Centro de formação executiva focado em liderança, inovação e curadoria de conteúdos para líderes e gestores do futuro.

Conheça mais

O portal brasileiro da faculdade de gestão do MIT, trazendo conteúdo de qualidade e confiável sobre o tema.

Você está aqui

Acesso a estudos exclusivos e materiais de ensino produzidos pela faculdade de negócios de Harvard.

Versão brasileira do portal referência em negócios na China, endossado pela universidade de negócios Cheung Kong.

Conheça mais
O CNEX faz parte do ecossistema Atitus. Conhecimento, tecnologia e inovação. Conectadas com o mesmo propósito: o seu futuro.

Status de leitura

Faça login para usar este recurso

Crie uma playlist

Faça login para salvar este conteúdo em suas playlists

Não lido

©2026 MIT Sloan Management Review Brasil. Todos os direitos reservados. A reprodução, total ou parcial, é proibida sem a autorização prévia e expressa do CNEX.

Heteronomia Cognitiva: quando a prótese pensa por nós

Cássio Pantaleoni
10 min de leitura
Heteronomia Cognitiva: quando a prótese pensa por nós

A distância entre a minha cama e o acesso digital diminuiu substancialmente. O que antes era um trajeto de dez ou quinze passos, há muito ganhou um dedo de vantagem.  Entretanto, cada vez mais sinto o inverso – a desvantagem que aparece como cansaço. E isso me suscita algum sentido de constrangimento: não há tempo ou espaço para prostração. Levanto-me, como quem reconhece que agora mais do que nunca é preciso se conformar. Quase tudo virou algoritmo dentro ou fora da máquina. Parece-me que se tornou imperativo agir em conformidade com estes algoritmos. Algo que me aborrece.

Parece-me indiscutível: nós entregamos às máquinas um saber que antes era nosso. E entregamos aos especialistas do mercado à tarefa de nos orientarem com scripts de interação social: como publicar um post, como iniciar uma conversa, como terminar um relacionamento, como parecer executivo, como parecer inteligente, como dar uma palestra etc. Scripts que agora, curiosamente, são elaborados por máquinas por solicitação desses especialistas para prover-lhes autoridade em certo assunto. 

Por mais que eu me esforce para considerar isto um ganho, a sensação que me abraça é de perda. No século XIX, o operário perdeu para a máquina o saber-fazer de suas mãos. No século XXI, todos nós que estamos perdendo para a inteligência artificial o saber-pensar. Vale pontuar: não fomos forçados. Ninguém nos acorrentou. Nós nos rendemos por conforto, por cansaço, por pressa. E eu me incluo nessa rendição. 

Dia desses, pedi à máquina que escrevesse sobre algo que eu sentia, e o texto, à primeira vista, me pareceu meu. Era bastante fluente, com estrutura organizada, elegante. Senti certa satisfação. Depois senti medo. Se uma máquina é capaz de dizer o que eu penso de um modo tão particularmente meu, o que resta do meu pensamento? 

Esta é a tese que tem me perseguido: estamos nos acostumando à heteronomia cognitiva (condição em que o pensamento, o julgamento e a formação de crenças de uma pessoa são determinados por fontes externas – autoridades, grupos, mídias ou tecnologias como a IA –, e não pelo uso autônomo da própria razão), que assim se estabelece porque não a reconhecemos como perda, mas como vantagem.

Desde muito entendia que o poder que os recursos digitais exercem sobre nós seria uma espécie de ditadura. Hoje admito que o conceito é impreciso. Uma ditadura se mostra, tem rosto, provoca revolta. O futuro assemelha-se menos com Orwell, em que o poder proíbe e vigia, e mais com Huxley, em que as pessoas aprendem a amar aquilo que as domina. 

Byung-Chul Han deu nome a esse regime: psicopolítica. É um poder que não diz “não”. Diz “sim, mais, mostre-se, compartilhe”. Ele não esmaga a liberdade; alimenta-se dela. Foucault mostrou que o poder mais eficaz é o que se instala dentro do sujeito, e Deleuze percebeu que trocamos os muros da fábrica e da prisão por um controle contínuo, sem paredes, que cabe no bolso e dorme ao lado da cama.

Mas, Cássio, isso tudo não se trata de uma mera escolha? Podemos a qualquer tempo escolher não fazer parte disto. Não. Não é bem verdade. Quem se recusa paga com a irrelevância, com o esquecimento, com a invisibilidade. Fora da arena digital resta a vida crua: a impaciência dos outros, o silêncio, o peso de existir sozinho e, quiçá, entediado. Que escolha é essa em que uma das portas nos subtrai?

A inteligência artificial não chegou a um terreno virgem. Antes dela, o feed das redes sociais já havia preparado o solo. Heidegger descreveu a curiosidade que salta de novidade em novidade sem se deter em nada, e o falatório que circula sem que ninguém se aproprie do que diz. Ele escreveu isso em 1927 e, de certa maneira, descreveu o nosso dedo indicador diante da tela. 

Pascal afirmava que toda a agitação humana nasce da incapacidade de ficar só num quarto. Hoje esse quarto tem uma janela luminosa que nunca se apaga. Skinner explicaria por que voltamos a ela como quem puxa a alavanca de um caça-níquel: a recompensa imprevisível é a que mais aprisiona. Debord previu a existência convertida em espetáculo, e Goffman mostrou que sempre encenamos um eu para os outros. 

A diferença é que agora o palco não fecha, a plateia é infinita e cada gesto recebe uma nota. Han acrescenta que essa encenação obedece a uma ditadura da positividade: todos vigorosos, sorridentes, realizados. A tristeza virou defeito. A dúvida virou fraqueza. O pensamento lento virou desperdício. E somos arrebatados por isso na forma de cansaço. Está no meu corpo ao fim de cada noite perdida na ocupação digital.

Este sujeito exausto, distraído e ansioso por aprovação recebeu de presente os modelos de linguagem (que escrevem como nós) como uma prótese. E parece que ela é o que prova que o sujeito existe. Toda prótese, cedo ou tarde, deixa de ser percebida quando todos a usam.

Mas esta prótese é diferente de todas as anteriores. O livro guardava o pensamento de alguém. A máquina produz um pensamento que não pertence a ninguém. É um pensamento daquilo que é mais provável, a média estatística de tudo o que já foi dito. Os algoritmos achatam até o nosso juízo estético até que tudo só nos pareça belo se tudo pareça com tudo. 

Uma máquina que nos devolve a média do passado leva esse achatamento ao limite. Abra o LinkedIn e veja: textos que soam inteligentes e não dizem nada, opiniões sem biografia, emoções sem corpo, convicções sem risco. É o falatório de Heidegger em escala industrial.

É aqui que a sociedade se torna plástica. Moldável, lisa, sem resistência. Uma mente que não sustenta um argumento longo aceita qualquer argumento curto. Uma mente que não suporta o tédio aceita qualquer distração. Uma mente que terceiriza a própria voz aceita qualquer voz. Esta informação(?) em excesso substitui o debate, e o debate é o que sustenta uma democracia. O que está em jogo não é apenas a qualidade dos nossos textos. É a nossa capacidade de governar a nós mesmos.

Ainda assim, não escrevo para pedir que abandonemos a inteligência artificial. Seria hipocrisia, e seria inútil. Se ela é um pharmakon, a pergunta não é se devemos usá-la, mas como impedir que o remédio vire veneno. Tenho pensado sobre isso, de modo a encontrar um antídoto.

E o que vale para a democracia vale também para os negócios. Os mesmos especialistas do mercado que nos vendem scripts de como parecer executivo e de como parecer inteligente talvez não percebam que estão corroendo aquilo de que uma empresa mais depende: o juízo próprio de quem nela decide. Uma organização feita de mentes que terceirizam a própria voz produz relatórios fluentes, apresentações elegantes e estratégias que soam inteligentes e não dizem nada. Se todos pedem à mesma máquina, todos recebem a mesma média estatística do passado, e aquilo que antes distinguia uma empresa da outra se dissolve num mercado em que tudo se parece com tudo. 

Pior: decisões passam a ser tomadas por quem já não sustenta um argumento longo e aceita o argumento curto que a tela oferece, com convicções sem risco e, por isso mesmo, sem responsabilidade. O operário do século XIX perdeu o saber-fazer das mãos e tornou-se substituível; o profissional que entrega à máquina o saber-pensar caminha para o mesmo destino, e com ele a empresa que confundiu fluência com inteligência.

O desafio, contudo, é recolocar a necessidade de apelar sempre para a prótese, como inexorável primeira opção, quando a ideia do fazer se associou a ideia de resultado e não de desocultamento e armação (modo de revelar o mundo). Lamentavelmente, não vejo espaço (e nem tempo) para esta recolocação. Colocar em dúvida a utilidade da IA beira a ingenuidade. Não se trata de escolher entre isto ou aquilo, entre o nostálgico e o futurista. Não. A escolha deve acontecer por disciplina. E adotar qualquer disciplina é um ato de coragem, como a coragem de ler um livro inteiro, sustentar uma ideia até que ela se torne minha, permanecer com uma pergunta sem correr para a resposta. 

Precisamos de escolas que ensinem a pensar antes de ensinar a pedir respostas. Precisamos buscar a arte fora do feed, onde ela ainda arrisca, estranha e fere. Há mais de dois séculos, Kant definiu o esclarecimento como a saída para a incapacidade de usar o próprio entendimento sem a direção de outro. Sapere aude: ousa saber. 

Volto, então, à tese do início. Estamos vivendo uma heternomia cognitiva. Não perdemos as mãos para a máquina; estamos perdendo a mente. O operário do século XIX só começou a se libertar quando compreendeu sua condição e lhe deu um nome. Talvez seja esse o nosso primeiro passo. Reconhecer que algo nos está sendo tirado no exato momento em que acreditamos estar recebendo. Dizer em voz alta que a fluência da máquina não é o nosso pensamento. E decidir, cada um e todos juntos, que a última palavra sobre o que pensamos ainda nos pertence.

Lamento importuná-los com uma reflexão que já se mostra atávica. Escrevo isto como quem acorda no meio da noite e acende a luz. Ela visa iluminar apenas o meu quarto, o meu canto. A decisão pela luz só existe para aquele que acorda, e cada um desperta quando quer. Os sonhos parecem sempre ser mais sedutores. De minha parte, decidi acordar porque quero sonhar acordado, iluminando até onde o arco da luz do meu abajur alcança. Porque há muito lido com este desconforto de me sentir um operário de enter e cliques. E quero crer que sou bem mais do que um par de dedos. 

Você leu o post? Então faça login e tenha acesso ao recurso de “Marcar como lido”.

Cássio Pantaleoni
Cássio Pantaleoni é Founder da True4Human e membro do conselho consultivo da ABRIA (Associação Brasileira de Inteligência Artificial). Tem mais de 40 anos de experiência no setor de tecnologia, é graduado e mestre em filosofia, e reúne experiências empreendedoras e executivas no currículo. Vencedor do prestigioso prêmio Jabuti, com a obra Humanamente Digital: Inteligência Artificial centrada no Humano.

Deixe um comentário

Ouvir
Bookmark (0)
Please login to bookmark Close
Exportar
Share
Conteúdo da editoria Estratégia e inovação

Para você Faça login para ver sugestões personalizadas

Você atualizou a sua lista de conteúdos favoritos. Ver conteúdos
aqui