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Reflexão

A real vantagem competitiva na era da inteligência artificial

Se a internet conectou pessoas, a inteligência artificial está conectando capacidades. Está na hora de entender que essa pode ser a diferença mais importante – a um ritmo de investimentos globais de VC de US$ 330,9 bilhões em apenas um trimestre

Carolina de Oliveira
18 de setembro de 2026
5 min de leitura
A real vantagem competitiva na era da inteligência artificial

Nos últimos 30 anos, vivemos ciclos tecnológicos transformadores: a chegada da internet, o boom das empresas ponto-com, a computação em nuvem, a mobilidade e a economia de plataformas. Todos eles mudaram a forma como trabalhamos e nos relacionamos. Ainda assim, nenhum desses movimentos parece ter avançado na velocidade que estamos testemunhando agora com a inteligência artificial. O que torna esse momento único? Não é apenas a evolução da tecnologia, mas a convergência entre capacidade computacional, disponibilidade de dados, avanços em modelos fundacionais e uma quantidade sem precedentes de capital direcionada para inovação.


Os números ajudam a explicar essa aceleração. Segundo o Venture Pulse Q1 2026 da KPMG Private Enterprise, os investimentos globais de venture capital atingiram US$ 330,9 bilhões em apenas um trimestre, um dos maiores volumes da história recente. A inteligência artificial concentrou a maior parte dos maiores aportes do período, impulsionada por megadeals que reposicionaram completamente a dinâmica do mercado global de inovação. Mais de 80% dos investimentos globais ficaram concentrados nas Américas, e a maior parte desse capital foi direcionada para empresas que estão construindo a infraestrutura da próxima geração da economia digital.


Mas existe um aspecto ainda mais relevante do que os números. Pela primeira vez, a principal promessa de uma revolução tecnológica não é apenas automatizar tarefas. É ampliar capacidades humanas.


Durante décadas, a tecnologia substituiu esforço físico. Agora ela começa a expandir capacidades cognitivas. Um profissional com acesso a ferramentas de IA consegue pesquisar mais rápido, analisar mais cenários, sintetizar mais informações e testar mais hipóteses do que seria possível individualmente. Não estamos falando apenas de produtividade. Estamos falando de potencial humano ampliado.


Esse é um ponto fundamental. A discussão sobre IA tem sido frequentemente capturada por uma narrativa de substituição: quais empregos desaparecerão, quais funções serão automatizadas e quais atividades deixarão de existir. Essas perguntas são legítimas, mas talvez não sejam as mais importantes.

A discussão sobre IA tem sido frequentemente capturada por uma narrativa de substituição: quais empregos desaparecerão, quais funções serão automatizadas e quais atividades deixarão de existir. Essas perguntas são legítimas, mas talvez não sejam as mais importantes


A pergunta mais relevante é: o que os seres humanos poderão criar quando deixarem de gastar energia com tarefas repetitivas e passarem a dedicar mais tempo ao pensamento crítico, à criatividade, à resolução de problemas complexos e à construção de relacionamentos?


Historicamente, as grandes transformações econômicas não eliminaram a necessidade de pessoas. Elas aumentaram o valor das capacidades exclusivamente humanas. Julgamento, empatia, repertório, visão sistêmica, ética, liderança e criatividade tornam-se ainda mais importantes em um mundo onde a informação é abundante e instantaneamente acessível.

Os vídeos perdem a graça, a música parece sempre a mesma, o texto fica sem emoção


Por isso, acredito que estamos entrando em uma era em que a vantagem competitiva não será definida apenas por quem possui a melhor tecnologia, mas por quem conseguir combinar inteligência artificial com inteligência humana. E aqui surge um paradoxo importante.


Ao mesmo tempo em que a IA amplia nossa capacidade de pensar, ela também pode achatar o processo criativo. Ao mesmo tempo que ela facilita a criação de conteúdo gráfico, textual, audiovisual, ela também pasteuriza e padroniza. Os vídeos perdem a graça, a música parece ser sempre a mesma, o texto perde a emoção. Essa capacidade de despertar sentimentos, tão natural aos humanos, começa e se tornar rara.


Ainda é cedo para ter a resposta de maneira fundamentada, mas, se encontrarmos esse caminho, a revolução que estamos vivendo estará completa.


Possivelmente estamos diante de duas das questões mais relevantes da próxima década: como utilizar a IA como nossa parceira criativa, sem comprometer a sensibilidade humana, preservar a curiosidade e manter o pensamento crítico? Como garantir que as novas gerações continuem aprendendo a formular boas perguntas, em vez de apenas consumir respostas? As perguntas não são inéditas, eu sei, mas é preciso realmente insistir nelas.

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Carolina de Oliveira
Carolina de Oliveira
Carolina de Oliveira é sócia-líder global de Emerging Giants e líder de private enterprise da KPMG no Brasil e na América do Sul.

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