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GESTÃO PÚBLICA

Gestão pública e inovação: entre avanços possíveis e barreiras persistentes

Cases no Brasil e na Estônia mostram o potencial da inovação pública. Conheça o framework que propõe como estruturar e liderar uma gestão pública orientada por dados, IA e impacto real

Rafael Martins
20 de agosto de 2025
11 min de leitura
Gestão pública e inovação: entre avanços possíveis e barreiras persistentes

A tecnologia sempre operou sob uma lógica essencial: escalar. As startups foram criadas com esse princípio: crescer exponencialmente, alcançar milhões de usuários e reduzir custos por meio de dados e automação. Quando orientada à inovação pública, essa lógica tem o potencial de transformar profundamente a gestão de países, estados e cidades.

Governos, por natureza, lidam com escala diariamente. Precisam entregar serviços a milhões de cidadãos, operando sob restrições orçamentárias e limitações estruturais. A boa notícia é que a tecnologia não apenas pode apoiar essa missão, como já está entregando resultados concretos.

Um exemplo notável é o gov.br, a plataforma de serviços digitais do governo brasileiro. Em 2023, ela ultrapassou a marca de 155 milhões de usuários cadastrados, consolidando-se como o principal ponto de acesso digital a serviços públicos no país. No ano seguinte, viabilizou mais de 697 milhões de consultas automáticas entre sistemas públicos por meio do programa Conecta gov.br. O impacto financeiro foi expressivo: economia de R$3,21 bilhões em 2024 — o dobro do registrado em 2023 (R$1,54 bilhão), segundo dados do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos.

Essa eficiência reflete o avanço de um ecossistema público mais sofisticado, no qual interoperabilidade, uso estratégico de dados, inteligência artificial (IA) aplicada e governança sustentam uma inovação que vai além da digitalização e que se afirma como vetor de transformação estrutural.

O Mapa GovTech Brasil 2024, elaborado pelo BrazilLAB em parceria com a Oracle, mostra que os investimentos públicos em startups e pequenas e médias empresas voltadas à gestão pública ultrapassam R$60 milhões, e que o setor de GovTechs caminha para integrar um mercado global estimado em US$1 trilhão em 2025.

A tecnologia, portanto, deixa de ser apenas um facilitador — e passa a ser um motor de eficiência, escala e impacto social duradouro.

Digitalizar sem excluir: o desafio

Embora a digitalização traga ganhos expressivos de eficiência, ela também carrega um risco importante: o de aprofundar desigualdades se não considerar o contexto social e a diversidade dos usuários.

Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2024, apesar de 99% dos lares urbanos no Brasil tenham algum tipo de acesso à internet, apenas 22% da população possui o que se classifica como “conectividade significativa” — uma combinação de acesso de qualidade, custo acessível, uso diversificado de dispositivos e competências digitais para uso efetivo dos recursos online.

Um estudo publicado pela Anatel em 2024 reforça o desafio. Segundo o “Boletim Diagnóstico – Habilidades Digitais no Brasil e no Mundo”, apenas 30% da população brasileira tem habilidades digitais básicas e só 18% possui competências intermediárias. Isso significa que não basta digitalizar serviços para garantir acesso pleno. É preciso garantir que a população esteja preparada para utilizá-los e para se beneficiar amplamente dessas tecnologias – sob risco de que grande parte da população permaneça excluída.

Para que a transformação digital no setor público seja, de fato, um instrumento de inclusão e equidade, será necessário ampliar o acesso qualificado e investir em capacitação digital. Do contrário, mesmo com serviços digitais disponíveis, grande parte da população pode permanecer excluída do pleno acesso a eles.

O risco, no entanto, pode ir além da ineficiência e comprometer a legitimidade e a efetividade das ações do Estado. Estudos como “How can E-Government respond to the Digital Divide?”, apresentado na Digital Government Research Conference em 2025, mostram que soluções digitais mal adaptadas tendem a reforçar desigualdades, agravar a exclusão social e minar a confiança nas instituições públicas.

Inovação pública para gerar impacto e entrega de valor

À medida que as administrações públicas — no exterior e no Brasil — começam a incorporar tecnologias de forma mais estratégica, observa-se uma tendência promissora: o uso da inovação digital como meio para ampliar a eficiência operacional, promover inclusão e melhorar a entrega de serviços à população.

É o caso da Estônia, referência global em gestão pública digital, que deu seus primeiros passos na oferta de serviços públicos eletrônicos no início dos anos 2000. Desde então, o país vem construindo um ecossistema digital robusto — conhecido como e-Estonia —, que hoje oferece à população 99% dos serviços públicos online. Com suas respectivas identidades digitais, os cidadãos podem, por exemplo, assinar contratos, abrir empresas remotamente e até votar.

Por trás dos avanços mais recentes da administração pública no país, está o KrattAI, a estratégia nacional de IA, lançada em 2019. Seu objetivo é criar uma rede interoperável de assistentes virtuais que possibilitem interações personalizadas e contínuas, por voz ou texto, entre cidadãos e serviços públicos de diferentes órgãos do governo. Foi o caso do Suve, o assistente virtual que atuou durante a pandemia de covid-19 fornecendo informações oficiais à população. Até agora, diversos projetos vinculados ao KrattAI foram reconhecidos em escala global: quatro deles estão na lista da Unesco dos 100 melhores projetos de IA no mundo.

No Brasil, também já despontam iniciativas que demonstram ser possível avançar na digitalização dos serviços públicos. O uso de IA, antes experimental, começa a integrar soluções concretas na gestão pública.

No Rio Grande do Sul (RS), por exemplo, a administração pública estadual tem utilizado IA, dados e tecnologias emergentes para responder a desastres climáticos, conforme explicou o governador Eduardo Leite em entrevista exclusiva para esta coluna. Desde 2023, o repasse de auxílios financeiros para famílias afetadas por enchentes evoluíram de pagamentos manuais para soluções baseadas no cruzamento de dados de imagens de satélite obtidas por radar e dados de cadastros sociais, permitindo acelerar a identificação dos beneficiários e a liberação dos recursos. Neste ano, uma parceria for firmada com uma empresa finlandesa para gerar imagens através de ondas de radiofrequência, que permitem de mapear áreas impactadas mesmo sob nuvens densas.

A IA também tem sido empregada no estado para tornar mais fluida e intuitiva a experiência da população no acesso aos serviços públicos. No último mês de junho, foi lançada a assistente virtual GurIA, baseada em IA, com o objetivo de esclarecer prontamente as dúvidas dos usuários e eliminar etapas intermediárias que tornam o acesso aos serviços mais moroso. A nova ferramenta conversacional, integrada ao portal oficial de serviços digitais do governo estadual e também disponível via WhatsApp, permite que os cidadãos façam perguntas sobre uma ampla variedade de serviços públicos — como matrícula escolar, pagamento de tributos, agendamentos e programas sociais — e recebam respostas geradas em linguagem acessível e adaptadas ao seu perfil. Até agora, a GurIA recebeu 300 mil consultas.

Para ensinar os cidadãos a utilizar as ferramentas e serviços públicos digitais com mais autonomia e segurança, a administração pública do RS dispõe ainda de uma iniciativa de letramento digital, conduzida pela Secretaria Extraordinária de Inclusão Digital e Apoio às Políticas de Equidade em escolas, centros de juventude e unidades físicas do Tudo Fácil, o programa de atendimento do governo estadual que reúne diversos serviços públicos em um só lugar.

Liderança, regulação e visão de longo prazo

Mas a tecnologia, por si só, não resolve. Uma dissertação defendida na Fundação Getulio Vargas analisou a digitalização em mais de 4 mil municípios brasileiros e concluiu que o sucesso desse processo depende mais da capacidade institucional, aliada à qualidade da gestão e autonomia fiscal, do que da presença de tecnologia em si.

No contexto da IA, avanços também exigem marcos regulatórios claros e equilibrados. O AI Act, aprovado pela União Europeia em 2024, é uma das regulações mais rigorosas do mundo para uso da IA. Apesar de ser um passo importante para garantir segurança e direitos, a medida vem gerando críticas por parte de empresas europeias quanto à possível perda de competitividade em relação a países como Estados Unidos e China, que adotam frameworks mais flexíveis ou experimentais.

O framework ASA (da sigla em inglês para Arquitetura do Estado Algorítmico), desenvolvido por Zeynep Engin, cofundadora da organização Data for Policy (Reino Unido) e pesquisadora da University College London (Reino Unido), apresenta as quatro camadas que estruturam uma gestão pública orientada por IA:

  1. Infraestrutura pública digital: sistemas de identidade digital, autenticação, interoperabilidade e registros centrais.
  2. Dados para políticas públicas: coleta, integração e análise de dados para embasar decisões e avaliar impactos.
  3. Governança algorítmica: aplicação de IA com supervisão humana para apoiar ou automatizar decisões governamentais.
  4. GovTech: colaboração público-privada para soluções digitais que modernizem a gestão e ampliem a eficiência.

Para que essas camadas funcionem de forma integrada, são indispensáveis liderança, governança de dados e abertura à inovação. Trata-se de uma orquestração cultural e tecnológica.

O momento é propício. O Brasil tem condições, capacidade técnica e experiências bem-sucedidas. Mas transformar essa base em uma gestão mais responsiva, escalável e inclusiva depende de algo menos automatizável: vontade política, formação de lideranças e visão de longo prazo.

A tecnologia já não é mais o problema. Agora, ela é a prova.

* Parte das informações sobre as iniciativas no Rio Grande do Sul foram compartilhadas pelo governador Eduardo Leite em entrevista concedida ao colunista em 30/06/2025.

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Rafael Martins
Rafael é CEO e confundador do Share, professor convidado do MBA de Negócios do Mackenzie e da graduação em Comunicação e Letras da Universidade de Coimbra, em Portugal. Eleito por quatro anos consecutivos como um dos Top 100 profissionais digitais do Brasil pelo ranking Cloudez.

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