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A geopolítica dos alimentos (parte 2 de 3)

Na segunda parte da série, apresento cinco sistemas que integram a cadeia global de produção de alimentos, analisando ainda o lugar do Brasil nessa complexa rede geopolítica

Colunista Suelen Schneider

Suelen Schneider

07 de Abril

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Artigo A geopolítica dos alimentos (parte 2 de 3)

No primeiro artigo da trilogia geopolítica dos alimentos, tratamos dos riscos geopolíticos que ameaçam a indústria dos alimentos. Neste artigo, vamos nos aprofundar nos sistemas de produção de alimentos, entendendo quais são os principais produtores mundiais e, mais importante, o papel do Brasil neste contexto.

Os sistemas produtivos de alimentos podem ser interpretados de duas formas. A primeira considera uma cadeia simples de suprimentos dos alimentos, que inclui as atividades essenciais de produção e distribuição, como: plantação, colheita, criação de animais, abate, processamento e produção, pesquisa e desenvolvimento, embalagem e acondicionamento, armazenagem, distribuição, transporte e venda. Essa visão mostra o fluxo que o alimento percorre, desde a sua origem, no estágio agropecuário, até a mesa do consumidor.

A segunda visão do sistema produtivo de alimentos trata-o como uma rede produtiva, que vai além dos fatores diretos da cadeia de suprimentos considerados na primeira visão. Ela abarca todos os fatores que podem afetar a cadeia de alimentos, como:

- Fatores ambientais: clima, disponibilidade de terra agriculturável, água, ar, biodiversidade e preservação do meio ambiente;

- Fatores econômicos: emprego, competitividade, criação de valor e disponibilidade de recursos;

- Fatores sociais: cultura, comportamento, classe social, religião (sim, religião impacta o consumo de alimentos, por exemplo: muçulmanos não consomem carne suína, o que é considerado pecado mortal), estilo de vida e influência do nível de educação e das mídias;

- Fatores políticos: legislações, taxas e impostos, estrutura governamental, subsídios, relações de poder e acordos;

- Fatores ligados à saúde: bem-estar, segurança dos trabalhadores, uso de antibióticos, segurança alimentar, dietas e nutrição.

Quando colocamos todas essas peças juntas, percebemos que a imagem do sistema produtivo de alimentos é ampla e complexa. Ainda que os empresários desse setor entreguem produtos essenciais à sociedade, eles precisam lidar com questões adversas ambientais, políticas, sociais e de sustentabilidade.

Essas informações estão cada vez mais acessíveis, e isso afeta a maneira como os empresários gerem seus negócios na tentativa de atender às novas expectativas de excelência e sustentabilidade.

Os tipos de sistemas produtivos

Os sistemas produtivos variam consideravelmente de acordo com o nível de desenvolvimento tecnológico, econômico e social de cada país. Atualmente, percebemos cinco sistemas de produção de alimentos dominantes no mundo. São eles:

- Rural tradicional: nesse sistema, há predominância de pequenos agricultores e produtores locais, com manejo rudimentar e sem tecnologias. Sua cadeia de produção e suprimentos é curta, pois há pouca urbanização, e o comercial fragmentado e informal se estabelece ao redor das zonas de produção. Sem tecnologias, a variedade de oferta de alimentos é atrelada à sazonalidade. Esse é o caso, por exemplo, da Índia.

- Informal em expansão: nesse sistema, passam a existir produtor de média e grande escala com novos insumos, como sementes e fertilizantes. Porém, a produtividade é baixa. Há centros de distribuição modernos para alimentos secos, como grãos. Entretanto, é deficitário para alimentos que necessitam de cadeia de frio, como carnes, lácteos, verduras e frutas frescas. A industrialização dos alimentos é feita a partir de insumos locais e importados, pois a produção local não e autossuficiente. E, na distribuição e vendas, também há uma coexistência dos mercados informais com redes de supermercado e restaurantes que começam a emergir. Um país operando nesse sistema é, por exemplo, a Angola.

- Emergente diversificado: nesse sistema, os produtores rurais de média e grande escala são mais comuns; possuem tecnologias mais avançadas que permitem melhora nos índices de produtividade. Os centros de distribuição passam a ser adaptados para alimentos refrigerados e congelados. Com o avanço da tecnologia, a sazonalidade diminui seu impacto na oferta. Há supermercados em áreas tanto urbanas quanto rurais. E a oferta de produtos processados ganha força, sobretudo em centros urbanos. A África do Sul é um exemplo desse sistema.

- Moderno e formalizado: nesse sistema, a produção agrícola passa a ser de alta escala, com uso de mecanização e de insumos que garantem a alta qualidade e produtividade. Estruturas de processamento de alimentos também são modernas e seguem boas práticas de produção mundial. Apesar do uso de tecnologias mais avançadas, há altos índices de desperdício de alimentos – um problema que precisa ser tratado. As estruturas de distribuição são também modernas e adaptáveis a todos os tipos de alimentos, praticamente acabando com problemas sazonais de ofertas.

Ainda no sistema moderno e formalizado, o comércio é realizado por multicanais, bastante estruturados e presentes em todas as regiões. Há uma estrutura clara dos atores, como agricultores, processadores, distribuidores, varejistas, etc. Os produtos passam a ter rotulagens mais informativas aos consumidores, que são mais maduros. Há também a presença massiva de produtos ultraprocessados. Os países com esse sistema produtivo normalmente têm relevância na exportação de produtos agrícolas, sobretudo commodities. O Brasil é um exemplo.

- Industrializado e consolidado: nesse último nível de sistema produtivo, as atividades agrícolas têm menor peso na economia do que a indústria de processamento. Isso porque o processamento intensivo dos alimentos é usado para agregar valor e alavancar a economia. Países com esse sistema apresentam relevância tanto na produção doméstica quanto na exportação. Nesse estágio, também ocorre a consolidação do mercado, ou seja, varejistas de grande porte compram dos processadores, e os atacadistas compram diretamente dos agricultores, o que reduz a intermediação. A densidade de supermercados é alta e há crescimento de mercados premium. Exemplos são os Estados Unidos e o Japão.

O mapa abaixo mostra o sistema de produção de alimentos dominante em cada país, de acordo com a Food System Dashboard (2020):

Sistema de produção de alimentos dominante em cada país

Grandes produtores mundiais

quatro países que se destacam na produção mundial de alimentos: China, Índia, Estados Unidos e Brasil, nesta ordem. Apesar de a China e Índia serem os dois primeiros produtores dessa lista, eles tendem a consumir a maior parte de suas produções internamente. Isso ocorre porque esses dois países sozinhos concentram 36% da população mundial, tendo a China 1,398 bilhões de habitantes e a Índia, 1,366 bilhões de habitantes. Portanto, eles precisam de grande produção interna de alimentos para reduzir sua dependência de importações.

A situação do Brasil e dos Estados Unidos é diferente. Esses, além de grandes produtores, também são exportadores importantes. Dentre os itens exportados, gostaria de destacar os grãos (principalmente soja e milho) e carnes. No caso dos Estados Unidos, existe uma exportação importante de produtos preparados ou industrializados, o que condiz com um sistema de produção de alimentos que é industrializado e consolidado.

Espaço brasileiro

O Brasil é um ator importante na exportação de alimentos, sobretudo dos dez itens relacionados no gráfico abaixo, segundo informações da Food and Agriculture Organization (2020):

Brasil e commodities

Dentre os itens citados, saliento a importância da exportação de três: soja, milho e carnes. A soma dos valores exportados desses itens totalizou USD 47 bilhões em 2019. É interessante ver que 20% do valor exportado pelo Brasil está amparado em apenas três itens. Esse tipo de análise mostra onde estão os pilares da produção e geração de empregos do nosso país. O Brasil é referência mundial em produção agrícola desses mesmos itens. Fato que nos orgulha muito.

Entretanto, não podemos negar que haja os riscos de concentração de receita em produtos com níveis baixos a intermediários de processamento. O Brasil já apresenta níveis modernos de industrialização e formalização e têm potencial para evoluir ainda mais.

ALIMENTANDO O FUTURO

Olhando para todo esse cenário, precisamos dar um passo adiante no sistema produtivo brasileiro, bem como aumentar a fatia de exportação de produtos com maiores níveis de processamento e valor agregado. Isso aumentará ainda mais nossos superávits comerciais e a rentabilidade de nossas empresas. Para que avancemos nessa direção, é preciso uma combinação de investimentos privados e políticas governamentais que incentive as indústrias brasileiras. Mas isso é tema para uma próxima e profunda discussão.

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Colunista

Colunista Suelen Schneider

Suelen Schneider

Especialista em estratégia e supply chain, Suelen Schneider ocupou posições-chave em uma das maiores empresas de alimentos do Brasil por 12 anos. Tem mestrado pela FGV-Eaesp e especializações internacionais pela University of Califórnia em Irvine, Indian Institute of Management Bangalore na Índia, Yale School of Management nos EUA e Koç Universiti na Turquia, Hoje é empreendedora, consultora e educadora na MultiConcept e doutoranda em liderança e mudanças globais na Pepperdine University, dos EUA.

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