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Concentrar toda a energia em proteger o presente parece eficiente, mas cobra um preço que só aparece quando o mercado já mudou
Existe uma característica comum que raramente aparece nas discussões sobre inovação, transformação digital ou competitividade empresarial: o imediatismo. Boa parte das empresas fala sobre o futuro, mas poucas conseguem efetivamente investir nele de forma contínua e estruturada.
Na prática, muitas organizações acabam operando em um ciclo constante de reação, em que o mercado muda, a empresa reage; uma nova tecnologia surge, a empresa se adapta; um concorrente se movimenta, a empresa corre atrás. Isso não acontece por falta de visão ou capacidade. Muitas vezes, significa apenas que toda a energia da organização está sendo consumida pela necessidade de proteger o presente. Esse pode ser um dos maiores riscos estratégicos para empresas que operam em mercados de rápida transformação.
Quando observamos mercados mais maduros, especialmente Estados Unidos e Europa, é comum encontrar organizações que investem continuamente em capacidades que ainda não têm um caminho claro de monetização no presente, mas que podem se tornar fundamentais nos próximos ciclos competitivos. Isso vale para pesquisa, desenvolvimento, novos produtos, infraestrutura, modelos operacionais e até formação de talentos.
Historicamente, economias líderes em tecnologia investem entre 3% e 6% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, sustentando ciclos contínuos de construção de capacidades futuras por décadas. No Brasil, o último levantamento dessa estatística, feito pelo MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) em 2023, apontou que o investimento foi de 1,2%.
O reflexo disso já apareceu. Em 2025, o Brasil caiu para a 52ª posição, entre 139 países, do Índice Global de Inovação da Organização Mundial da Propriedade Intelectual. Foi o segundo ano consecutivo de queda, perdendo a liderança latino-americana para o Chile.
Mas, a principal diferença pode não estar apenas no volume investido. Boa parte da inovação em mercados menos maduros ainda está mais associada à adaptação inteligente e à execução eficiente do que à construção de tecnologias de ruptura.
Naturalmente, existem exceções. O setor financeiro brasileiro é um dos melhores exemplos de sofisticação tecnológica construída com consistência ao longo do tempo. O próprio PIX se tornou referência global em infraestrutura de pagamentos instantâneos, interoperabilidade e inclusão financeira.
O ponto central, no entanto, não é discutir se o Brasil produz ou não tecnologia relevante. A questão é o quanto estamos construindo capacidades de modo sistemático, e não apenas reativo. Há uma diferença importante entre adaptar tendências e construir posicionamento competitivo para os próximos ciclos.
Empresas maduras conseguem interpretar o passado sem ficarem presas a ele. Elas observam comportamento de clientes, movimentos competitivos, mudanças tecnológicas e transformações regulatórias não apenas para proteger o modelo atual de negócio, mas para identificar quais capacidades vão sustentar sua relevância nos próximos anos.
Esse é um dos principais fatores que diferenciam as organizações que se mantêm competitivas das empresas que vivem permanentemente reagindo ao mercado. No curto prazo, o imediatismo pode até parecer eficiente. Afinal, concentrar recursos apenas no que monetiza hoje normalmente melhora eficiência operacional, reduz pressão financeira e simplifica decisões executivas.
O problema é que a tecnologia tornou os mercados significativamente mais dinâmicos. As necessidades dos clientes mudam. As tecnologias mudam. Os modelos competitivos mudam. E empresas que passam tempo demais apenas reagindo ao presente frequentemente começam a perder relevância sem perceber.
No fundo, estratégia é uma discussão permanente sobre que empresa se deseja ser no futuro. E essa discussão inevitavelmente gera uma pergunta desconfortável: o quanto da energia da companhia se gasta apenas para proteger o presente, e o quanto se investe em construir relevância futura? Porque existe um custo implícito no imediatismo, e ele normalmente só aparece quando o mercado já mudou.
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