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COP30

Diário de Berlim do Pará

O saldo é positivo, mas houve decepções, seja com a falta de um roadmap para abandonar combustíveis fósseis, seja com a contribuição relativamente baixa da Alemanha ao Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF)

Carlos de Mathias Martins
29 de janeiro de 2026
4 min de leitura
Diário de Berlim do Pará

A COP de Belém foi um sucesso. O bilionário americano Warren Buffet, provavelmente o maior investidor de todos os tempos, considera que um casamento de sucesso é resultado de uma deliberação fundamental: escolher um parceiro com baixas expectativas a seu respeito. Minha relação de 25 anos com as COPs é exatamente essa. Baixas expectativas.

Na minha avaliação, a COP de Belém foi um sucesso por duas razões: manteve o espírito cooperativo entra as nações para equacionar o tema das mudanças climáticas e colocou de forma bastante assertiva a discussão sobre transição energética e, ainda que de forma subjacente, os pesados subsídios governamentais para a indústria petrolífera.

Thomas Sowell, provavelmente o maior economista da minha geração já ensinava: quando um grupo de pessoas almeja o impossível somente os mentirosos conseguem satisfazê-las. Todos os anos em COPs recentes, a imprensa chapa alviverde – chapa branca dos governos amigos e chapa verde dos ambientalistas, anuncia alguma resolução das 195 partes signatárias do Acordo de Paris (194 países mais a União Europeia) para acabar com a indústria do petróleo. A história se repete, e no último dia da conferência para surpresa de ninguém a Índia e a China bancam os vilões de filmes de faroeste e levam a culpa por bloquear exatamente aquela resolução que salvaria a humanidade do consumo desenfreado dos combustíveis fósseis. Foi assim em Dubai e agora em Belém.

Vale registrar que a imprensa global bradava que no final da cadeia de comando do negacionismo climático estavam os EUA de Donald Trump. Mais uma vez Thomas Sowell nos ensina que a simplificação maniqueísta e utópica de questões complexas acaba por criar “bandidos para odiar e mocinhos para amar”, nesse caso específico, como se a Índia, a China e a Arábia Saudita não estivessem defendendo seus interesses e atuassem simplesmente como sabujos do atual vilão da humanidade.

Agora imagine os competentíssimos negociadores do Itamaraty com as mãos cheias de petróleo da Foz do Amazonas comprometidos com a defesa do “roadmap” para o fim dos combustíveis fósseis. Não deve ter sido fácil argumentar para os países da OPEP que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. “What about your roadmap, Brazil?”. E no tabuleiro das negociações climáticas não acho justa qualquer reprimenda ao eventual “uotabautismo” dos defensores dos combustíveis fósseis.

Vale um comentário aqui: o anglicismo “roadmap” é muito mais apropriado do que a tradução preguiçosa “mapa do caminho” estampada nos jornais brasileiros e verbalizada no noticiário televisivo. Roteiro e plano também funcionam para mim.

Por fim, muito se falou da gafe do chanceler alemão que em discurso funesto comparou as belezas da Alemanha com as mazelas de Belém do Pará. A falta de uma resposta mais contundente do governo brasileiro reascendeu o debate sobre o viralatismo atávico do nosso povo. Discordo. Por exemplo, criticar a temperatura de sauna úmida no interior do pavilhão da COP não tem nada de viralatismo. Para mim a definição de viralatismo é celebrar o dinheiro de pinga aportado pela Alemanha no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF na sigla em inglês), iniciativa liderada pelo Brasil. Pouco dinheiro, dado o poderio econômico da Alemanha. Esse incidente com o chanceler alemão, entretanto, serviu para corroborar o postulado pela Lei de Godwin, segundo a qual à medida que uma discussão online se prolonga, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Hitler ou o nazismo aproxima-se de 100%. 

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Carlos de Mathias Martins
Carlos de Mathias Martins é engenheiro de produção formado pela Escola Politécnica da USP com MBA em finanças pela Columbia University. É empreendedor focado em cleantech.

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