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Da presença ao retorno: como o marketing virou uma decisão de capital

Empresas que tratam marketing como custo tendem a geri-lo como custo. As que tratam como investimento crescem com previsibilidade

Mitri Britto
6 min de leitura
Da presença ao retorno: como o marketing virou uma decisão de capital

Durante anos, o marketing operou em uma zona confortável – orçamento aprovado com base em narrativa e resultado cobrado com tolerância. Poucas empresas conseguiam responder com clareza uma pergunta simples: o que esse investimento realmente gerou para o negócio?

Na prática, essa imprecisão criou uma distorção duradoura. Marketing tornou-se uma das maiores alocações de recursos dentro das organizações sem jamais ser tratado como tal.

Com a crescente pressão por eficiência, essa contradição ficou insustentável. Marketing deixou de ser apenas uma função de comunicação para se tornar uma das principais decisões de alocação de capital dentro da empresa. E isso muda tudo.

Quando tratado como capital, o marketing deixa de ser discutido em termos de presença ou posicionamento e passa a ser avaliado pela sua capacidade de gerar retorno. O problema é que a maioria das empresas ainda trava nessa transição – não por falta de dados, mas por não transformá-los em decisão.

Hoje, praticamente todas as organizações acompanham indicadores como CAC, LTV, conversão por canal ou geração de pipeline. Mesmo assim, esses números muitas vezes convivem com decisões tomadas de forma isolada, sem conexão clara com a estratégia da companhia e sem impacto real na alocação de recursos. 

O tamanho dessa lacuna aparece em uma pesquisa da McKinsey de 2025. Ao ouvir mais de 50 líderes seniores de marketing em grandes companhias, a consultoria não encontrou um único que conseguisse explicar com clareza o retorno dos investimentos em tecnologia de marketing. A maior parte seguia medindo aberturas de e-mail, impressões e alcance, sem ligar esses números à receita ou ao valor do cliente ao longo do tempo. Medir não é o mesmo que gerenciar.

Tratar marketing como capital exige entender como o valor é gerado e, principalmente, onde ele está sendo perdido. Isso significa analisar cada frente com critérios próprios, mas dentro de um sistema integrado – não de silos operacionais.

Como em qualquer alocação de capital, o ponto de partida deriva da estratégia da companhia, que define quais ofertas escalar, quais públicos ativar e quais mercados priorizar. É essa lógica que deveria orientar todas as decisões de marketing.

No digital, isso implica acompanhar toda a jornada, da impressão ao clique, do tráfego à conversão, até a geração de pipeline e o fechamento. Não para medir volume, mas para identificar, com precisão, onde o capital está sendo bem alocado – e onde está sendo desperdiçado ao longo do funil.

Em eventos, a lógica começa antes da execução. Sem esse alinhamento estratégico prévio, eventos tendem a gerar presença, não valor. Com ele, passam a gerar pipeline qualificado e, mais importante, alinhado com os objetivos reais de crescimento.

O mesmo raciocínio se aplica a iniciativas tradicionalmente tratadas como intangíveis. O efeito de PR, por exemplo, não se resume ao alcance. Está na construção de marca que aumenta confiança, melhora taxas de conversão e, consequentemente, reduz o custo de aquisição nos demais canais. Ignorar esse efeito sistêmico é otimizar a parte e perder o todo.

Esse é um ponto frequentemente negligenciado: canais não operam de forma isolada. O erro não está em analisá-los separadamente, mas em não entender como eles se reforçam economicamente ao longo da jornada. Empresas que analisam marketing por canal tendem a otimizar partes do problema. Empresas que tratam marketing como um sistema otimizam o todo.

Essa lógica é a mesma utilizada por investidores: recursos são finitos, oportunidades são múltiplas, e o papel da gestão não é maximizar presença, mas retorno. 

Isso exige uma mudança de modelo: sair da distribuição de orçamento por canal e migrar para a alocação de capital com base em retorno esperado, combinando iniciativas de geração direta de demanda com investimentos de construção de marca, cada um com horizontes e métricas distintos.

Quando esse raciocínio é incorporado, o marketing deixa de ser uma função periférica e passa a ocupar um papel central na estratégia da companhia. Deixa de ser responsável apenas por gerar demanda e passa a influenciar diretamente a qualidade do crescimento, respondendo perguntas que antes pareciam pertencer a outras áreas: onde investir para crescer? Quais canais realmente escalam? Onde o custo de aquisição é sustentável?

Empresas que fazem essa transição passam a operar com outro nível de clareza. Sabem onde investir, onde estão desperdiçando recursos e como crescer com previsibilidade. No mesmo estudo, a McKinsey citou uma varejista global de vestuário que passou a medir cada investimento de marketing pelo retorno gerado em vendas. Ao isolar o quanto cada frente de fato movimentava a receita, a empresa deixou de tratar a área como despesa operacional e passou a geri-la como alavanca de crescimento.

A diferença não está no quanto se investe, mas em como se decide investir. As empresas que não mudam essa dinâmica acabam presas a um modelo em que marketing consome orçamento sem necessariamente construir valor.

No fim, a discussão deixa de ser sobre quanto destinar ao marketing – e passa a ser sobre onde a companhia quer chegar e como vai alocar capital para chegar lá.

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Mitri Britto
Mitri Britto é diretor de Estratégia, M&A e Marketing da TIVIT. Atua com o Grupo Almaviva no planejamento estratégico, no crescimento inorgânico e na consolidação do posicionamento da marca com foco na evolução do grupo na América Latina. Com passagem por private equity na Angra Partners, experiência em planejamento e estratégia no Grupo Boticário e Salta Educação, e formação em Engenharia pelo IME, Mitri combina perfil analítico com visão executiva orientada a negócios.

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