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A segurança da informação sempre buscou responder duas perguntas dentre muitas outras: quem pode acessar e o que acontece se o segredo vazar? As duas respostas estão sendo reescritas ao mesmo tempo.
A IA agêntica muda a primeira. Antes, quem acessava os sistemas eram pessoas ou programas com comportamento previsível. Agora os agentes interpretam objetivos, escolhem caminhos, chamam ferramentas e executam ações. A computação quântica muda a segunda. A criptografia de chave pública que sustenta a Internet se apoia em problemas matemáticos que um computador quântico suficientemente capaz conseguirá resolver em alguns anos.
Um tema é sobre delegação, o outro sobre tempo. Ambos atacam a confiança, que é o principal ativo de qualquer instituição, especialmente das financeiras. E ambos pedem a mesma virtude organizacional: saber o que se tem, quem age e ter capacidade de mudar rápido.
Riscos de segurança na era agêntica
A era agêntica traz ganhos relevantes de produtividade, velocidade e qualidade, mas cria uma ruptura importante: o risco deixa de estar concentrado apenas no conteúdo produzido pela IA e passa a incluir as ações que ela pode realizar. Uma resposta incorreta de um assistente pode gerar uma decisão inadequada. Um agente com acesso a dados, APIs e sistemas corporativos pode transformar essa mesma resposta em uma ação concreta.
A McKinsey & Company define essa mudança de forma precisa: dar poder de ação a um agente não é ativar uma funcionalidade; é transferir alçada decisória. A pergunta deixa de ser apenas se o modelo é suficientemente preciso e passa a incluir quem responde quando o sistema age.
Isso exige respostas claras para algumas perguntas fundamentais: qual é a finalidade do agente? Quem responde por ele? A quais dados e ferramentas pode ter acesso? Quais ações pode executar sem aprovação? Como seu comportamento será monitorado? E, principalmente, como interromper ou reverter uma operação inadequada?
Os principais riscos, destacados por especialistas e organizações como o OWASP, referência global em segurança de aplicações, incluem:
O Gartner incluiu deepfakes, comprometimento de aplicações de IA, prompt injection e riscos na cadeia de suprimentos de software entre as ameaças críticas de seu ThreatScape 2026–2027. A superfície de ataque passou a incluir agentes desenvolvidos internamente, integrações de terceiros e aplicações corporativas de IA com acesso a dados e credenciais.
Como se proteger na era agêntica
A defesa precisa ser arquitetural, separando instruções confiáveis de conteúdo externo, isolando contextos, validando entradas e saídas e limitando as ferramentas que cada agente pode acionar. Operações privilegiadas, críticas ou irreversíveis devem exigir verificações adicionais ou aprovação humana.
Identidade e acesso passam a ocupar um papel central. Cada agente deve ser tratado como uma identidade digital governada, com finalidade registrada, credenciais próprias, privilégios mínimos e permissões temporárias. Ele não deve herdar automaticamente todos os acessos de uma pessoa nem utilizar uma identidade genérica compartilhada com outros agentes.
O princípio de Zero Trust continua válido, mas precisa ser ampliado. Não basta verificar usuários e dispositivos. É necessário verificar continuamente agentes, modelos, APIs, serviços, conectores e identidades de máquina. Uma credencial legítima não assegura que a ação também seja legítima. O comportamento precisa ser avaliado em relação ao contexto, ao objetivo e ao risco.
Essa mudança também alcança a forma como verificamos pessoas. Com deepfakes de voz, imagem e vídeo cada vez mais realistas, nenhum desses elementos pode continuar funcionando isoladamente como prova definitiva de identidade. A nova fronteira é a confiança contextual e contínua. Dispositivo, comportamento, localização, histórico, padrão transacional, prova de vida, biometria e contexto da solicitação precisam formar uma visão integrada do risco.
A observabilidade agêntica passa a responder sobre o que o sistema foi convencido a fazer. Inclui registrar instruções recebidas, fontes consultadas, ferramentas chamadas, parâmetros usados e resultados, e monitorar desvios de comportamento em tempo real.
A responsabilidade na IA agêntica não muda, continua sendo da organização. Decisões de maior consequência continuam exigindo julgamento, contexto e accountability humana.
Resiliência antes que o risco se materialize
Se a era agêntica exige repensar quem pode agir sobre os sistemas, a computação quântica exige repensar por quanto tempo esses sistemas e seus dados permanecerão protegidos.
O risco não começa somente quando surgir um computador quântico criptograficamente relevante. Informações criptografadas podem ser capturadas hoje e armazenadas para uma futura tentativa de decodificação. Esse movimento, conhecido como harvest now, decrypt later, muda a lógica do prazo.
Para dados que precisam permanecer confidenciais durante muitos anos, a preparação pós-quântica já deve fazer parte da avaliação de risco. A pergunta é se a informação protegida hoje ainda terá valor quando isso acontecer e quanto tempo a organização levará para adaptar todos os ambientes que dependem desses padrões.
O National Institute of Standards and Technology publicou, em 2024, os padrões pós-quânticos e recomenda que as organizações iniciem a migração. Seu planejamento prevê retirar algoritmos vulneráveis de seus padrões até 2035, com sistemas de maior risco fazendo a transição antecipadamente.
Migrar uma grande organização, entretanto, não significa apenas substituir um algoritmo. A criptografia está distribuída em aplicações, bibliotecas, certificados, protocolos, equipamentos, integrações, sistemas legados e soluções de terceiros.
O primeiro passo é construir visibilidade. É preciso identificar onde a criptografia está sendo utilizada, quais dados protege, por quanto tempo esses dados precisam permanecer seguros e quais ambientes exigirão mais tempo e esforço para a migração.
O segundo passo é construir criptoagilidade. Uma arquitetura criptoágil permite substituir mecanismos criptográficos de forma controlada, sem reconstruir integralmente cada sistema que depende deles. Isso requer abstração, desacoplamento, testes de interoperabilidade e capacidade de conviver temporariamente com diferentes padrões durante a transição.
A preparação pós-quântica também não pode ocorrer de forma isolada. Instituições financeiras dependem de fornecedores, infraestruturas de mercado, protocolos, plataformas e contrapartes.
Resiliência é chave para o futuro da segurança
A era agêntica e a computação quântica trouxeram novos desafios para a segurança das organizações. Se proteger passa a ser um desafio conjunto das empresas, governos, sociedade e academia. Segurança também não é responsabilidade exclusiva dos times de cibersegurança. Engenharia, arquitetura, dados, risco, jurídico, compliance e negócio precisam atuar sobre uma visão comum.
Times multidisciplinares precisam estabelecer a governança e os riscos aceitáveis, estabelecer limites de autonomia e garantir responsáveis claros para agentes, modelos e decisões. A confiança não pode avançar mais lentamente que a autonomia. Quanto mais os sistemas decidirem e executarem, maior deverá ser nossa capacidade de governar, observar e corrigir. E quanto mais distante parecer uma ameaça, mais importante será avaliar quanto tempo precisaremos para estar preparados. A resiliência do futuro será construída pelas decisões tomadas antes que a urgência elimine nossas opções.
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