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Biomimética e direito: conexão para a disrupção

O termo criado nos anos 90 e cunhado por Janine Benyus pode ser relacionado à inovação na criação de produtos, arquitetura e engenharia de construções, assim como pode ser usado para inovar e evoluir o setor jurídico

Colunista Katsuren Machado

Katsuren Machado

05 de Maio

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Artigo Biomimética e direito: conexão para a disrupção

O que o histórico de 3,8 bilhões de anos pode nos ensinar?

A biomimética surgiu com esse questionamento para buscar respostas unindo ciência e a inspiração na inteligência da natureza para construir soluções para o mundo onde nós nos entendemos como dominantes.

Janine Benyus escreveu o primeiro livro e cunhou o termo biomimética nos anos 90, para descrever o design intencional e a inovação na resolução de problemas por meio do estudo da natureza. Em 2006, fundou o Biomimicry Institute para promover de forma global a pesquisa e o desenvolvimento destas soluções para a conscientização do foco na sustentabilidade.

Um trem bala mais resistente e ao mesmo tempo leve, uma roupa que otimiza a velocidade durante o nado olímpico, edificações que são sustentáveis, e tantos outros exemplos, comprovaram a sabedoria desse universo desconhecido pela maioria de nós.

Relacionar biomimética e a inovação na criação de produtos, arquitetura e engenharia de construções pode parecer lógico, já que hoje temos projetos por todo o mundo que ratificam essa conexão. Um dia, há poucos anos, não era tão fácil assim de assimilar.

Para coexistir a natureza entendeu que a biodiversidade é essencial e, numa dinâmica de mutualismo, cria condições para continuidade e sobrevivência mesmo em meio a ciclos de adaptações. Hoje, em pleno 2023, ainda falamos de diversidade e inclusão, como algo que está em um nível de maturidade muito abaixo do que seria ideal, e, no contexto jurídico, o assunto é ainda mais complexo.

Provocar debates em meio a questões que envolvem assumir riscos e gerar mudanças culturais profundas é um desafio que nem todos estão dispostos a enfrentar. Entretanto, diante das grandes transformações vivenciadas por todos nós, não é surpresa que no ambiente jurídico fosse necessário um novo modus operandi.

Já pensou na tecnologia natural inerente ao processo de sobrevivência de uma árvore? Como ela através de suas raízes leva milhares de litros de água e nutre toda a sua estrutura? Como ela distribui recursos e resiste às adversidades de outras vegetações, animais do ambiente e mudanças climáticas ao longo do período da sua existência que pode durar até 500 anos?

Como vamos gerir negócios nos próximos 10 anos? Será que estamos prontos para lidar com a inteligência artificial e todos os cenários emergentes ainda não regulados? Provavelmente, teremos que repensar as estratégias diante de problemas sem precedentes. E quem sabe, as florestas tenham algo a ensinar sobre adaptação e gestão de crises.

Alguns princípios universais guiam a metodologia criada por Janine Benyus, e que já foi replicada por algumas centenas de pessoas em projetos de diversos escopos em todo o mundo. Talvez falar sobre um deles, a interoperabilidade, como uma skill do mundo natural para a gestão, possa ser útil para o jurídico desta era.

Na natureza impera o “com” acima do “sobre”, e a interdependência torna agentes passivos e ativos ao mesmo tempo dentro dos processos, o que permite impulsionar o uso inteligente de recursos que, inegavelmente, otimiza e produz melhores resultados para toda a rede que se conecta a eles.

A adaptação e flexibilidade para gerar harmonia e promover trocas eficientes é outro ponto a ser destacado na natureza, já que a resistência requer um gasto excessivo de energia, muitas vezes torna inviável uma estratégia a longo prazo. Flexibilidade e direito também podem coexistir.

Mutualismo e colaboração são palavras-chave para a organização e gerenciamento de recursos naturais. No direito, alguns tradicionalismos podem perdurar mesmo quando obsoletos ou contraproducentes e, por isso, enfrentamos muitas crises que impedem a evolução de toda a sociedade.

A natureza foi protagonista de um número incontável de erros, acertos e inovações, que juntos criaram muitos “cases” de sucesso. Há muito aprendizado a ser absorvido e incorporado aos nossos dias.

O fruto de uma árvore atrai animais que, por sua vez, carregam suas sementes e viabilizam a reprodução de uma espécie. No amadurecimento dos frutos, para promover o engajamento de outros organismos do ecossistema, a transformação acontece através da mudança na coloração, cheiro e outras estratégias que atraem e cumprem os objetivos por uma motivação pelo desejo.

E se ao invés de engajarmos pelo medo, com a norma que ressalta a penalidade, pensássemos em um engajamento por outra perspectiva? Teríamos menos tempo dedicado à criação de leis e mais políticas para incentivar a ação desejada?

Desaprendemos como operar e criar equilíbrio quando paramos de observar e passamos a aceitar respostas sem questionamentos ou prévias análises. Confiamos na nossa capacidade de discernir e esquecemos de pensar criticamente e ponderar os vieses que conduzem a todos por caminhos múltiplos e variáveis.

Se com a biomimética desenhássemos novos tribunais? Eles teriam estruturas mais acessíveis? Sistemas humanos? Haveria maior comunicação e colaboração entre órgãos públicos? Englobaria novas funções e atividades?

Qual será o futuro dos departamentos jurídicos corporativos? Como serão os novos profissionais desse setor? Foco nas pessoas? Ou também na vida de todos os seres vivos que coexistem no ecossistema?

Se não houver sociedade, meio ambiente ou condições para a evolução humana, de que valerá a norma? Inovação é o que muda o status quo, nem que seja em um milésimo de fração, o futuro para algo mais desejável, sustentável e eficiente.

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Autoria

Colunista Katsuren Machado

Katsuren Machado

Katsuren Machado é advogada e consultora especialista em experiência do cliente no jurídico, escritora pela Thomson Reuters Espanha, professora, palestrante, pesquisadora de inovação e comunicação jurídica e mentora de inovação jurídica para a expansão de negócios.

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