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O grande inimigo da inovação

Num universo empresarial instável e propenso ao medo, líderes corajosos apostam na inovação e não seguem a cartilha de que o sucesso surge de uma sacada brilhante, sem crises e adaptações

Colunista César Gon

César Gon

21 de Fevereiro

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Artigo O grande inimigo da inovação

"César, o maior inimigo do ser humano é o medo". Essa foi a resposta de Alejandro Vigil, enólogo da bodega Casa El Enemigo, quando perguntei a origem do curioso nome da sua vinícola, durante um jantar em Mendoza.

Vigil ficou famoso no mundo do vinho quando Robert Parker, o poderoso e polêmico crítico, avaliou a sua safra de 2013 em 100 pontos. Inspirado por Vigil, convido você, com ou sem uma taça na mão, a uma reflexão sobre o que considero ser o maior inibidor da inovação no ambiente corporativo: o medo.

O líder infalível

No mundo dos negócios, o sucesso é geralmente visto sob uma ótica imediatista, como se uma grande sacada, seguida de uma execução infalível, fosse a receita mágica para a inovação e para o sucesso instantâneo. Vamos então desafiar essa visão simplista e explorar outra perspectiva, fugindo da narrativa "sacada+execução", buscando as reais fundações de uma trajetória vitoriosa.

Quando você mergulha em cada uma dessas jornadas, os achados são muito valiosos: despida a máscara da infalibilidade, as verdadeiras histórias dos "poderosos" empreendedores e CEOs são sempre marcadas por crises, erros, duros aprendizados e mudanças.

Além disso, não são histórias individuais e sim construções absolutamente coletivas, que acabam simbolizadas na figura de um líder. Aliás, num mundo onde quem ganha o jogo são as melhores equipes, essa personificação do sucesso empresarial é, como diria a minha avó, "uma mania besta do século passado".

Resiliência, adaptabilidade e coragem

Empreender é, por definição, um mergulho na incerteza, uma aposta na resiliência, na adaptabilidade e na coragem de enfrentar o desconhecido.

Resiliência de valores, de propósito, de ter sempre um imutável "why". Adaptabilidade de sonhos, de estratégia, de perspectivas, para conseguir vencer coletivamente, para atrair, dar vez e voz a gente talentosa, para co-criar e co-destruir "what & how", quando e quantas vezes for necessário. E o terceiro elemento comum às trajetórias inovadoras é a coragem. Sim, vamos falar de coragem, mas antes preciso falar da sua antítese, o medo.

O medo e a segurança psicológica

Uma das maiores catástrofes humanas no exercício da liderança é que o medo de liderar gera a liderança pelo medo. É a insegurança gerando opressão, é o medo de falhar inibindo a interação sincera entre as pessoas, mantendo uma ilusão de controle através de punições, deixando todos com medo de também falharem e perderem os seus empregos. Promovendo os hábitos covardes e afastando os criativos, os talentosos, os intrépidos. Esse ambiente é o solo infértil para inovação, por mais talentosos que sejam os profissionais.

Em toda minha trajetória profissional, todas as equipes de baixa performance que esbarrei tinham como traço comum uma liderança pelo medo. E, o que é alvissareiro, também vi boa parte delas tornarem-se equipes de alta performance, às vezes com as mesmas pessoas, quando foram expostas a uma liderança capaz de criar um ambiente de respeito, seguro, onde todos têm voz e sabem que terão suporte quando tentarem e eventualmente falharem.

Os resultados do celebrado "Projeto Aristóteles", estudo realizado pelo Google ao longo de 2 anos com 180 times, destacam o quão decisiva é a segurança psicológica na performance de uma equipe.

No fundo, essa pesquisa reforça conclusões de estudos anteriores, com destaque para o realizado pelos professores do MIT, Edgar Schein e Warren Bennis, sobre a necessidade de segurança psicológica para lidar com as ansiedades geradas por um ambiente de incertezas (sob a ótica das mudanças organizacionais). Mais detalhes em "Personal and Organizational Change through Group Methods: The Laboratory Approach" (Schein, E.H. & Bennis, 1965) e “The five keys to a successful Google team” (Julia Rozovsky, 2015).

A incerteza é o prato do dia desse início da terceira década do século XXI, tornando esse tema radicalmente relevante e contemporâneo. Nesse contexto, não é difícil concluir que sem segurança psicológica não existirá inovação em escala numa organização e não haverá sucesso no longo prazo.

Liderança corajosa gera times seguros

Se o elo perdido da inovação é uma liderança corajosa, como podemos garantir a preponderância desse estilo de liderança nas nossas organizações? Ou, sob outra ótica, de onde os líderes devem tirar a sua própria segurança psicológica para serem corajosos e formarem supertimes seguros e inovadores?

Bem, é nesse momento que nos confrontamos com a responsabilidade maior do CEO e dos principais líderes de uma organização: criar e preservar uma cultura corporativa voltada para inovação. É ela a verdadeira fundação para o sucesso no longo prazo, é a melhor fonte para a ousadia empreendedora, para fomentar um ambiente viciado em mudança. É a cultura onde líderes formam líderes cada vez mais corajosos, mais empreendedores.

Uma cultura que também pode ser vista como uma rede de segurança: podemos tentar muitas coisas e quando nossas hipóteses, planos ou processos falham, uma mão gigante invisível aparece para não apenas prevenir uma dolorosa queda, mas ao contrário, nos traz de volta, nos coloca de pé, para tentarmos novamente, para aprendermos novamente, para evoluir não apenas como indivíduos, mas também como organização.

Essa é uma responsabilidade inescapável da alta liderança, pois a cultura é sempre um reflexo da alta liderança. Ao longo dos últimos anos tenho estudado a alta liderança e os CEOs de grandes empresas em todo o mundo, sob o prisma da transformação digital, da cultura e nos desafios de competir no século XXI. E quase sempre observo um misto de euforia (pelas oportunidades) e medo (pelo nível de incerteza e profundidade das mudanças necessárias).

Minha tese é que o maior desafio para todos nós, líderes, é uma reflexão individual sobre as mudanças pessoais necessárias para promover as grandes transformações que almejamos para nossas empresas. Ou, se quisermos usar a sábia pena de Leo Tolstói, "todo mundo pensa em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo".

E foi refletindo sobre os meus próprios desafios que lembrei daquela frase sobre o medo e da intrépida trajetória de Vigil (que também é enólogo chefe da icônica Catena Zapata), inovando no conservador e sisudo mundo do vinho, que também vive uma era de grandes e profundas transformações.

Um brinde ao líder corajoso.

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Colunista

Colunista César Gon

César Gon

César Gon é empreendedor, fundador e CEO da CI&T, multinacional brasileira de serviços digitais, e investidor ativo em fundos de risco e startups. Premiado, em 2019, como o “Entrepreneur of The Year” pela EY no Brasil, é engenheiro da computação, com mestrado em ciência da computação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

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