Centro de formação executiva focado em liderança, inovação e curadoria de conteúdos para líderes e gestores do futuro.

Conheça mais

O portal brasileiro da faculdade de gestão do MIT, trazendo conteúdo de qualidade e confiável sobre o tema.

Você está aqui

Acesso a estudos exclusivos e materiais de ensino produzidos pela faculdade de negócios de Harvard.

Versão brasileira do portal referência em negócios na China, endossado pela universidade de negócios Cheung Kong.

Conheça mais
O CNEX faz parte do ecossistema Atitus. Conhecimento, tecnologia e inovação. Conectadas com o mesmo propósito: o seu futuro.

Status de leitura

Faça login para usar este recurso

Conteúdo da review
Crie uma playlist

Faça login para salvar este conteúdo em suas playlists

Não lido

©2026 MIT Sloan Management Review Brasil. Todos os direitos reservados. A reprodução, total ou parcial, é proibida sem a autorização prévia e expressa do CNEX.

Profissional de fronteira

Aprenda a dirigir a IA agêntica (não se trata mais de fazer prompts)

A inteligência conversacional agiliza tarefas conhecidas. Configurá-la para investigar seus dados – prática batizada de “inteligência direcionada” – revela insights que as abordagens convencionais tendem a deixar escapar

Jennifer Sloan e Vern L. Glaser
34 min de leitura
Aprenda a dirigir a IA agêntica (não se trata mais de fazer prompts)

A coisa mais valiosa que um profissional produz não é uma análise mais rápida nem um resumo melhor. É um insight: uma maneira genuinamente nova de enxergar um problema, uma conexão que transforma a compreensão de uma situação ou um padrão que ninguém havia identificado. Pense em um consultor de estratégia que descobre o verdadeiro desafio competitivo por trás da erosão das margens de um cliente. Ou em um integrante da equipe que percebe uma ausência nos dados que todos os demais se acostumaram a considerar normal.

O que torna esse tipo de descoberta tão difícil é que a expertise – justamente o que permite aos profissionais atuar com eficácia – também pode limitar o acesso a determinadas percepções. O framework que os ajuda a enxergar um problema com clareza também influencia aquilo que procuram – e o que deixam de procurar. No entanto, os insights capazes de transformar o pensamento costumam surgir nas bordas desse modelo, por exemplo, no confronto entre interpretações concorrentes.

A IA conversacional já avança nessa direção. Um prompt bem elaborado pode revelar interpretações alternativas, expor lacunas e questionar premissas. Mas a IA agêntica – sistemas que são configurados e dirigidos, em vez de sistemas com os quais se conversa – pode levar os usuários ainda mais longe. Enquanto uma pergunta formulada em um prompt está limitada às informações fornecidas e ao que o usuário consegue pensar em perguntar, um sistema agêntico pode trabalhar com um volume maior de dados e manter uma linha de investigação analítica em conjuntos inteiros de informações, sem perder o contexto. Os movimentos que levam à descoberta são os mesmos; o que muda é a profundidade.

Usar a IA agêntica dessa maneira exige uma competência profissional diferente tanto da elaboração de prompts quanto da automação: saber projetar sistemas orientados à geração de insights e compreender aquilo que eles revelam. Chamamos essa competência de inteligência direcional.

Duas formas de trabalhar com IA

A maioria dos profissionais trata a IA como uma conversa: eles digitam uma pergunta, avaliam a resposta, refinam e depois perguntam novamente. O trabalho deles é fornecer o contexto e manter o fio analítico, e a troca existe apenas enquanto a janela estiver aberta. A habilidade que isso exige é articulação, e especificamente saber o que perguntar, como formular e quando reagir.

A IA agêntica exige outro tipo de interação. Enquanto o uso de prompts é reativo (o ser humano pergunta e o modelo responde), o agente é proativo: o usuário o configura e ele opera. Essa configuração envolve três dimensões:

  • Contexto (o que o agente pode acessar): enquanto um prompt depende das informações fornecidas a cada interação, o contexto de um agente é persistente. Ele pode estar conectado a bancos de dados, documentos e registros selecionados pelo usuário, que permanecem disponíveis ao longo de todo o processo.
  • Capacidades (o que o agente pode fazer): uma IA conversacional gera respostas com base em prompts. Um agente, por sua vez, pode executar análises, consultar bancos de dados, comparar conjuntos de informações, realizar rotinas analíticas em múltiplas etapas e acionar ferramentas e competências especializadas, sem depender da intervenção humana em cada etapa.
  • Orientação (no que o agente deve prestar atenção): mais do que uma instrução para produzir um resultado específico, a orientação funciona como uma diretriz analítica. Ela define um propósito e uma trajetória que conduzem o agente na identificação do que os dados podem revelar.

O mesmo contexto e as mesmas capacidades, submetidos a orientações diferentes, podem revelar padrões distintos. Um único profissional pode direcionar múltiplos agentes para um mesmo conjunto de dados e chegar a descobertas genuinamente diferentes – não por fazer perguntas diferentes, mas por projetar sistemas distintos. Na prática, isso significa conceber não apenas agentes individuais, mas também o sistema que os conecta, muitas vezes com uma camada de orquestração responsável por comparar e sintetizar os resultados produzidos pelos diferentes agentes de IA.

Um único agente bem configurado pode produzir insights genuínos. Se um agente de IA dedicado ao comportamento do cliente tiver acesso aos registros de transações e atendimentos, poderá descobrir, por exemplo, que o churn rate se concentra entre clientes que estão no segundo ano de relacionamento com a empresa.

Uma oportunidade ainda maior surge quando esse agente passa a integrar um sistema. Ao analisar os mesmos dados, agentes especializados em práticas de vendas, experiência de integração, uso de produtos e histórico de atendimento podem oferecer explicações diferentes para esse padrão. Adicione um agente de orquestração configurado para comparar seus outputs, identificar onde as explicações convergem e divergem e evidenciar as contradições que mais importam e verá que o sistema produz algo que nenhuma de suas partes poderia gerar sozinha. O trabalho do profissional é projetar esse sistema e avaliar aquilo que ele revela.

Abordagens para a descoberta com IA agêntica

A descoberta raramente resulta de uma única pergunta bem formulada. Em geral, ela surge do atrito provocado pela aproximação de elementos que costumam ser mantidos separados. Cada uma das quatro abordagens a seguir cria um tipo específico de tensão: entre interpretações concorrentes; entre os dados e as conversas que os cercam; entre as causas e os diferentes níveis em que se escondem; e entre as categorias e a realidade que deveriam descrever. É desse atrito que emerge o insight.

Cada um desses movimentos analíticos [resumidos no quadro abaixo] também pode ser realizado por meio de um prompt. O que a arquitetura agêntica acrescenta, por meio daquilo que os agentes acessam, fazem e são orientados a observar, é profundidade.

  1. Use múltiplas lentes. A maneira mais confiável de enxergar além de uma única interpretação é sustentar várias perspectivas ao mesmo tempo – não sequencialmente, mas simultaneamente – e em tensão deliberada. Quando diferentes modelos bem fundamentados são aplicados à mesma situação e chegam a conclusões contraditórias, a própria contradição se torna uma fonte de informação: ela aponta para algo que nenhum desses modelos revelaria isoladamente.

Considere um consultor de estratégia que trabalha com uma fabricante de médio porte de componentes metálicos de alta especificação, fornecidos aos setores aeroespacial, automotivo e de energia. As margens da empresa caíram durante três anos consecutivos, e o CEO atribui o problema à pressão competitiva sobre os preços nos três segmentos.

O consultor projeta um sistema agêntico. Quatro agentes especializados recebem acesso ao conjunto completo de dados relevantes – incluindo informações financeiras, inteligência competitiva, contratos com clientes, transcrições de entrevistas e documentos internos de estratégia. Cada agente é orientado por um modelo estratégico diferente, enquanto um agente de orquestração é configurado para sintetizar as análises produzidas pelos especialistas.

Exemplo de múltiplas lentes: um sistema agêntico para estratégia no setor aeroespacial tem quatro agentes especializados. Um agente se baseia em Michael Porter; outro no modelo VRIO de Jay Barney; um terceiro na abordagem de Richard Rumelt; e um quarto nas escolhas de Roger Martin. Nenhum deles produz um diagnóstico completo; o atrito entre eles é que levanta a questão-chave

Um agente baseado no modelo de Michael Porter conclui que o setor aeroespacial é estruturalmente atraente, enquanto o automotivo apresenta condições estruturalmente desfavoráveis, sugerindo que eles não devem ser tratados de modo equivalente.

Um agente orientado pelo modelo VRIO (sigla em inglês para valor, raridade, imitabilidade e organização), de Jay Barney, identifica um processo metalúrgico proprietário e relacionamentos no setor aeroespacial como genuinamente raros e difíceis de imitar, mas observa que o investimento de capital é dividido de maneira praticamente igual entre os três segmentos. A vantagem de recursos é real, mas a empresa não está organizada para explorá-la porque o investimento é distribuído uniformemente entre os três segmentos, em vez de concentrado no negócio aeroespacial, onde a vantagem realmente está.

Um agente baseado na abordagem de Richard Rumelt argumenta que a estratégia declarada não constitui uma estratégia de fato. “Crescer por meio da diversificação entre mercados finais” seria apenas um objetivo apresentado como direcionamento estratégico.

Já um agente orientado pelo modelo de Roger Martin mapeia as escolhas estratégicas sobre “onde jogar e como vencer” e identifica incoerências. As capacidades necessárias para competir no setor aeroespacial são incompatíveis com aquelas exigidas pelo setor automotivo, mas a empresa tenta competir nos dois da mesma forma.

Nenhum desses modelos produz, isoladamente, um diagnóstico completo. O atrito entre eles levanta uma questão que ninguém propôs: se a empresa deve restringir seu escopo ao segmento no qual sua vantagem competitiva genuína atende a condições estruturalmente atraentes.

Também seria possível conduzir essa análise pedindo a um LLM que examinasse a situação sucessivamente pelas perspectivas de Porter, VRIO, Rumelt e Martin. Isso revelaria tensões relevantes a serem exploradas. A limitação do uso de prompts, porém, é que cabe ao consultor preservar o fio da análise. Cada mudança de perspectiva exige um novo prompt, e a síntese depende da capacidade do profissional de sustentar simultaneamente as quatro interpretações.

A arquitetura agêntica amplia essas possibilidades. Cada agente especializado trabalha com a mesma base de evidências e em um nível equivalente de profundidade, tornando as contradições diretamente comparáveis. O agente de orquestração examina as quatro análises, identifica os pontos de convergência, confirmando o que é robusto (e onde eles conflitam) e apontando para o que não está resolvido. O papel do profissional deixa de ser o de sustentar todo o processo analítico e passa a ser o de avaliar aquilo que o sistema revela.

  • Traga à tona os silêncios. Parte do que uma organização sabe sobre si mesma jamais aparece em reuniões, relatórios ou planos estratégicos. Revelar esses silêncios significa comparar sistematicamente o que está nos dados com o que aparece nos discursos construídos em torno deles e tratar essa lacuna como analiticamente relevante. Muitas vezes, o insight está justamente no que não é dito.

Vejamos o caso de um consultor de estratégia que atua em uma área especializada de uma empresa de serviços profissionais. A equipe realiza projetos premium, intensivos em conhecimento, em um nicho técnico que exige domínio profundo e relacionamentos duradouros com os clientes. O líder da área nunca perdeu uma concorrência, supervisiona pessoalmente todos os projetos relevantes e recusa mais trabalhos do que aceita. A narrativa de crescimento é convincente: há forte demanda e poucos concorrentes capazes de oferecer o mesmo nível de qualidade.

O consultor configura um agente de IA com todo o conjunto de dados disponível: transcrições de entrevistas com o líder da área e outros executivos, planos estratégicos, análises de mercado, inteligência competitiva e registros financeiros. O agente pode então mapear sistematicamente os temas presentes tanto nas entrevistas quanto nos documentos estratégicos formais. A orientação é simples: identificar o que aparece em um tipo de material, mas não em outro.

A análise revela um silêncio: a dependência organizacional de um único indivíduo. Embora nunca seja explicitamente nomeado como fator de risco, o líder da área – um especialista sênior com duas décadas de experiência – está implicitamente presente em praticamente todos os temas abordados nas entrevistas.

Capacidade de crescimento, relacionamento com clientes, padrões de qualidade, precificação e desenvolvimento de talentos: cerca de um terço de todas as discussões substantivas envolve seu julgamento, seus relacionamentos ou os padrões que estabeleceu. Os planos estratégicos tratam de oportunidades de mercado, posicionamento competitivo e necessidades de investimento, mas nenhum deles considera o fato de que praticamente todas as vantagens da área estão concentradas em uma única pessoa.

O agente também sinaliza outras possíveis lacunas. A aparente ausência de planejamento sucessório, por exemplo, mostra-se contemplada em documentos corporativos que não faziam parte do conjunto de dados analisado. Já o silêncio sobre o risco competitivo reflete mais uma insuficiência dos dados disponíveis do que uma lacuna organizacional. Após investigar os dois pontos, o consultor os deixa de lado e se concentra no achado que permanece consistente: a dependência de um talento-chave.

Todos na empresa sabem que o líder da área é excepcional. Mas reconhecer essa excepcionalidade é diferente de nomeá-la como a principal restrição estratégica do negócio. A conversa sobre estratégia está organizada em torno das oportunidades de mercado; a realidade operacional, porém, está organizada em torno de uma única pessoa. Isso muda a pergunta de “Essa área pode crescer?” para “Ela pode crescer sem antes enfrentar o problema que ninguém colocou sobre a mesa?”.

Programar uma IA para comparar os temas das entrevistas com as prioridades dos planos estratégicos pode revelar desconexões e dar a um profissional qualificado a oportunidade de investigar o que parece estar ausente. Ainda assim, depois de semanas ou anos observando uma organização sob determinada perspectiva, o profissional pode deixar de enxergar outras perspectivas, o que também influencia a maneira como formula seus prompts.

O agente de IA não compartilha necessariamente dessa mesma imersão. Ele pode comparar o conteúdo integral das entrevistas com todo o conjunto de documentos estratégicos sem ter naturalizado a estrutura e as premissas da equipe. Como a análise é exaustiva, e não seletiva, o padrão identificado pode ser verificado, em vez de permanecer apenas como uma impressão. Com isso, a IA ajuda a tornar visível aquilo que a familiaridade ocultou.Parte superior do formulárioParte inferior do formulário

  • Conecte níveis. Quando algo dá errado em uma organização, a explicação costuma ser buscada no mesmo nível em que o sintoma se manifesta. Um problema de portfólio, por exemplo, recebe uma explicação de portfólio; ou uma falha operacional, um diagnóstico operacional. Mas as causas nem sempre estão onde os sintomas aparecem. Conectar níveis significa traçar cadeias causais entre diferentes escalas de análise, relacionando microdecisões a resultados macro e padrões macro aos comportamentos específicos que os produzem. O insight surge ao percorrer níveis que normalmente são examinados de maneira isolada.

Observe uma equipe de consultoria estratégica que trabalha com uma corporação industrial diversificada, composta por três divisões, cujo retorno sobre o capital investido (ROIC, na sigla em inglês) vem diminuindo. A narrativa corporativa é conhecida: a empresa enfrenta ventos contrários no mercado e crescente pressão competitiva. A revisão trimestral foca em métricas de portfólio – e todos parecem concordar com o diagnóstico.

O consultor líder configura um agente de IA com dados de três níveis do negócio (corporativo, divisional e operacional) simultaneamente, incluindo métricas de portfólio corporativo e registros de alocação de capital, resultados e cargos competitivos divisionais e dados operacionais dentro de cada divisão. A IA pode traçar relações estatísticas em todos os três níveis. A orientação é procurar situações em que a causa e seus sintomas estejam em níveis diferentes.

O agente rastreia o declínio do ROIC de cima para baixo. O problema está concentrado na Divisão A, mas não porque ela apresente desempenho inferior ao de seus concorrentes. Uma fórmula de alocação de capital implementada três anos antes atribui maior peso ao crescimento recente da receita na distribuição dos investimentos. A Divisão A é a que mais cresce, mas atua em um mercado de commodities com margens em queda. Já a Divisão B, que cresce mais lentamente, mas possui o posicionamento competitivo mais forte e as maiores margens do portfólio, vem sendo sistematicamente privada de capital. Como consequência, sua vantagem competitiva diminui trimestre após trimestre.

Ao rastrear o declínio do ROIC de volta à sua origem, fica claro que a fórmula de alocação de capital foi concebida para direcionar investimentos às áreas de maior crescimento. No nível corporativo, a lógica parece perfeitamente racional. No nível divisional, porém, ela leva a empresa a investir demais em um mercado cuja dinâmica competitiva está se deteriorando e de menos naquele em que há uma vantagem sustentável. A queda do ROIC que o CEO atribui às condições de mercado está, na verdade, sendo produzida por uma política corporativa que funciona exatamente como foi projetada.

Nesse caso, o sintoma aparece no nível do portfólio, mas a causa está em uma política corporativa. E a intervenção necessária – redesenhar a forma como o capital é alocado – estava em um nível que nem a gestão divisional nem a narrativa de mercado do CEO estavam olhando.

Fazer uma IA explicar como a alocação de capital corporativo pode estar afetando o desempenho das divisões, ou se os padrões de investimento estão alinhados com o posicionamento competitivo de cada uma delas, pode descortinar hipóteses plausíveis que merecem investigação. A limitação é que o profissional precisa suspeitar da existência dessa conexão para formular a pergunta.

Um agente configurado para analisar os três níveis simultaneamente não depende dessa suspeita prévia. Ele pode seguir conexões que o consultor não sabia que deveria procurar, porque foi orientado a investigar relações entre níveis, e não apenas a testar uma hipótese preexistente. O diagnóstico esteve presente nos dados o tempo todo; era apenas invisível quando cada nível era observado isoladamente. A descoberta também pode orientar o próximo passo: um agente dedicado a testes de estresse pode verificar se o crescimento da receita – variável central da fórmula – realmente acompanha a força competitiva de cada divisão ou se essa categoria faz justamente parte do problema.

  • Teste as categorias sob estresse. Toda organização opera com base em categorias. Sistemas de classificação agrupam clientes, falhas, custos e comportamentos, orientando decisões e encaminhando problemas às áreas responsáveis. Ocorre que essas categorias são criadas para refletir a maneira como a organização pensa e não necessariamente como o mundo funciona. Submetê-las a testes de estresse significa comparar o sistema de classificação com a realidade operacional que ele pretende descrever e tratar as divergências como achados relevantes.

Considere um analista de dados de uma empresa de concreto usinado que investiga uma taxa persistentemente alta de rejeição de cargas, em que os caminhões chegam aos canteiros de obras, mas não conseguem entregar o concreto. A empresa classifica essas ocorrências em cinco categorias: mistura incorreta, atraso na entrega, falha de qualidade, alteração solicitada pelo cliente e pedido excessivo. Cada categoria se conecta claramente a um departamento específico. Misturas incorretas e excesso de pedidos são atribuídos a vendas; atrasos, à logística; falhas de qualidade, à usina; e alterações feitas pelo cliente são consideradas incontroláveis.

O analista configura um agente de IA com as classificações formais das rejeições e todo o histórico operacional disponível, incluindo pedidos, registros de despacho, dados de rastreamento por GPS, registros dos lotes produzidos na usina, comentários dos motoristas, informações meteorológicas e comunicações com clientes. Sua função é analisar padrões em todo o conjunto de dados e identificar os pontos em que as categorias formais divergem da estrutura causal observada na operação.

O agente constata que as categorias são imprecisas e altamente enganosas. Muitas rejeições por atraso se agrupam em dias e condições climáticas específicas. Rastreados de trás para frente, eles são efeitos de lotes produzidos na usina, que desacelera sob condições climáticas adversas, atrasando cargas que depois chegam fora do horário programado para despejo. Classificar a rejeição como fruto do atraso direciona a investigação para a logística, quando a causa está na usina.

Outro grupo de devoluções, atribuído a alterações solicitadas pelo cliente, segue um padrão diferente. As ocorrências concentram-se em obras nas quais o pedido é feito pelo empreiteiro principal, mas um subcontratado é quem controla o cronograma de concretagem. A classificação formal trata essas rejeições como incontroláveis, embora elas resultem de uma lacuna de coordenação previsível que a empresa poderia ajudar a preencher.

Há ainda um padrão para o qual o sistema formal não possui categoria alguma. Em centenas de cargas, os campos de comentários dos motoristas registram a mesma observação informal: “local de entrega não estava pronto para receber”. O caminhão chegava, mas o canteiro não tinha condições de receber o concreto. Os motoristas precisavam esperar, retornar à usina ou ser redirecionados, e o motivo da rejeição acabava enquadrado na categoria que parecesse mais adequada. Nesse caso, uma causa-raiz recorrente permanecia nas margens dos dados porque o sistema de classificação nunca havia sido concebido para identificá-la.

Extrair uma amostra dos registros de rejeição e pedir a uma ferramenta de IA que avalie se as categorias refletem as causas reais pode revelar explicações plausíveis e apontar inconsistências evidentes. A limitação está no tamanho e na seleção da amostra: os dados escolhidos pelo analista inevitavelmente refletem aquilo que já lhe parece merecer investigação.

O agente, por sua vez, testa cada categoria contra o histórico operacional completo, composto por milhares de cargas, sem partir da premissa de que alguma classificação seja necessariamente precisa. Ele identifica a relação com as condições climáticas porque examina todo o conjunto de dados, e não apenas uma amostra considerada representativa. Também destaca o padrão “local não estava pronto para receber” justamente porque não está vinculado a nenhuma categoria existente.

Uma vez identificadas essas incompatibilidades, um sistema mais amplo de agentes pode aprofundar a investigação. Um agente de conexão, por exemplo, poderia rastrear o padrão “local não estava pronto para receber” desde os comentários dos motoristas até os custos logísticos, a utilização da frota e o impacto financeiro sobre o portfólio, quantificando um problema que o sistema formal de classificação havia tornado invisível.

Melhores práticas para dirigir uma IA

Obter os resultados mais úteis ao direcionar agentes de IA para que revelem novos insights exige prática, como qualquer nova habilidade. A seguir, algumas orientações para se ter em mente:

Configure para descobrir, não para responder. Tudo começa pela maneira como o sistema é configurado. O instinto, sobretudo entre profissionais treinados para especificar claramente os resultados esperados, é dizer ao agente o que ele deve encontrar. Resista a esse impulso. Um agente orientado a confirmar uma vantagem competitiva provavelmente a confirmará. Ao fazê-lo, porém, poderá deixar de perceber que, embora real, essa vantagem vem sendo sistematicamente diluída por investimentos incoerentes.

Um sistema de agentes configurado para analisar simultaneamente quatro estruturas estratégicas concorrentes produzirá algo mais difícil de assimilar, mas consideravelmente mais valioso: uma contradição que revela uma pergunta que ninguém estava fazendo. O objetivo aqui é enquadrar os problemas, não os resolver. Cabe aos seres humanos definir em que os agentes devem prestar atenção, e não determinar as conclusões a que devem chegar.

Os padrões revelados por um sistema agêntico são hipóteses, não descobertas definitivas. Eles abrem caminhos para a investigação, em vez de encerrá-la

Trate o inesperado como sinal, não como erro. O que você faz quando os agentes produzem algo que não esperava é tão importante quanto a maneira como os configurou. A reação mais comum é tratar o resultado inesperado como erro. No modo eficiência, qualquer desvio em relação ao resultado previsto é visto como desperdício, e a tarefa consiste em corrigi-lo. No modo descoberta, essa lógica precisa ser invertida.

Uma resposta inesperada pode ser o sinal mais valioso gerado pelo sistema, pois revela algo sobre suas próprias premissas ou sobre a estrutura real de um problema que você julgava compreender. O padrão “local não estava pronto para receber” permaneceu durante anos no campo de comentários dos motoristas. A dependência de um talento-chave permeava um terço das entrevistas com os funcionários, mas não aparecia em nenhum dos planos estratégicos da empresa de serviços profissionais.

Em ambos os casos, a disciplina exigida de quem conduz a investigação é a mesma: resistir à tentação de explicar ou descartar a surpresa antes de examinar aquilo que ela pode revelar.

Avalie hipóteses, não conclusões. A disciplina de investigar, em vez de rejeitar o inesperado, deve orientar a maneira como interpretamos os resultados produzidos pelos agentes. Os padrões identificados por um sistema agêntico são hipóteses, não descobertas definitivas. Eles abrem caminhos para a investigação, em vez de encerrá-la.

Quando o agente de conexão rastreou o declínio do ROIC até a fórmula de alocação de capital, a resposta adequada foi confrontar esse padrão com explicações alternativas e verificar se seu impacto era relevante. Quando os agentes baseados nos modelos de Porter e VRIO chegaram a interpretações divergentes sobre a situação estratégica, o caminho mais produtivo não era decidir qual deles estava correto, mas reconhecer que a contradição revelava uma questão que a empresa jamais havia enfrentado.

Da mesma forma, quando surgiu o padrão “local não estava pronto para receber”, foi necessário confrontá-lo com os dados de data e horário registrados pelo GPS e com os relatos dos motoristas antes que pudesse orientar uma ação. Padrões gerados por máquinas transformam-se em conhecimento por meio do julgamento profissional, não apesar dele.

Registre o que você leva adiante e o que rejeita. Com o tempo, acompanhar quais propostas você persegue e quais deixa de lado constrói algo útil: um registro dos seus próprios instintos analíticos, quais movimentos geram valor em quais contextos, e onde seu julgamento tende a fechar a investigação antes que deva. Suas rejeições revelam tanto quanto suas descobertas.

Sobre a pesquisa

  • Os autores se basearam em duas linhas de pesquisa para este artigo. A primeira foi um estudo qualitativo de descobertas assistidas por IA que identificou quatro caminhos pelos quais a IA gera insights surpreendentes em trabalhos analíticos.
  • A segunda examinou como as organizações funcionam como sistemas algorítmicos, mostrando que esses sistemas algorítmicos são moldados pelos dados aos quais têm acesso, pelas capacidades que lhes são atribuídas e pela maneira como a autonomia para tomar decisões é distribuída entre pessoas e sistemas.
  • Ambos os estudos se basearam em uma ampla literatura sobre prática profissional e descoberta, incluindo trabalhos sobre prática reflexiva, aprendizagem organizacional e os processos pelos quais os profissionais realmente geram novos entendimentos.
  • Esta pesquisa faz parte do projeto de pesquisa e inovação do Reino Unido “Innovating Across Sectors” (MR/Y034430/1; PI: Angela Aristidou). As análises e conclusões apresentadas aqui são dos autores, não do órgão financiador.

OS SISTEMAS AGÊNTICOS DESCRITOS NESTE ARTIGO já envolvem orquestração: há agentes especializados cujos resultados são sintetizados, comparados e colocados em tensão por meio de uma camada de orquestração projetada por um profissional humano. À medida que esses sistemas amadurecerem, a orquestração se torna mais sofisticada.

Um agente de identificação de silêncios poderá acionar autonomamente um agente de multiplicação de perspectivas para investigar seus achados; um agente de conexão poderá encaminhar um padrão a um agente de teste de categorias, a fim de examinar casos limítrofes, sem que o profissional precise iniciar cada etapa. O papel do profissional humano deixará de ser o de projetar configurações individuais e passará a ser o de criar as condições para que sistemas agênticos façam descobertas de maneira produtiva. Esses movimentos poderão se combinar e produzir efeitos difíceis de antecipar plenamente hoje.

O que não muda é a habilidade desse humano. A inteligência direcionada recorre a capacidades que sempre distinguiram profissionais excepcionais, como formular um problema de modo que novos aspectos se tornem visíveis e manter contradições em aberto por tempo suficiente para aprender com elas. A IA agêntica não substitui essas capacidades. Ao contrário: a tecnologia oferece aos profissionais um meio mais poderoso de exercê-las.

Os profissionais que prosperarem não serão aqueles que mais automatizarem, mas os que compreenderem que a descoberta é o resultado de maior valor que podem produzir – e tiverem discernimento para direcionar deliberadamente a inteligência a esse propósito.

Protocolo contra manipulação por IA, por Yuksel Aydin

As empresas enfrentam três ameaças de segurança sobrepostas devido aos efeitos da IA na cognição humana.

  • O uso da persuasão como arma permite que agressores externos manipulem o julgamento dos funcionários por meio de enganos personalizados e adaptativos.
  • Alucinações plausíveis fornecem informações falsas, apresentadas com confiança, que resistem a uma verificação superficial.
  • À medida que os funcionários transferem o trabalho cognitivo para sistemas de IA, eles adotam um raciocínio menos independente.

Juntas, essas dinâmicas fazem dos humanos tanto a principal vulnerabilidade quanto a principal defesa.

Um novo protocolo, simples, chamado “pense primeiro, verifique sempre” (TFVA, sigla em inglês para “Think First, Verify Always”), aborda essas ameaças incentivando os funcionários a tomarem duas medidas. “Pensar primeiro” exige que os funcionários formem seu próprio julgamento antes de consultar a IA. “Verificar sempre” exige que eles verifiquem informações críticas geradas por IA com fontes independentes antes de agir. O protocolo visa fortalecer o julgamento independente e a verificação e reduzir riscos, mesmo quando a manipulação não é reconhecida.

Esse hábito simples e estruturado de pensamento crítico pode reduzir efetivamente os riscos associados à IA. Em um experimento controlado com 151 participantes, uma microaula de três minutos sobre o TFVA elevou a qualidade das decisões em 7,87 pontos percentuais, com ganhos relativos de 44% no julgamento ético e de 25% na verificação de informações. Após a microaula, os participantes realizaram 18 tarefas baseadas em cenários (como identificar mensagens de phishing geradas por IA e solicitações suspeitas feitas em nome de executivos) e alcançaram um índice de acerto de 65,3%, em comparação com 57,4% no grupo de controle.

Na RSM France, a empresa de auditoria, contabilidade e consultoria onde trabalho, implementamos o protocolo em programas de integração e treinamento para nossos 1.600 funcionários. O feedback inicial sugere que isso reduz riscos e constrói confiança organizacional.

Os gestores podem incorporar a TFVA em onboarding, treinamento de conscientização em segurança e políticas de acesso à IA generativa, reforçando o hábito em cada caso com uma simples sessão de treinamento de três minutos. O retorno é uma força de trabalho que trata a IA como uma ferramenta poderosa que exige julgamento, e não como uma autoridade confiável que exige obediência.

*Yuksel Aydin é diretor de segurança da informação da RSM França e pesquisador de segurança em IA.

Referências bibliográficas

J. Sloan and V.L. Glaser, “Robotic Artistry: Four Surprise Pathways for Generative Artificial Intelligence-Assisted Abductive Theorization,” express manuscript, Strategic Organization, published online April 28, 2026, https://doi.org/10.1177/14761270261448648.

V.L. Glaser, J. Sloan, and J. Gehman, “Organizations as Algorithms: A New Metaphor for Advancing Management Theory,” Journal of Management Studies 61, no. 6 (September 2024): 2748-2769, https://doi.org/10.1111/joms.13033.

Você leu o post? Então faça login e tenha acesso ao recurso de “Marcar como lido”.

Jennifer Sloan e Vern L. Glaser
Jennifer Sloan e Vern L. Glaser
Jennifer Sloan foi pesquisadora na UCL School of Management (Reino Unido). Vern L. Glaser é professor de empreendedorismo na Alberta School of Business da University of Alberta (Canadá).

Deixe um comentário

Ouvir
Bookmark (0)
Please login to bookmark Close
Exportar
Share

Para você Faça login para ver sugestões personalizadas

Você atualizou a sua lista de conteúdos favoritos. Ver conteúdos
aqui