
Especialistas debatem os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho e nos negócios
A inteligência artificial está transformando não apenas as estratégias de negócio das organizações como também está desenhando um novo cenário para o mercado de trabalho. De acordo com o estudo “Future of Jobs Report 2025”, do Fórum Econômico Mundial – que ouviu cerca de mil empresas que representam mais de 14 milhões de trabalhadores em 55 países, até 2030 metade dos empregadores planeja reorientar seus negócios em resposta à IA, 40% preveem reduzir sua força de trabalho onde a IA pode automatizar tarefas e dois terços pretendem contratar talentos com habilidades específicas de IA.
Diante disso, surgem alguns questionamentos: como a inteligência artificial irá moldar o futuro do trabalho? Qual o caminho para as empresas continuarem competitivas ao mesmo tempo em que se adaptam às mudanças no mercado de trabalho? Essas e outras questões foram debatidas durante o Fórum ao Vivo – “Futuro inteligente: os impactos da IA no mercado de trabalho e nos negócios”, uma coprodução MIT Sloan Review Brasil e Pinheiro Neto Advogados que contou com a participação de Bruno Marcolini, senior operations manager da Shopee e ex-Google; Larissa Galimberti, sócia da área de tecnologia de Pinheiro Neto Advogados; e Maurício Guidi, sócio da área trabalhista de Pinheiro Neto Advogados.
Durante o webinar, os especialistas comentaram que a IA tem afetado todos os setores da indústria, da economia e da sociedade. “Por esse motivo, é tão discutido o seu impacto no mercado de trabalho. Até porque outras tecnologias também tiveram importância, como o motor a vapor, a eletricidade, o computador e a própria internet. Hoje, a inteligência artificial faz parte desse grupo e chega para transformar a sociedade como um todo”, afirmou Galimberti.
A especialista contou que entre 2010 e 2025 a quantidade de dados disponíveis na rede variou de 2 zettabytes para 181 zettabytes. “Importante entender que 1 zettabyte equivale a 1 trilhão de gigabytes. Isso quer dizer que hoje temos muito mais possibilidade de desenvolvimento de ferramentas de IA”, explicou.
Para Marcolini, da Shopee, diante de tantos dados e informações disponibilizadas, a IA é uma solução extremamente poderosa que vai mudar a forma com que empresas e pessoas resolvem problemas. “A partir disso, o ponto principal é como conseguimos usufruir ao máximo dessa solução, com segurança, para que essa tecnologia não tenha impactos negativos”, comentou.
Em relação aos postos de trabalho, Guidi ressaltou um dado importante divulgado pelo Fórum Econômico Mundial. “De acordo com o levantamento, até 2030 teremos uma transformação gigantesca nas funções e posições de trabalho. Isso porque determinadas funções e tarefas não serão mais executadas pelas pessoas, serão delegadas para a IA. Ao mesmo tempo, uma série de outras profissões e funções dentro das empresas vão começar a surgir”, afirmou.
Ainda segundo o especialista, o que ainda não é possível identificar é se os novos postos de trabalho que surgirão a partir do uso cada vez mais intenso dessas ferramentas serão suficientes para compensar eventuais perdas de funções. “Eu acho que essa é uma grande questão para olharmos ao longo do tempo”, analisou.
E não é para menos. Segundo relatório do Goldman Sachs, a inteligência artificial pode substituir o equivalente a 300 milhões de empregos. Isso afetaria de forma diferente empresas de setores distintos. Por exemplo, a IA impactaria 46% das tarefas administrativas e 44% das jurídicas, mas apenas 6% na área de construção.
Assim como as novas funções, também serão necessárias novas habilidades. “O Relatório do Futuro dos Empregos, também do Fórum Econômico Mundial, aponta que quase 40% das habilidades vão mudar nos próximos cinco anos. E o destaque do levantamento está exatamente na inteligência artificial, assim como big data e letramento digital”, afirmou Santiago Andreuzza, diretor de produtos da MIT Sloan Management Review Brasil e do CNEX, que mediou o webinar.
Entre os principais desafios que esse cenário impõe às organizações está criar uma cultura data-driven. “Essa é uma tecnologia extremamente baseada em dados, que precisam ser trabalhados de forma estruturada e responsável”, disse Marcolini.
O aspecto jurídico também merece atenção. “É preciso cuidado com as informações confidenciais da empresa. Não podemos, por exemplo, usar qualquer ferramenta de IA, como as gratuitas, porque ao colocar informações confidenciais na plataforma, esses dados podem ser usados para o treinamento da ferramenta e ficar disponível a qualquer usuário”, alertou Galimberti.
Por isso, a advogada acredita que o ideal, neste momento em que ainda não existe uma regulação para o uso da IA, é a criação de comitês de ética. “É importante que façam parte deste grupo pessoas das áreas de compliance, tecnologia, TI e jurídica”, acrescentou.
Para acelerar o uso da IA nas organizações, Marcolini ressalta que o primeiro passo é sair da inércia. “Alguns setores da economia ainda pensam que a IA só vai impactar o negócio daqui a cinco anos, e estão aguardando até que a tecnologia esteja superdesenvolvida para começar a testá-la. Isso é um risco porque a chance de a empresa acabar ficando para trás é grande”, pontuou.
Guidi concordou que as organizações não devem esperar grandes avanços “até porque nem as ferramentas de IA estão tão maduras assim”. “Vemos muitas empresas tendo treinamentos específicos sobre IA e sobre como essas ferramentas podem ser usadas de forma segura e ética. Essas companhias, certamente, estarão bastante à frente daquelas que ainda não cogitam o uso dessa tecnologia”, concluiu o advogado.
Assista ao webinar completo neste link: “Futuro inteligente: os impactos da IA no mercado de trabalho e nos negócios”
O artigo foi produzido por Daniel Navas que também é colaborador do portal MIT Sloan Management Review Brasil.