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RISCOS E IA

Monica Caldas: o CIO hoje tem um papel de defesa e ataque

A CIO global da Liberty Mutual, discute como a seguradora está equilibrando inovação e gestão de riscos na era da inteligência artificial

MIT Sloan Management Review
7 min de leitura
Monica Caldas: o CIO hoje tem um papel de defesa e ataque

É possível dizer que existe a abordagem à inovação antes da IA e a abordagem depois da IA? Sim, porque a gestão de risco teve de ser alterada. Como tudo é muito novo, sem paradigmas já definidos, o melhor a fazer é entender o que acontece em organizações que trabalham especialmente com risco, como uma companhia de seguros. MIT Sloan Management Review foi entrevistar, portanto, Monica Caldas vice-presidente executiva e CIO global da Liberty Mutual Insurance, onde atua desde 2018, e ela mostrou papel crucial do CIO para isso, um papel de “defesa e ataque”.

Imigrante portuguesa que se mudou para os Estados Unidos aos 8 anos de idade (daí o nome tão familiar aos brasileiros), Caldas construiu sua trajetória profissional orientada pela resolução de problemas. Antes de ingressar na seguradora, passou 17 anos na General Electric, liderando iniciativas de transformação que incluíram a digitalização de supply chains e o uso de dados para prever falhas em motores de locomotivas. Em 2025, recebeu o MIT Sloan CIO Leadership Award por seu trabalho na Liberty Mutual e por sua atuação na promoção da participação feminina em áreas de STEM (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática).

A seguir, Caldas explica o papel do CIO de buscar equilibrar inovação e gestão de riscos à medida que sua organização amplia o uso de tecnologias de IA, na defesa e no ataque e compartilha insights sobre a abordagem da companhia em relação à IA generativa. Entre os temas abordados estão a criação de um comitê responsável por governança de IA, a implementação de agentes internos baseados em inteligência artificial e a integração da tecnologia ao desenvolvimento de software, ao mesmo tempo em que a empresa moderniza sistemas legados que ainda não utilizam IA. A entrevista foi editada para facilitar a leitura e garantir mais clareza e concisão. 

Como você enxerga a principal função do CIO, especialmente em um contexto de evolução tecnológica tão acelerada?

Vejo esse papel a partir de duas perspectivas: defesa e ataque. Parte do trabalho é proteger os dados e garantir sistemas seguros e estáveis para que a empresa consiga operar adequadamente. Mas o CIO também precisa atuar de maneira ofensiva, criando novos recursos e oportunidades para o negócio.

Esse framework é permanente, independentemente do tempo e do setor em que você esteja liderando. Hoje, se você quer aproveitar a próxima geração de dados e capacidades de IA, precisa abordar o ataque e a defesa com a mesma intensidade.

Eu converso com muitos CIOs da minha rede, e todos estamos navegando por essa jornada de modernização. Se você tem dados estruturados e não estruturados isolados em vários sistemas e não consegue acessá-los rapidamente, haverá um limite para o que você pode fazer com capacidades avançadas de IA generativa. 

Então, embora eu queira sair na frente e implementar novas tecnologias rapidamente, em um setor altamente regulado como o nosso, se você não tem sistemas seguros e estáveis, ainda não conquistou o direito de fazer isso.

Como a Liberty Mutual abordou a implantação de IA generativa?

A primeira medida que adotamos foi criar um comitê responsável por governança de IA, para nos ajudar a compreender os riscos envolvidos e lidar com eles de maneira adequada. Em seguida, estruturamos ambientes de experimentação para que nossos funcionários desenvolvessem repertório prático sobre o uso da tecnologia, entendendo tanto as oportunidades quanto os riscos associados.

Antes de acessar as ferramentas, os colaboradores passam por treinamentos voltados à compreensão de temas como alucinações de IA, riscos operacionais e diretrizes internas de uso responsável.

Em nosso help desk, implantamos um agente interno chamado Libby, que está conectado com o nosso banco de dados de conhecimento e tem os instrumentos para lidar com questões de nosso ambiente e, assim, ele pode antecipar problemas enfrentados pelos funcionários. Libby automatizou fluxos de trabalho que antes eram manuais, e conseguimos realocar funcionários do suporte (help desk) para demandas acumuladas.

Também identificamos que cerca de 35% do nosso ciclo de desenvolvimento de software pode incorporar IA generativa para apoiar os engenheiros. Temos observado que profissionais mais experientes conseguem ampliar significativamente sua produtividade com esses recursos, como era esperado. Já os engenheiros juniores ainda precisam de mais orientação e mentoria para extrair o melhor dessas capacidades.

Porém não se trata apenas de fazer mais. Produtividade é um conceito multidimensional. Estamos falando de qualidade, velocidade na tomada de decisão e capacidade de atender clientes com produtos melhores.

Não se trata apenas de fazer mais. Produtividade é um conceito multidimensional. Estamos falando de qualidade, velocidade na tomada de decisão e capacidade de atender clientes com produtos melhores

Como a IA generativa está moldando seus esforços de modernização?

Trabalhamos com uma variedade muito ampla de recursos tecnológicos, e modernização não significa apenas atualizar sistemas ou migrar aplicações. Parte desse processo envolve simplificar, eliminar excessos e descontinuar o que já não faz sentido. Outra parte exige transformação estrutural de fato.

Estamos descobrindo que, embora você possa usar IA gen para programar, também precisa de arquitetura moderna. Caso contrário, você tenta transformar Cobol em Java e acaba criando algo que chamamos de “Jobol”. O resultado não reúne o conjunto completo de tecnologias, ferramentas, linguagens de programação, frameworks e bancos de dados que formam a arquitetura que você precisa. IA gen não é uma varinha mágica em que você aperta um botão e um novo código sai. Sim, o código é lançado, mas ainda não está pronto para produção. Você precisa incorporar muitos requisitos não funcionais, como protocolos de segurança.

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