustentabilidade, começando com o conselho e o CEO e apoiada por uma equipe dedicada.
Na Unilever, por exemplo, todo comitê de nível de diretoria tem um mandato relacionado ao propósito a cumprir, com o CEO sendo o responsável final pela entrega desse propósito.
Um conselho engajado e alinhado é crucial para superar as inevitáveis pressões por desempenho de curto prazo que podem servir para bloquear o investimento e o compromisso necessários para realizar a transformação.
No caso da Unilever, o conselho apoiou a ousada iniciativa do ex-CEO Paul Polman de abolir os relatórios trimestrais de resultados, o que serviu para abrir as portas para um pensamento de longo prazo na empresa, consistente com seu propósito.
Na Trane Technologies, uma empresa de manufatura focada em controle climático e refrigeração, a estrutura de governança da empresa inclui conselhos consultivos de sustentabilidade internos e externos, bem como o Centro de Eficiência Energética e Sustentabilidade, fundado em 2010 para integrar a sustentabilidade às operações.
A Trane Technologies também é uma das primeiras empresas industriais a ter uma meta de sustentabilidade, ligada ao CEO, focada na redução de gases de efeito estufa.
Essa meta do CEO serve para enquadrar as metas climáticas para toda a equipe sênior, seguindo para todos os níveis da empresa, tornando-se efetivamente um indicador-chave de desempenho em toda a organização.
Essa governança clara permite a busca de experimentos e iniciativas – sejam eles projetos-piloto ou sondagens de mercado de pequena escala –, novos produtos e serviços ou uma revisão dos modelos de negócio existentes – de acordo com o propósito e as aspirações da empresa.
Por exemplo, a Essilor, líder global em cuidados com a visão, criou uma divisão de missão completamente nova, focada em levar a correção da visão a pessoas desassistidas do mundo como parte de sua iniciativa See Change.
O See Change catalisou o desenvolvimento e o lançamento de dezenas de novas tecnologias de baixo custo destinadas a alcançar os 2,5 bilhões de pessoas de baixa renda no mundo com visão deficiente não corrigida.
A iniciativa também resultou em novos modelos de negócios inovadores para alcançar áreas rurais remotas, como o programa de micro-óptica Eye Mitra, que treina homens e mulheres locais em condição de subemprego para prestar cuidados oftalmológicos.
A Cemex, uma empresa mexicana de materiais de construção, é conhecida há muito tempo por suas iniciativas estratégicas focadas em atender às pessoas desassistidas na base da pirâmide.
A partir da década de 1990, a Cemex lançou uma série de experimentos com o objetivo de desenvolver novos modelos de negócios em moradias acessíveis e sustentáveis fora do alcance do negócio atual.
Ao fazer isso, a Cemex está construindo a rede de parceiros e modelos de negócio necessários para moldar o ecossistema de construção de amanhã.
Experimentos e iniciativas não podem ter sucesso a menos que as empresas também identifiquem e invistam em tecnologias e recursos que usarão para transformar o negócio de acordo com seu propósito e aspirações.
Também pode ser necessário abandonar produtos e tecnologias tradicionais que não estão alinhados com as aspirações futuras.
Nossa pesquisa mostrou que as empresas líderes normalmente investem de 5% a 15% da receita em P&D na busca de se transformar nas companhias sustentáveis do futuro.
Nas últimas duas décadas, a DSM (agora DSM-Firmenich AG) transformou-se de uma mineradora e petroquímica (DSM inicialmente significava Dutch State Mines) em uma empresa de base científica com foco em nutrição e inovação para a economia de base biológica, circular e de baixo carbono do amanhã.
Nossa exploração também mostra que as empresas de ponta estão percebendo que parcerias e plataformas estratégicas são fundamentais para cumprir as propostas de valor social mais amplas associadas às buscas corporativas.
Ecossistemas de parceria e engajamento em plataformas colaborativas mais amplas podem abordar mudanças sistêmicas além das capacidades da própria empresa.
Em linha com sua aspiração de aumentar a renda dos agricultores, a Mars estabeleceu o Farmer Income Lab – um laboratório de ideias (think-and-do-tank) colaborativo com o objetivo de elevar as comunidades de pequenos agricultores como um todo, garantindo assim cadeias de fornecimento sustentáveis para a empresa no futuro.
O que medimos e como aceleramos: metas e indicadores, remuneração e incentivos. As empresas com propósito verdadeiramente incorporado desenvolvem um sistema interconectado começando com o propósito, que se espalha para aspirações e buscas, que por sua vez são rastreadas por meio de metas e métricas específicas e reforçadas por meio do sistema de recompensas e incentivos.
O propósito é duradouro; as aspirações e buscas são de longo prazo e servem como faróis para o desenvolvimento de estratégias e planos de negócios, mas também podem evoluir conforme necessário; espera-se que as metas e métricas sejam atualizadas, revisadas e alteradas periodicamente à medida que o mundo (e as condições do negócio) mudam; e recompensas e incentivos são atualizados todos os anos.
Aspirações e buscas servem como o tecido conjuntivo que conecta o propósito corporativo amplo e duradouro às realidades do negócio mais imediatas e práticas operacionalizadas por meio de metas, métricas, recompensas e incentivos em constante evolução.
Uma vez que a Seventh Generation desenvolveu um conjunto de aspirações da empresa com metas e métricas associadas, a liderança deu o passo para conectá-las diretamente às recompensas e incentivos dos membros da organização.
Na Seventh Generation, cada funcionário faz parte do sistema de incentivo de bônus. Dependendo do cargo e nível na empresa, os bônus constituem entre 10% e 50% da remuneração total. As metas comerciais e financeiras constituem 80% do bônus; os 20% restantes estão focados no progresso em direção às quatro aspirações de negócios focadas na sustentabilidade da empresa.
Para se qualificar para o bônus, todos os funcionários devem participar de um programa de voluntariado comunitário e de um programa anual de educação e conscientização sobre liderança/sustentabilidade.
Essa participação também forma a base para a definição de metas e métricas de desempenho individuais dos funcionários, feitas em conjunto pelos funcionários e seus gestores.
Para a maioria das empresas, no entanto, as metas e métricas estão desconectadas do propósito: as métricas, juntamente com recompensas e incentivos, geralmente se concentram no progresso do negócio no curto prazo – o que foi alcançado neste trimestre ou neste ano – enquanto quase nunca abordam metas e aspirações de longo prazo.
Esses objetivos de curto prazo desmotivam as pessoas, estreitando seu foco e diminuindo sua criatividade, e minam a paixão e o compromisso desesperadamente necessários para resolver os enormes desafios globais que enfrentamos.
No entanto, a incorporação eficaz de propósito requer autenticidade e compromisso emocional, não apenas recompensas monetárias e incentivos financeiros.
Com isso em mente, vamos examinar mais de perto o desafio de envolver efetivamente a média gerência e a base de funcionários na realização do propósito, aspirações e buscas da empresa.
Motivação para o bem
Um crescente número de pesquisas indica que um propósito ou missão organizacional inspiradora pode resultar em maior identificação pessoal, compromisso organizacional, engajamento, criatividade, desenvolvimento de capacidades e satisfação de necessidades entre membros e funcionários da organização.
Robert Quinn e Anjan Thakor, por exemplo, propuseram uma economia de propósito superior: “A adoção de um propósito superior autêntico cria um vínculo entre os funcionários e o propósito e os motiva a trabalhar mais, ser mais empreendedores e subordinar seu interesse próprio ao bem comum, tudo para ajudar a organização a servir ao seu propósito maior”.
Eles reforçam: “Esse senso de propósito resulta em melhor desempenho econômico. No entanto, essas coisas acontecem apenas se os funcionários acreditarem que o propósito é autêntico”.
O propósito autêntico é, portanto, paradoxal: resulta em maior motivação e melhores resultados de negócios somente quando não é realizado com a intenção de gerar melhores resultados de negócios.
Para gerar essa crença, o propósito maior deve ser o árbitro de todas as principais decisões do negócio – não apenas quando é conveniente ou atende às necessidades de desempenho de curto prazo.
Os líderes devem comunicar regularmente o propósito maior, integrá-lo à estratégia de negócio e efetivamente tecer um propósito superior autêntico no trabalho e nas decisões do dia a dia da média gerência e dos funcionários de linha.
Muitas empresas tentaram impulsionar o propósito e a sustentabilidade estabelecendo metas “ambiciosas” e vinculando a remuneração dos executivos a elas.
Infelizmente, os gestores intermediários e as bases geralmente respondem com ceticismo às declarações de propósito elaboradas pela alta administração e às demandas de seus superiores para mudar suas rotinas de trabalho com base em novas expectativas transmitidas de cima.
“Cenouras e chicotes” podem produzir uma mudança de comportamento de curto prazo, mas esses incentivos externos raramente produzem a mudança de mentalidade necessária para que a transformação em larga escala aconteça, muito menos a identificação emocional e o compromisso organizacional desejados.
As empresas de ponta em nosso estudo reconheceram que o incentivo mais poderoso é o trabalho significativo e gratificante e, portanto, têm como objetivo ativar os funcionários por meio de iniciativas focadas na conscientização e compreensão sobre o propósito e as aspirações das empresas, incorporação de propósito em descrições de cargos e avaliações de desempenho, bem como recompensas e incentivos.
De fato, essas empresas normalmente pediam a todos os gestores e funcionários que contribuíssem pessoalmente para o propósito corporativo como um KPI (propósito pessoal) e muitas vezes vinculavam essas contribuições diretamente ao sistema de bônus.
A Interface exibe um sistema especialmente bem-desenvolvido para dar vida a propósitos e aspirações, ativando o propósito pessoal dos funcionários para aumentar a motivação e o comprometimento internos.
Reconhecendo que a busca da “retomada climática” (reverter o impacto climático por meio de produtos negativos em carbono) como uma missão significaria a transformação de toda a empresa – seus produtos, processos, competências, tecnologias, materiais, modelos de negócio e parcerias –, a companhia buscou motivar, ativar e engajar seus funcionários por vários meios.
Primeiro, a Interface redefiniu e reafirmou seus valores fundamentais: “projetar uma maneira melhor”, “ser genuíno e generoso”, “inspirar os outros”, “conectar o todo” e “abraçar o amanhã hoje”.
Esses valores fundamentais foram então codificados como comportamentos e incorporados diretamente às descrições de cargos e incluídos nas avaliações de desempenho para todos em toda a empresa.
Mas a empresa não deixou de lado as formas mais extrínsecas de motivação (ou seja, por meio de recompensas e reconhecimento). Além disso, a liderança buscou realmente ativar e engajar os funcionários, começando com uma campanha de conscientização sobre o significado da crise climática.
Em seguida, os gestores de nível médio receberam um conjunto de diretrizes para conversar com seus subordinados diretos sobre a missão – e como torná-la real para eles no trabalho. Esse engajamento foi complementado por workshops sobre suas aspirações para todos os funcionários, com foco em entender como o que cada um faz se relaciona e como eles contribuem para a missão.
Ao combinar conscientização, educação e engajamento pessoal, a Interface busca envolver a pessoa como um todo na busca para desacelerar e, finalmente, reverter a crise climática.
Olhando para o futuro, então, a transformação para a sustentabilidade não será apenas uma questão de como motivar ou incentivar os funcionários externamente, mas, em vez disso, como promover e nutrir efetivamente uma maior qualidade de motivação interna dos funcionários.
De fato, parece que transformar o negócio em uma “causa” convincente é a melhor maneira de capturar a imaginação – e a dedicação ao trabalho – dos funcionários e membros da organização.
As 14 companhias estudadas pelos autores são:
Supondo que uma empresa já tenha desenvolvido uma declaração de propósito social que se concentre amplamente no impacto positivo que a organização busca ter no mundo, o próximo passo é dar vida a esse propósito de uma forma que:
Subindo o nível. O primeiro passo é desenvolver um conjunto atraente de aspirações do negócio e uma busca corporativa que torne o propósito operacional. Eu recomendo os seguintes passos:
Walking the talk. É preciso compartilhar as metas, aspirações e busca com os membros da organização, bem como começar a integrar tudo a estratégias, sistemas formais e processos da empresa.
Vivendo o propósito. A etapa final é ativar o compromisso emocional dos funcionários com o propósito, metas, aspirações e buscas da empresa.
Essas etapas possibilitam a criação de um círculo virtuoso conectando propósito, aspirações e buscas, metas e métricas, recompensas e incentivos em um sistema integrado e autorreforçador.
Esse sistema de propósito interconectado serve como a infraestrutura pela qual todas as estratégias, iniciativas, inovações e parcerias transformacionais da empresa fluem.
Para as empresas abertas, o desafio é justificar ações tão ousadas em um mundo ainda dominado por um mercado de ações impulsionado pelo pensamento de curto prazo e pela falta de reconhecimento (ou mesmo negação) dos enormes e crescentes custos externos impostos ao mundo pelos negócios operados da forma habitual.
Para permitir e acelerar essas transformações corporativas necessárias, as empresas precisarão se envolver mais ativamente na perseguição de uma busca corporativa audaciosa: transformar o sistema institucional mais amplo dentro do qual operam – o regime de políticas públicas, o sistema financeiro e, é claro, as escolas de negócios que fornecem às empresas as pessoas que atualmente perpetuam o status quo – de modo a acelerar as estratégias transformacionais que buscam seguir.
Este artigo foi extraído do livro Beyond Shareholder Primacy: Remaking Capitalism for a Sustainable Future.