Centro de formação executiva focado em liderança, inovação e curadoria de conteúdos para líderes e gestores do futuro.

Conheça mais

O portal brasileiro da faculdade de gestão do MIT, trazendo conteúdo de qualidade e confiável sobre o tema.

Você está aqui

Acesso a estudos exclusivos e materiais de ensino produzidos pela faculdade de negócios de Harvard.

Versão brasileira do portal referência em negócios na China, endossado pela universidade de negócios Cheung Kong.

Conheça mais
O CNEX faz parte do ecossistema Atitus. Conhecimento, tecnologia e inovação. Conectadas com o mesmo propósito: o seu futuro.

Status de leitura

Faça login para usar este recurso

Crie uma playlist

Faça login para salvar este conteúdo em suas playlists

Não lido

©2026 MIT Sloan Management Review Brasil. Todos os direitos reservados. A reprodução, total ou parcial, é proibida sem a autorização prévia e expressa do CNEX.

Governança

Por que grandes empresas precisam de um portfólio integrado de inovação

Entenda como inovação sem direção, sem sinergia e sem governança vira peso — e não faz a empresa inovar realmente. E o Google é um exemplo didático disso

Maximiliano Carlomagno
10 min de leitura
Por que grandes empresas precisam de um portfólio integrado de inovação

No começo, tudo parecia funcionar.  

O Google, ainda embalado pelo espírito ousado do Vale do Silício, dava a seus engenheiros 20% do tempo para explorar ideias próprias. Dessa prática de inovação nasceram Gmail, AdSense e outros sucessos.  

Mas por volta de 2012, o Google começou a restringir esse modelo de “inovação espontânea” e passou a ter uma gestão ativa sobre seu portifólio de inovação. O CEO Larry Page percebeu que a empresa já não era mais aquela pequena startup — e que sua forma de inovar também precisava crescer. “Inovação espontânea” demais estava se tornando sinônimo de desperdício. Faltava direção. Faltava foco. 

Essa história não é só do Google. É o retrato de centenas de grandes empresas que estimulam projetos inovadores em diferentes estruturas, programas e processos. 

A lição é clara: mesmo os titãs digitais, para continuarem relevantes, precisam de um portfólio integrado de inovação — um sistema que organize esforços, evite dispersão e transforme boas ideias em impacto real.  

Tive a oportunidade de debater os benefícios de um portifólio integrado de inovação com o time de alta gestão de uma empresa líder em logística para o agronegócio brasileiro.  Compartilhei com eles os quatro principais benefícios dessa abordagem gerencial. Esses benefícios se traduzem em governança mais sólida dando, inclusive ao Conselho, a visibilidade e controle necessários a gestão de riscos do negócio. 

1) Coerência entre estratégia e alocação de recursos 

O primeiro benefício de consolidar as iniciativas de inovação num portifólio integrado é o alinhamento estratégico. Um portfólio integrado transforma projetos isolados em uma estratégia que reflete a direção da empresa. Sem esse alinhamento, equipes diferentes podem seguir objetivos próprios, levando a investimentos “soltos” que não servem à estratégia geral.  

Estudo recente sobre o tema mostra que a falta de visão comum entre líderes costuma gerar prioridades conflitantes, de modo que “a empresa acaba investindo em iniciativas que trazem pouco ou nenhum valor ao negócio”. Ao integrar e gerenciar um portfólio de inovação, a alta liderança consegue garantir coerência entre a estratégia de inovação e a alocação de recursos. O resultado é que todo real investido tem mais chance de produzir resultados estrategicamente relevantes.  

O portfólio de inovação deve ser estruturado para “maximizar o valor do portfólio, buscar o equilíbrio certo de projetos e garantir o alinhamento estratégico” . Esse alinhamento é ainda mais crítico quando se consideram indústrias de ciclo curto de desenvolvimento cuja velocidade de obsolescência e impacto na proposta de valor exigem uma abordagem dinâmica e sistêmica de gestão da inovação. 

2) Sinergia e otimização de recursos 

O portfólio integrado gera sinergias operacionais. Em grandes empresas há dezenas ou centenas de iniciativas de inovação acontecendo em paralelo. O portfólio integrado atua como um mapa: revela duplicações, identifica oportunidades de colaboração e une esforços que antes competiam entre si. Ao mapear projetos de inovação, o top management pode ver onde vale reagrupar recursos ou combinar esforços.  

Na prática, isso permite redistribuir investimentos e competências de modo a evitar esforços paralelos, reduzir redundâncias e acelerar soluções de maior impacto. Se duas equipes estão desenvolvendo soluções semelhantes, o portfólio integrado indica que convém unir forças. Se um projeto requer habilidades já existentes em outro, em vez de recriar do zero podemos reaproveitar conhecimentos. Por outro lado, o portfólio proporciona visibilidade sobre “zonas cinzentas”: iniciativas órfãs que não se vinculam a nenhum objetivo estratégico claro. Identificar esses casos agiliza decisões de continuidade ou cancelamento. 

Em síntese, gerir o portfólio de forma integrada evita que se faça inovação para a inovação, tirando a duplicidade e maximizando a utilização da capacidade disponível em todos os projetos.  

Essa abordagem também reduz o risco de investir demais em apostas frágeis e de subinvestir em oportunidades promissoras. Sem essa governança, os recursos acabam “espalhados”, financiando ideias pouco maduras por tempo demais e desperdiçando oportunidades que poderiam gerar vantagem competitiva. 

3) Balanceamento de risco e retorno 

Toda boa carteira de investimentos tem algum grau de diversificação. Com inovação é igual. Uma empresa madura precisa construir sua carteira de inovação entre diferentes apostas. É o chamado “balanceamento de portfólio”. Estudo recente evidenciou que o portifólio integrado favorece o equilíbrio entre projetos exploratórios e consolidados e amplia o impacto coletivo do portfólio, promovendo impacto duradouro.  

Melhores práticas ensinam que empresas inovadoras desenvolvem um portifólio de inovações incrementais (H1), adjacentes (H2) e disruptivas (H3) ao mesmo tempo. Cada horizonte (H) traz perfil diferente de risco-retorno: projetos no core normalmente têm risco baixo e retorno mais modesto, enquanto os de experimento têm alto risco e potencial de retorno muito grande. O portfólio integrado permite calibrar esse mix de forma deliberada de acordo com a realidade de cada empresa.  

O Google foi pioneiro em estabelecer uma alocação estratégica entre os horizontes de inovação: Eric Schmidt propôs alocar 70% dos recursos em inovações de core business (H1), 20% em iniciativas adjacentes (H2) e 10% em projetos transformacionais (H3). Porém seguir mecanicamente o modelo do Google pode ser desafiador e até prejudicial. Não é uma fórmula mágica, mas um lembrete: empresas resilientes jogam em múltiplos tabuleiros ao mesmo tempo. E adaptam a jogada ao contexto. Em tempos de estabilidade? Mais foco no core. Em momentos de disrupção iminente? Aposte no que pode transformar. 

4) Governança e captura de valor 

A gestão integrada do portfólio de inovação fortalece a governança da inovação e a captura de resultados. Com processos claros – comitês de inovação, métricas e revisões periódicas – fica mais fácil monitorar o impacto das iniciativas e decidir quais devem ser ampliadas ou encerradas.  

O monitoramento constante garante que os projetos sigam na direção certa e permite ajustes quando necessário. Além disso, empresas maduras conseguem identificar cedo quais ideias venceram e escalá-las eficientemente, ao mesmo tempo em que eliminam iniciativas inviáveis ainda no início. 

É importante lembrar que a gestão de portfólio é permeada por dinâmicas políticas internas em que gestores atuam como “arquitetos de sentido”, influenciando decisões por meio de sensegiving (atribuição de significado) e sensebreaking (desconstrução de sentidos estabelecidos). Essa dimensão informal pode tanto viabilizar quanto comprometer decisões estratégicas, especialmente em ambientes com múltiplos stakeholders.  

Ferramentas de acompanhamento contínuo (dashboards, indicadores-chave de desempenho) permitem avaliar rapidamente o progresso de cada projeto. Essa disciplina evita que o ciclo da inovação vire um cemitério de pilotos e que a empresa se apaixone por ideias que já morreram — e garante que as vencedoras tenham gasolina para escalar. 

Além disso, estudos indicam que aplicar apenas métricas financeiras tradicionais a projetos de inovação tende a favorecer melhorias incrementais em detrimento de inovações de ruptura. Por isso, é fundamental incorporar critérios qualitativos, como alinhamento estratégico e diferencial competitivo percebido, especialmente em estágios iniciais de desenvolvimento. Essa abordagem amplia a diversidade e ousadia do portfólio, sem comprometer o foco estratégico. 

Inovação integrada ou fragmentada? 

Num mundo de múltiplas tecnologias emergentes, ecossistemas complexos e ciclos de mudança cada vez mais curtos, o maior risco é a fragmentação.  

Diferentemente do portfólio de projetos, que se baseia em um processo linear com baixa taxa de abandono, o portfólio de inovação opera em condições de alta incerteza e elevada taxa de descarte. A arquitetura eficaz de um portfólio de inovação deve permitir decisões rápidas, com investimentos incrementais nas ideias mais promissoras e abandono estruturado das menos relevantes.  

Inovação sem direção, sem sinergia e sem governança vira peso — não alavanca. Organizações que gerenciam a inovação de forma pulverizada (silos internos, unidades descentralizadas, spins-offs isolados) correm o perigo de perder visão de conjunto. 

O Google aprendeu cedo que  liberdade demais pode matar a inovação tanto quanto o excesso de controle. O desafio não é escolher entre ordem e criatividade, mas encontrar a arquitetura certa para transformá-las em impacto.  

Um portfólio integrado de inovação não é uma burocracia. É o que separa iniciativa de “acabativa” na gestão da inovação corporativa.   

Porque inovar sem direção é desperdiçar o futuro. 

Referências bibliográficas

Eckert, T., & Hüsig, S. (2022). Innovation portfolio management: A systematic review and research agenda in regards to digital service innovations. Management Review Quarterly, 72(2), 187–230. https://doi.org/10.1007/s11301-020-00208-3 

Mathews, S. H. (2013). Innovation portfolio management. Research-Technology Management, 56(5), 9–10. https://doi.org/10.5437/08956308X5605002 

Mathews, S. H. (2011). Innovation portfolio architecture—Part 2: Attribute selection and valuation. Research-Technology Management, 54(5), 37–46. https://doi.org/10.5437/08956308X5405005 

Tolstykh, T., Gamidullaeva, L., & Shmeleva, N. (2020). Approach to the formation of an innovation portfolio in industrial ecosystems based on the life cycle concept. Journal of Open Innovation: Technology, Market, and Complexity, 6(4), 151. https://doi.org/10.3390/joitmc6040151 

Röth, T., Spieth, P., & Lange, D. (2019). Managerial political behavior in innovation portfolio management: A sensegiving and sensebreaking process. Journal of Product Innovation Management, 36(6), 744–768. https://doi.org/10.1111/jpim.12501 

Globocnik, D., Peña Häufler, B., & Salomo, S. (2022). Organizational antecedents to bootlegging and consequences for the newness of the innovation portfolio. Journal of Product Innovation Management, 39(5), 717–745. https://doi.org/10.1111/jpim.12626 

Você leu o post? Então faça login e tenha acesso ao recurso de “Marcar como lido”.

Maximiliano Carlomagno
É sócio-fundador da Innoscience, consultoria de inovação corporativa que trabalha com empresas como Roche, Coca-Cola, Duratex, Hypera Pharma. SLC Agrícola, Sicredi, M. Dias Branco, Braskem, Nestle, Ipiranga e Avon. É autor do livro “Gestão da Inovação na Prática”.

Deixe um comentário

Ouvir
Bookmark (0)
Please login to bookmark Close
Exportar
Share
Conteúdo da editoria Estratégia e inovação

Para você Faça login para ver sugestões personalizadas

Você atualizou a sua lista de conteúdos favoritos. Ver conteúdos
aqui