Na era da IA, ainda estamos presos a âncoras. Precisamos nos soltar e buscar novos caminhos - mas como?
Falamos tanto de agentes de IA que eu volta e meio me pergunto (e pergunto aos outros) se tudo será agêntico nos negócios daqui para frente.
E a resposta certa é: não, claro que não. Temos de calibrar a IA de acordo com o tipo de decisão a tomar.
A IA analítica, que combina de machine learning a processamento de linguagem natural e visão computacional, é a mais recomendada nas decisões de escopo estrito, em que o objetivo é mensurável, há dados em abundância e os ciclos de feedback são relativamente rápidos. Ela funciona bem com uma campanha de retenção de clientes, mas não vai funcionar em decisões amplas, que envolvem vários objetivos e provavelmente vários impactos, prioridades que concorrem entre si, restrições políticas, ambiguidade. Já no caso da reestruturação organizacional, por exemplo, como mudar de uma estrutura por produto para uma por cliente, é preciso de IA generativa e agêntica para ajudar a equipe a formular um pequeno conjunto de cenários coerentes, antecipar efeitos de segunda ordem sobre os stakeholders, revelar tensões entre a estratégia declarada e os padrões vigentes de alocação de recursos – e assim poder fazer os trade-offs necessários.
O fato é que a gente ainda está aprendendo a calibrar a IA, né?!
Do mesmo modo, não vamos precisar usar IA de fronteira (mega-master-blaster) para tudo; precisamos calibrar.
No entanto, talvez tenhamos de ter organizações de fronteira para tudo.
É?!? Sim, pode ser. E vou explicar.
Como aponta o artigo do Silvio Meira nesta edição, Microsoft, Amazon, OpenAI e Anthropic acabam de criar organizações específicas para prestar serviços às empresas, enxergando que o valor não está no LLM em si, mas no serviço derivado do conhecimento agêntico. Com isso, estão entrando no território das grandes e pequenas consultorias, e também dos institutos de inovação. O surgimento dessas organizações de fronteira, como Meira as denomina a partir da Microsoft Frontier Company e da transição entre o terceiro e o quarto estágio da IA, tem efeitos muito importantes a seu ver: altera o tipo de confiança que é o ativo decisivo do setor, provoca mudanças estruturais nas empresas e na pirâmide/pipeline de seus profissionais, impacta a geoeconomia como um todo (com especial atenção para o Sul Global). Ele projeta quatro cenários para tudo isso até 2030 (não cenários vagos; os indicadores são bem claros).
O atual momento é de fronteira e ele ocupa toda esta Review. É explicado em detalhe no artigo de Meira, é claro, mas também quando trazemos pesquisas sobre os profissionais de fronteira (os que aprenderem a dirigir agentes de IA – existem quatro abordagens para isso), as operações de fronteira (que escalam valor – até nas vendas B2B de equipamentos industriais, e com resultados de sustentabilidade), as estratégias de fronteira (que somam eficiência com resiliência) e o RH de fronteira (comandado pelo mindset de oportunidade nas contratações).
O mundo não virou de cabeça para baixo, e talvez (com sorte) nunca vire, mas você também não pode mais ficar preso a velhas âncoras. O mundo nos pede, cada vez mais, novos pontos de vista (e teremos de olhar para as coisas de cabeça para baixo de vez em quando). Mas minha confiança é de que nossos leitores, que sempre viveram na fronteira do conhecimento, estarão preparados para ter os insights de maior valor. (Confiança arquitetada, não confiança como premissa – você vai entender o que é isso lendo o Silvio Meira.)
Boa leitura e boa sorte!
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