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11 min de leitura

A hora e a vez do blended finance

Governança ESG sem gerar impacto positivo basta? Não. Empresas vêm investindo em projetos socioambientais com formas mistas de financiamento que reduzem os riscos e alavancam o impacto

Marco Gorini

27 de Agosto

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Artigo A hora e a vez do blended finance

Falta dinheiro. Para resolver a incontestável crise civilizatória que vivemos, representada pelo estresse dos ecossistemas ambientais, sociais e econômicos, falta dinheiro.

Diagnósticos, objetivos e metas para a transição necessária são páginas viradas faz tempo. Para simplificar a conversa, o Acordo de Paris e os 17 ODS – Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, com as suas 169 metas para 2030, estão postos na mesa desde 2015 e a Organização das Nações Unidas (ONU) estima que o gap de capital para financiá-las seja de US$ 3,5 trilhões ao ano. Isso sem considerar ainda o impacto da covid-19. No ritmo de financiamento atual, metas da Agenda 2030 serão cumpridas em 2085, assumindo que houvesse esse tempo. Para dimensionar o gap específico das soluções para a agenda climática, por exemplo, o Fórum Econômico Mundial estima que seriam suficientes investimentos da ordem de 1% do produto interno bruto mundial. Qual o valor investido hoje? É menor do que 0,1% do PIB global.

Existem, segundo as projeções, US$ 350 trilhões de ativos financeiros globais em circulação atualmente, ou seja, daria para fechar a conta em teoria, porque a demanda para atingir todas as ODS equivale a aproximadamente 1% ao ano do estoque total. Desses ativos, US$ 270 trilhões estão sob gestão privada. Se apenas o estoque privado fosse gasto com as ODS, seria necessário gastar 1,3% dele ao ano. A conclusão óbvia é que não falta dinheiro no mundo. Há, isso sim, um problema de alocação e, portanto, de escolhas. Temos um extraordinário desalinhamento entre oferta e demanda de capital quando se trata de encarar os desafios globais. Se sabemos o que fazer, por que fazer e quanto custa fazer, o próximo passo é responder a duas perguntas: como fazer esse esforço de mudança e como financiá-lo? Em outras palavras, quais são as soluções para atingir as metas necessárias e quais as soluções para atrair capital nas condições adequadas?

Quaisquer que sejam as respostas, elas revelarão que a transformação à frente é radical, sobretudo do ponto de vista civilizatório. Inclusive porque, como sabemos intuitiva ou racionalmente, o caminho para implementá-la não pode replicar aquele que nos trouxe até aqui. É necessário mudar as crenças que dão suporte à forma como tomamos nossas decisões, alterando normas, práticas e estruturas caducas, deixando de reproduzir padrões sem serventia. A palavra essencial para definir esse esforço de mudança, que descrevo como a transição para um novo paradigma de vida, é uma com que os leitores de MIT Sloan Review Brasil já estão bem familiarizados: inovação.

Entendendo o contexto

Vamos estabelecer um contexto comum como ponto de partida:

  1. Em uma economia de mercado, é a renda das famílias que remunera o trabalho, assim como o retorno remunera o capital dos investidores, os impostos remuneram os governos e as margens remuneram as empresas. Trabalhadores, investidores, governo e empresas são, portanto, os principais atores capazes de mobilizar capital de forma mais expressiva.
  2. Em um mundo onde 1% da população detém mais da metade da riqueza planetária e no qual, especialmente após a crise de 2008, os governos estão altamente alavancados – com baixa capacidade de manobra em suas políticas fiscais –, é pouco provável que o volume de recursos necessários para a transição venha dos trabalhadores, ocupados em sobreviver, ou do setor público, ocupado em rolar suas dívidas.
  3. A maior parte dos recursos privados disponíveis e investidos é improdutivo, pois está alocada em ativos financeiros desconectados da economia real, gerando retornos sem lastro na criação de valor econômico, social e ambiental coletivo.
  4. A lógica subjacente a esse quadro está alicerçada em um framework de decisão de alocação de recursos – o tal “mandato dos gestores de ativos” – que prioriza três dimensões: risco, retorno e liquidez.
  5. Só será possível a transição para um novo paradigma, e sua manutenção, caso uma quarta dimensão seja acrescentada ao frame decisório dos gestores de ativos: impacto positivo.

A assimetria, real ou percebida, na atratividade da relação risco versus retorno versus liquidez é a principal barreira para a alocação do capital privado no financiamento de inovações que viabilizem a transição ao novo paradigma, ao menos no curto prazo. Dados a vasta cesta de oportunidades de alocação global disponível para esses investidores e o fato de que ainda não há consciência em relação ao impacto causado pelo projeto investido, bem como sua valoração, é baixa a probabilidade de mobilizarmos os volumes de capital na velocidade e condições necessárias, certo? Sim. A menos que haja a equalização dessa atratividade.

É crucial, e urgente, a construção de uma cultura e de uma infraestrutura capazes de gerar evidências sólidas e replicáveis da atratividade desses investimentos para, a partir daí, criar redes que os pratiquem e estas, por sua vez, criarem comunidades. Só assim essas práticas poderão se tornar normas e ter influência sobre todo o sistema, impulsionando a transição. Esse é o contexto em que emerge a solução que vem ficando conhecida como “blended finance”.

Mais do que uma ferramenta

Muitos veem o blended finance como uma caixa de ferramentas financeiras. De fato o é, mas, para além disso, constitui uma forma de pensar arquiteturas financeiras convergentes para potencializar a atratividade dos investimentos em projetos socioambientais diante de atores de perfis diversos e complementares. Leva em conta como riscos e valor são gerados, compartilhados e distribuídos no sistema. Muitos veem o blended finance como uma ferramenta de mitigação de risco de crédito, mas, mais do que isso, é uma alavanca estratégica de de-risking sistêmico, que equaliza a equação de atratividade para riscos multidimensionais (macroeconômico, político, regulatório, mercadológico, cambial, de liquidez, governança, inovação, técnico), considerando as variáveis que impactam um modelo de retornos esperados (maturidade do projeto, natureza, escopo, expectativa de exit, spread, taxa de crescimento e alavancagem, entre outras). Em palavras mais breves, o blended não apenas torna “bankable” o ativo-alvo do investimento – quer dizer, o projeto social ou ambiental – como também o deixa mais interessante aos olhos do capital comercial privado.

O blended finance é utilizado desde 1990, em episódios de atuação de governos em países em desenvolvimento, mas foi repaginado e tomou corpo em 2015, no âmbito do Fórum Econômico Mundial. Blended finance passou, então, a ser definido como “o uso estratégico de capital catalítico para mobilizar capital comercial, com o propósito de financiar o desenvolvimento de mercados e soluções na fronteira da inovação, com o objetivo de alavancar impacto positivo e viabilizar a agenda das ODS”. Arquétipos blended têm quatro pilares:

  1. ALAVANCAGEM: usa-se o chamado capital concessional – filantrópico e/ou público – para atrair o capital privado tradicional.
  2. IMPACTO: o foco tem de ser em projetos de impacto social, sustentabilidade ambiental e desenvolvimento econômico.
  3. RISCO: “cesta” de risco do portfólio deve ser equalizada para diversos perfis de investidores.
  4. RETORNO: os retornos sobre o capital para investidores privados devem ser alinhados com o mercado e compatíveis com o risco percebido.

É preciso abordar os modelos blended em termos de estrutura, etapas, estratégias e atores. Começando pelas estruturas blended, são inúmeras as possibilidades, como mostra o quadro na página à esquerda. A criatividade, o contexto de aplicação e a necessidade específica do projeto é que definem o design de funding mais aderente.

Como é o ciclo de vida dos ativos no modelo blended? Ele pode variar bastante veja quadro acima. As estratégias podem tanto servir de apoio ao projeto até este ser “comercialmente autônomo”, como ser customizadas para cada etapa da jornada de desenvolvimento, minimizando o uso do capital concessional catalítico – aquele bem mais paciente em termos de prazos, flexivel em termos de retorno, tolerante quanto ao risco e sensível em relação ao impacto social/ambiental gerado. Há múltiplas formas de pensar estratégias blended, a depender do objetivo desejado e de sua complexidade, conforme os exemplos de aplicação a seguir.

Quanto aos principais atores desse segmento, o espectro vai de agências e instituições financeiras de desenvolvimento e organismos multilaterais até bancos comerciais e de investimento, fundos de investimento e seguradoras, passando por institutos e fundações do terceiro setor.

As estimativas indicam um volume de capital catalítico mobilizado globalmente de US$ 40 bilhões de 2015 a 2020 e, como a alavancagem média é de quatro vezes, há US$ 120 bilhões adicionais de capital privado comercial. Segundo o relatório Growing Impact 2020, do IFC (International Finance Corporation, braço do Banco Mundial voltado ao setor privado), os valores movimentados em blended finance atualmente já equivalem a 60% do volume de capital orientado a impacto no mundo, o que comprova a significativa eficácia do uso de capital catalítico para a mobilização de capital privado tradicional. O gráfico acima, da Convergence Finance, apresenta valores próximos aos estimados de 2015 a 2020, porém cobre um período mais extenso, partindo de 2010.

Quando usar: um estudo de caso

Para os investidores do capital comercial, modelos blended são uma atrativa chance de reposicionamento das estratégias de alocação, dada a ampliação do portfólio de oportunidades de investimento sustentável, com captura de benefícios econômicos e reputacionais. Conforme a alavancagem média já descrita, com R$ 1 de capital catalítico, o mundo tem demonstrado a capacidade de originar R$ 4 adicionais de capital comercial, o que potencializa a capacidade de gerar impacto e acelera o êxito das causas ou políticas públicas que recebem o investimento. Isso significa que sempre devemos usar estratégias blended? Não. Se não houve chance de uma inovação evoluir para um modelo comercial, ele não deve ser utilizado; nesse caso, a solução de financiamento passará pelo bom uso da filantropia e/ou dos recursos públicos. Muitos projetos também não têm necessidade de uma estruturação blended. Faça-se esta pergunta: o projeto fica em pé sem capital catalítico? Se a resposta for sim, ele terá atratividade suficiente para atrair financiadores comerciais e dispensará o blended. Um caso prático ilustra o potencial dessa abordagem mais do que mil palavras. Dona Maria é trabalhadora doméstica, informal, tem 40 anos, é separada e mãe de duas filhas adolescentes que moram com ela em uma casa de dois quartos, sala, cozinha e banheiro, de alta precariedade, situada em uma comunidade vulnerável na zona sul de São Paulo. Sua renda familiar é de dois salários mínimos e seu sonho, reformar a casa para a família ter maior qualidade de vida.

Dona Maria representa bem o público-alvo do NovaVivenda, startup social que nasceu em 2014 para criar uma solução de moradias dignas, seguras e confortáveis para todos. No Brasil, estima-se que 50 milhões de pessoas vivam em residências precárias, precisando de reformas urgentes. É um mercado desestruturado e de altíssimo potencial de impacto e econômico. O preço médio de uma reforma é de R$ 8 mil e raras são as famílias que podem pagar esse valor à vista. Por isso, no fim de 2017, o NovaVivenda vivia um impasse que ameaçava sua existência futura. Para seguir avançando na sua jornada empreendedora, precisava crescer mais velozmente e isso não seria possível sem uma solução que viabilizasse o financiamento com prazo e custo adequados para os clientes. Como era startup, bancos tradicionais não eram uma opção acessível.

Como atrair investidores que aceitassem financiar esse projeto, mediante o risco de inadimplência das famílias de baixa renda, normalmente informais e moradoras de comunidades? O Grupo Gaia (securitizadora), o escritório Tozzini Freire Advogados e a Din4mo (venture builder que investe em impacto) se uniram e criaram a primeira debênture social do Brasil, estruturada em modelo blended e com capital 100% privado. A debênture foi estruturada com 40% do volume em cotas mezanino e assim conseguiu financiar os 60% restantes com investidores tradicionais do private bank do Itaú (com cotas seniores) em uma emissão CVM 476. A operação foi a mercado com prazo de dez anos, com cinco anos de carência para iniciar o repagamento. Essa estrutura equalizou a expectativa dos investidores catalíticos e comerciais quanto a risco, retorno e impacto e, quando comparamos o impacto do que seria uma doação filantrópica para fazer reformas, o mesmo recurso catalítico viabilizou o potencial de alavancar 20 vezes o número de famílias beneficiadas.

Além do impacto direto para as famílias, que conseguem financiar as reformas em até 30 meses a taxas abaixo do padrão de mercado, a solução gera um elevado múltiplo econômico e de impacto, pois as obras são realizadas por operadores das comunidades-alvo e os materiais são comprados nos estabelecimentos locais, o que garante 80% do valor da reforma retornando para a comunidade.

Em 2018, a solução financeira foi premiada no encontro Habitat III, em Quito, Equador, pela ONU Habitat, Cities Alliance e Habitat para la Humanidad como solução inspiradora para a nova agenda urbana. E, em 2021, a NovaVivenda foi reconhecida pelo Clayton Christensen Institute como uma startup que desenvolveu uma inovação criadora de mercado, tema recentemente tratado nesta revista.

Fatores de sucesso

Vemos nove passos para que as práticas de blended finance possam escalar velozmente: (1) construção de linguagem comum e disseminação de conceitos; (2) análise e sistematização dos casos e das melhores práticas; (3) definição clara de mandatos e do papel do capital privado; (4) reconhecimento das necessidades e incentivos necessários para atrair esse tipo de capital; (5) clareza de papéis entre todos os parceiros engajados; (6) alinhamento sobre o que é impacto e modelos de avaliação e mensuração; (7) consolidação de esforços para um objetivo comum; (8) transparência sobre a avaliação de impacto e o retorno financeiro e, finalmente, (9) forte estrutura de governança e compliance.

URGE AVANÇARMOS PARA UM PARADIGMA no qual as finanças abandonem a esterilidade dos ativos improdutivos e cumpram o nobre papel de gerar bem-estar coletivo. Blended não é sobre catalisar capital financeiro comercial, e sim catalisar as transformações que desejamos e precisamos no mundo. Por isso, mais que técnica, é mentalidade.

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Autoria

Marco Gorini

Marco Gorini é empreendedor e investidor social, sócio e presidente do conselho do grupo Anga&Din4mo. Cofundou o BlendLAB e coordena o subgrupo de blended finance no grupo de trabalho de impacto do Lab Inovação Financeira, patrocinado por Associação Brasileira de Desenvolvimento, CVM, BID e a agência de desenvolvimento alemã GIZ.

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