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A geopolítica dos alimentos (parte 3 de 3)

No terceiro e último desta série, responderemos uma questão fundamental: quais as tendências que norteiam o futuro dos alimentos?

Colunista Suelen Schneider

Suelen Schneider

05 de Maio

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Artigo A geopolítica dos alimentos (parte 3 de 3)

O termo sustentabilidade deriva do latim sustentare, que significa não apenas cuidar, mas também conservar, manter o equilíbrio e evitar a queda. Em outras palavras, a sustentabilidade de uma indústria está relacionada às ações tomadas para manter a sua perenidade, a conservação do meio ambiente e a sobrevivência da humanidade no longo prazo. Ora, se as indústrias usam recursos naturais, a conservação do meio ambiente é condição sine qua non para sua sobrevivência.

E o que as inovações tecnológicas têm a ver com sustentabilidade? A tecnologia é uma arma poderosíssima da humanidade. Quando usada adequadamente, ela resolve problemas críticos como o da sustentabilidade. As inovações tecnológicas podem reduzir as emissões de gases de efeito estufa, aumentar a produtividade, reduzir desperdícios, otimizar a distribuição e, até mesmo, criar fontes alternativas de alimentos, como é o caso do uso da biotecnologia para a produção de alimentos sintéticos.

Atualmente, mais de 800 milhões de pessoas vão dormir com fome todos os dias, e outras 2 bilhões de pessoas não têm acesso à quantidade de nutrientes necessários para o seu desenvolvimento. Se sustentabilidade está ligada com a sobrevivência da nossa espécie, qual é o papel das tecnologias na solução desse problema? Eu diria que ela é uma das nossas grandes esperanças.

Essas constatações servem de pano de fundo para uma discussão maior ligada ao futuro da indústria dos alimentos. O rápido crescimento da população, a expansão da classe média, a urbanização, a necessidade de conservar o meio ambiente e a insegurança alimentar pressionam a indústria de alimentos a se reinventar. Por isso, neste artigo, trataremos de seis tendências que nortearão o futuro das organizações neste setor.

Nutrição e saúde

Nós vivemos num mundo de grandes contrastes. De um lado, convivemos com os dados assustadores da fome e má nutrição no mundo. De outro, mais de 670 milhões de pessoas apresentam sobrepeso ou obesidade. Apesar de o problema se concentrar na América do Norte, regiões asiáticas e países em desenvolvimento apresentam tendências de aumento do número de obesos. Isso ocorre, em boa parte, porque as pessoas dessas regiões passaram a ter acesso a refeições altamente calóricas e de baixo teor nutritivo, como é o caso do fast food, comum na cultura ocidental.

O ponto crítico é que a obesidade tem efeito colateral devastador para o sistema de saúde, causado pelo aumento de problemas cardiovasculares, diabetes, câncer e outros. No mundo, a obesidade e seus efeitos colaterais trazem um custo extra de USD 2 trilhões por ano aos sistemas de saúde, conforme estimado pela McKinsey. Sugiro, aqui, uma pausa para reflexão. Quantas pessoas poderiam ser alimentadas com esse valor? Quantas pessoas poderiam sair da zona de fome com os alimentos consumidos em excesso?

Os governos e as empresas do setor devem trabalhar juntos para mudar essa tendência. É necessário rever regulamentações, educar a população, usar a tecnologia para ganhar produtividade (custo e escala), distribuir mais equitativamente os alimentos, desenvolver opções mais nutritivas e menos calóricas. Embora existam ações de algumas empresas e governos nesse sentido, elas são insuficientes para mudar a tendência da obesidade e da má nutrição.

Tecnologia e nutrição dos alimentos

O uso de tecnologias pode transformar os sistemas produtivos de alimentos. No entanto, grande parte das organizações no mundo ainda está inserida nos sistemas rurais, informais ou emergentes de produção (veja o segundo artigo desta série). Além disso, o setor caminha a passos lentos em sua adaptação às tecnologias emergentes da 4ª revolução industrial, como a inteligência artificial (IA), Internet of Things (IoT), blockchain e biotecnologia.

Entre 2010 e 2018, apenas USD 14 bilhões foram investidos em startups focadas em tecnologias de alimentos, enquanto no setor de saúde, o valor investido foi de USD 145 bilhões no mesmo período. A maior parcela dos investimentos no setor de alimentos está nos países desenvolvidos, mantendo a disparidade em relação aos países em desenvolvimento, nos quais tais investimentos seriam cruciais.

Hoje, já existem tecnologias que podem transformar a indústria de alimentos, mas essas precisam ganhar escalabilidade e superar as diversas barreiras do setor. Vejamos alguns exemplos:

- Biotecnologia: essa tecnologia possibilitou a produção de proteína animal sintética e de grãos geneticamente modificados (conhecidos pela sua sigla em inglês, GMOs). O uso dos GMOs foi amplamente difundido. Contudo, quando o tema é a produção de proteínas sintéticas, diversos mitos e barreiras, impostas pela própria indústria, emergem. Atualmente, a indústria de carne bovina é responsável por 14,5% dos gases de efeito estufa (FAO & UCDavis, 2019), número superior ao da queima de combustíveis fósseis. Esse problema antagônico poderia ser amenizado com a proteína sintética. Entretanto, isso é tema para um artigo específico.

- Data Analytics e IA: essas tecnologias são aplicadas em previsões de demandas, planejamento de produção, distribuição e precificações. Todavia, elas podem oferecer benefícios ainda maiores à comunidade global. Existem soluções que usam a combinação de analytics e IA para identificar cidadãos em situações de vulnerabilidade e insegurança alimentar, possibilitando ações direcionadas a estes grupos.

- Blockchain: essa tecnologia pode ser usada para rastreamento das cadeias de suprimentos de alimentos, desde a produção agrícola, em pequenas ou grandes fazendas, até o consumidor final. A blockchain traz maior transparência, segurança, rentabilidade e inclusão para os produtores e consumidores.

Inclusão no setor agrícola

Cerca de 2,8 bilhões de pessoas estão ligadas às atividades agrícolas. Metade da força laboral é composta por mulheres, e este percentual aumenta para 60% em países com baixos PIBs. Nessas localidades, o grande desafio é o acesso à educação sobre boas práticas agrícolas, aos fertilizantes e às sementes. Os jovens de classes baixas enxergam o setor como pouco atrativo, pois uma pequena parcela da lucratividade fica em seu poder.

Por isso, jovens e mulheres migram para os centros urbanos em busca de melhores condições de vida. Este círculo vicioso apenas fomenta a pobreza. Há estudos que apontam que o investimento na inclusão desta força laboral, composta por mulheres e jovens de classe baixa, nas atividades agrícolas, reduz a pobreza em maior proporção do que o mesmo investimento no setor da indústria de processamento.

Eficiência da cadeia de valor

A instabilidade econômico-social de 2020 e 2021 gerou um considerável aumento da volatilidade no suprimento de alimentos, registrando incremento de preços superiores a 30% em menos de um ano. Economias em desenvolvimento, situadas nos três primeiros estágios dos sistemas produtivos (veja o segundo artigo desta série), possuem menor acesso às informações, tecnologias e apresentam maiores custos produtivos.

Para piorar a situação, os investimentos no setor de alimentos não estão sendo realizados nos países mais pobres e com maiores lacunas de fornecimento. Portanto, para capturar a maior parcela de valor da lacuna do setor, investidores devem considerar uma mudança de foco.

A otimização da cadeia de suprimentos deve mitigar a lacuna de alimentos existente entre os países pobres e ricos. Uma maneira de fazer isso é através de financiamento proporcionado por parcerias público-privadas (também chamado de blended) aos pequenos produtores rurais dessas regiões. O smallholders value chain, termo usado para as cadeias de valor desses pequenos produtores, fomentará maior rentabilidade global, desenvolvimento social, inclusão e sustentabilidade do setor.

Mudanças demográficas e a demanda

O crescimento da população, a migração para as áreas urbanas e o aumento da classe média mundial são os direcionadores das novas demandas por alimentos. A respeito do crescimento da população, é esperado que o mundo supere a marca dos 8 bilhões de habitantes em 2030, e chegue próximo aos 10 bilhões em 2050, conforme estimativas da ONU. Este crescimento se concentrará nos países em desenvolvimento, onde também estão as maiores lacunas de fornecimento, tecnologias e produtividade.

Estima-se, ainda, que o percentual de pessoas em áreas urbanas passe de 55%, dados de 2018, para 68% em 2050. Para complementar, o aumento da classe média permitirá maior acesso aos alimentos processados e às proteínas animais de frango, peixes e bovino. Diante dessas grandes mudanças, será necessário o incremento da produção mundial de alimentos, uma reanálise do footprint fabril, distribuição e investimentos tecnológicos nas regiões rurais.

Footprint ambiental

A escassez de água, as mudanças climáticas e o desmatamento são problemas ambientais severos e são impactados diretamente pela produção de alimentos. O maior volume de emissões de gases de efeito estufa vem da produção de carne. A indústria de alimentos, com destaque para a produção de frango no sistema no resfriamento com água (conhecido como water chiller), usa intensivamente este recurso.

Ademais, para dar lugar à plantação de grãos e criação de gado, há desmatamento massivo de florestas essenciais para a renovação de gases (transição do gás carbônico para oxigênio), como a Amazônia. Essa renovação depende da conservação das florestas, da terra e da água.

Por todos esses fatores, quando pensamos na indústria futura dos alimentos, é necessário olhar para uma renovação fabril e para o meio ambiente, priorizando o uso consciente de água, produções alternativas de proteínas animais e compromisso com o net zero da emissão dos gases de efeito estufa.

O atingimento do net zero desses gases foi tema central do IT Governance Summit do Foro Econômico Mundial (WEF), que ocorreu em abril deste ano, citado pelo CEO da Salesforce, Marc Benioff. Esse foi também um compromisso assumido pela JBS recentemente.

DESAFIOS ESTRATÉGICOS

Quando olhamos para o futuro da indústria dos alimentos, esses seis fatores já são uma realidade. As empresas do setor que não têm frentes estratégicas fortemente estabelecidas para cada uma delas já estão atrasadas.

Gostou do artigo do Suelen Schneider? Leia o primeiro e o segundo artigo desta série e saiba mais sobre produção de alimentos e tecnologia assinando gratuitamente nossas newsletters e ouvindo nossos podcasts na sua plataforma de streaming favorita.

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Colunista Suelen Schneider

Suelen Schneider

Especialista em estratégia e supply chain, Suelen Schneider ocupou posições-chave em uma das maiores empresas de alimentos do Brasil por 12 anos. Tem mestrado pela FGV-Eaesp e especializações internacionais pela University of Califórnia em Irvine, Indian Institute of Management Bangalore na Índia, Yale School of Management nos EUA e Koç Universiti na Turquia, Hoje é empreendedora, consultora e educadora na MultiConcept e doutoranda em liderança e mudanças globais na Pepperdine University, dos EUA.

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