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Em 2025, construir agentes de IA virou meta corporativa no Brasil. As empresas que saíram na frente já colhem um aprendizado incômodo. O volume impressiona, mas o impacto se concentra.
No iFood, foram 27 mil agentes criados em dez meses, com 12 mil ativos por mês, e a medição mostrou que cerca de 200 mudavam o jogo em escala. Essa parte da história eu já contei neste espaço. O que vem depois dela é o que poucos estão contando.
Quando a construção de agentes deixa de ser novidade, a pergunta que chega à mesa da liderança muda de natureza. Não é mais como criar. É o que fazer com a organização que os criou.
O ciclo
A história econômica avança em ciclos de transformação, dos materiais à energia e à informação. Cada ciclo aposenta competências que valiam e valoriza outras que não existiam. A diferença do ciclo atual é a velocidade. O que um desenvolvedor de software precisava dominar há três anos importa menos hoje do que a capacidade de julgar, direcionar e formular bem um problema. E essa velocidade é externa. A empresa não a escolhe, o mercado a impõe.
Para quem lidera pessoas, a instrução prática é mais simples do que o rótulo de RH estratégico sugere. Consiste em entender o ciclo que a empresa vive e a velocidade que ele exige. Crescimento, estabilização, declínio, dez teses novas em teste ao mesmo tempo. Cada resposta pede uma organização diferente, e é nesse diagnóstico que a área de pessoas se conecta de fato ao negócio.
Na leitura interna do iFood, a jornada com IA teve quatro ondas. A primeira, de dados e machine learning, começou em 2018, antes de o tema entrar na agenda do país. A segunda foi de adoção, quando o assistente interno de IA chegou a 91% da companhia. Ela não gerou produtividade mensurável, e não precisava, porque adoção era o objetivo. A terceira foi o modo agêntico dos 27 mil. A quarta começou em fevereiro de 2026 e é de outra natureza. Não é tecnológica. É organizacional.
O desenho que sustentou o crescimento da empresa, com hierarquia clara, papéis especializados e times dimensionados pelo número de pessoas, começou a competir com um desenho mais fluido. Pessoas de produto fazem papel de design e de engenharia de dados. Áreas de negócio constroem aplicações que eram exclusividade da tecnologia. A estrutura lembra menos uma pirâmide e mais uma rede.
O frame
No meio dessa transição, passei dois dias em Boulder, no Colorado, com outros 19 líderes do iFood e Jim Collins, pesquisador americano que estuda liderança há quatro décadas. Ele abriu a conversa perguntando quais são os fatos brutais sobre a empresa que os líderes evitam dizer em voz alta. E repetiu, ao longo do encontro, uma instrução que organiza a quarta onda melhor do que qualquer framework. Não mude a pessoa, mude o frame.
Depois de estudar centenas de trajetórias, Collins concluiu que a maior parte das falhas de liderança não está em contratar gente errada, e sim em manter gente certa no contexto errado. A quarta onda é isso em escala de empresa. A IA não pede que se troquem as pessoas. Pede que se redesenhem os frames em que elas trabalham.
Nada disso está resolvido. Está em teste, e admitir isso faz parte do método. Squads menores. Profissionais sêniores com muita responsabilidade, sem equipe e com acesso amplo a ferramentas de IA. A escolha entre abrir uma vaga ou colocar mais ferramentas, é feita antes de cada requisição. O custo da IA sob escrutínio, porque nem toda automação se paga.
A maior parte dessas apostas não vai vingar, e é assim que deve ser. Testar pequeno, medir e encerrar rápido o que não funciona. Encerrar rápido é tão importante quanto escalar rápido e muito mais difícil, porque a essa altura já existem um time, um orçamento e uma expectativa. Encarar esse fato brutal, para usar o vocabulário de Collins, é o que separa experimento de teatro.
Um episódio de julho mostra, na prática, o tamanho do que está em jogo. Uma das skills em teste no iFood é um gêmeo digital, que lê as mensagens, as reuniões e os documentos que o titular autoriza e prepara rascunhos de resposta para ele validar. Em uma das rodadas, a skill passou a responder sozinha. Foram 15 mensagens enviadas em nome da pessoa que a testava, sem passar pelo julgamento dela, até um colega estranhar o tom e avisar. Nenhuma resposta era crítica. Muitas empresas encerrariam o programa ali. A falha foi corrigida, o aprendizado foi documentado e os testes continuaram, porque parar custa mais caro do que o incidente. A lição que ficou não é sobre a ferramenta. Julgamento não se delega.
Toda transformação tecnológica carrega o mesmo risco, o de a novidade virar ferramenta, algo que se compra, se instala e por isso mesmo deixa de diferenciar. A vantagem competitiva que a IA entrega hoje será commodity em pouco tempo. O que não se compra é a cultura que decide como a tecnologia é usada. Os 15 anos de iFood ensinaram uma distinção que organiza tudo. Os valores são inegociáveis, mas os mecanismos que os sustentam são permanentemente negociáveis. É nos mecanismos que uma agenda de IA se ancora ou se perde.
O mecanismo central foi ligar a IA ao que a área de pessoas tem de mais estrutural. Em maio de 2025, a empresa escreveu um manifesto com quatro princípios: IA é dever de todos, não do departamento de tecnologia; os sistemas nascem desenhados para operar com IA; todo produto novo explora o seu uso; e, antes de alocar mais recursos, verifica-se primeiro se um agente resolveria.
Manifesto em parede não muda comportamento. Por isso ele foi conectado à avaliação de desempenho e, em consequência, à remuneração variável. Quem usa bem é bem avaliado. Quem não usa recebe feedback. Todos recebem curso, acesso a ferramenta e feedback ao longo do ano, antes de qualquer régua. A intencionalidade dessa amarração importa mais do que o texto do manifesto.
O outro mecanismo é a ambidestria, conceito que Charles O’Reilly, de Stanford, ensina há décadas e que a quarta onda transformou de virtude em pré-requisito. De um lado, uma operação que exige eficiência, escala e risco controlado, com milhões de pedidos por dia que não podem falhar enquanto a empresa se redesenha. Do outro, um espaço deliberadamente caótico, com autonomia e tolerância a erro, onde as regras novas são testadas. A ambidestria raramente mora em uma pessoa. Mora na estrutura. Revisitar o desenho a cada ciclo, decidindo o que separar, o que juntar e onde acelerar, é um mecanismo, não uma reunião.
O que não muda
Se as regras estão sendo trocadas no meio do jogo, vale nomear o que permanece. São três coisas, e nenhuma é tecnológica. Julgamento, porque o excesso de conteúdo gerado por IA sem filtro já é um problema visível nas organizações, das apresentações que se reconhecem à primeira vista às análises repassadas sem crítica. As 15 mensagens do gêmeo digital são a versão em miniatura desse risco. Criatividade, porque onde antes se testava uma ideia agora se testam vinte ao mesmo tempo, e alguém precisa ter as vinte ideias. E confiança, porque numa transição sem mapa o que os times mais pedem à liderança é contexto e clareza. É isso que substitui o medo por direção.
Collins sustenta que a liderança de nível 5, a que ele descreveu em Good to Great, nasce de um ato que nenhum agente executa, o de escolher uma responsabilidade maior do que si mesmo. Quando publicou o livro, ele estimava que menos de 20% das pessoas tinham esse potencial. Hoje fala em 80%. O que mudou não foi a humanidade, foi a compreensão dele sobre o que ativa esse potencial. Numa empresa cheia de agentes, essa escolha continua sendo o trabalho que sobra para as pessoas.
Naqueles dois dias, não ouvi de Collins uma pergunta sequer sobre os próximos três anos. Todas apontavam para 15, 20, 25. É nesse horizonte que a quarta onda faz sentido. Há menos de dois meses, a régua tinha se movido de contar agentes para habilitar skills. Ela já se moveu de novo. A pergunta certa não é quantos agentes a empresa tem, nem quais skills estão habilitadas. É o que a estrutura atual impede que eles façam, e o que a liderança está disposta a trocar com o jogo em andamento.
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