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Revisitando o burnout à luz da covid-19 (parte 4 de 4)

A falsa dicotomia entre saúde e economia, e os impactos da pandemia em toda uma geração jovem, são alguns dos pontos analisados no artigo que encerra essa série

Colunista Paul Ferreira

Paul Ferreira

16 de Abril

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Artigo Revisitando o burnout à luz da covid-19 (parte 4 de 4)

O equilíbrio emocional das pessoas tem sido fortemente abalado por diversas causas: isolamento social, incertezas do futuro, pressão para alcançar resultados, as dificuldades do trabalho remoto, entre outros pontos.

Muito cedo, talvez por pesquisar com regularidade o benefício das abordagens paradoxais quando enfrentando tensões no processo decisório, assumi que não existe trade-off entre saúde e economia. A saúde das pessoas e a economia seguem na mesma direção, e a economia só retomará plenamente quando nos sentirmos seguros para trabalhar, consumir e, mais importante, viver.

Para quem tem ainda dúvidas, basta analisar a questão das demissões coletivas, uma estratégia comum por parte das empresas enfrentando uma crise econômica. A perda do emprego aumenta o risco de morte prematura em 63%, afeta negativamente a saúde física e mental e quase duplica a taxa de suicídio. Por outro lado, manter a atividade econômica sem se preocupar com a saúde das pessoas aumenta o risco de acelerar a pandemia.

No entanto, é possível reter funcionários mesmo em tempos econômicos difíceis? Claro, porque as dispensas são, em parte, uma escolha, uma consequência de como os líderes conduzem seus negócios. Assim, o movimento “Não Demita”, suportado por mais de 4.000 empresas que aderiram à iniciativa de não demitir seus funcionários até 31 de maio 2020, reforçou a interdependência entre economia e saúde.

Pandemia: negligência e bem-estar

Dito isso, existe um crescente sentimento que a vida com covid-19 e as medidas de saúde que a acompanham perdurarão, infelizmente, por mais tempo do que previsto, mergulhando o mundo em um estado de emergência permanente, pelo menos ao longo de 2021.

Haverá vacinas, mas também novas variantes, e novas preocupações, ficando mais evidente que talvez tenhamos negligenciado um importante elemento na equação saúde e economia: o bem-estar das pessoas.

A Constituição da OMS define saúde da seguinte forma: “saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não é apenas ausência de doença ou enfermidade”. O corolário importante dessa definição é que as três dimensões da saúde têm que ser combinadas para promover o bem-estar das pessoas.

Um exemplo ilustrativo desse possível “ponto cego” nas políticas adotadas pela maioria dos governos são os efeitos deletérios da covid-19 e da quarentena sobre a saúde mental dos nossos filhos e mais geralmente sobre os estudantes, principalmente quanto aos níveis de depressão, ansiedade e estresse.

O público estudantil tem uma participação limitada na economia, por isso são raramente o alvo dos subsídios econômicos criados pelos governos para lidar com a mesma. Pessoas com menos de 18 anos têm baixo risco de contrair a covid-19, e quando infelizmente acontece, eles geralmente desenvolvem formas leves da doença. No entanto, eles enfrentam os mesmos confinamentos e restrições quanto os demais.

A combinação dos três elementos explica, em grande parte, o aumento preocupante nas expressões de desconforto, nos transtornos psicológicos, angústias, e tentativas de suicídio observadas nos últimos meses no público que tem menos de 18 anos.

Efeitos de longo prazo

Conhecendo a propensão do mundo laboral para desencadear problemas de saúde mental, me questiono qual será o impacto na força de trabalho futura de uma geração inteira que iniciará sua trajetória profissional num estado latente de burnout.

Mais amplamente, uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz analisou o impacto da pandemia e do isolamento social na saúde mental de trabalhadores essenciais, revelando que sintomas de ansiedade e depressão afetam 47,3% desses trabalhadores durante a pandemia, no Brasil. A maioria sofre de ansiedade e depressão ao mesmo tempo. Além disso, 44,3% têm abusado de bebidas alcoólicas; 42,9% sofreram mudanças nos hábitos de sono.

Assim, um novo imperativo de boa governança pública talvez seja o de garantir que, quando a recuperação econômica se tornar possível porque fomos vacinados atempadamente – a dita combinação saúde e economia –, não existam depressões e mal-estar em massa, impedindo que todo ser humano possa, individual e coletivamente, pensar, sentir, interagir com os outros, ganhar a vida e desfrutar de sua existência.

BOM SENSO COMO LÓGICA

Por fim, reduzir a insegurança econômica e o estresse, dar apoio às pessoas, avaliar e acompanhar o bem-estar dos trabalhadores, reconhecer as responsabilidades familiares dos funcionários – ajudando-os a conquistar um melhor “life balance” –, e examinar a possibilidade de trabalhar de novas maneiras, favorecendo atividades que agregam maior valor são estratégias de bom senso. Isso não serve apenas durante a pandemia, mas o tempo todo.

Nesse sentido, a atual crise pandêmica pouco revela sobre o que os bons líderes e as boas empresas deveriam fazer sempre. Isso apenas torna essas práticas de gestão mais importantes e urgentes.

Leia a primeira, a segunda e a terceira coluna da série Revisitando o burnout à luz da covid-19. Confira ainda o melhor conteúdo sobre saúde mental assinando gratuitamente nossas newsletters e ouvindo nossos podcasts na sua plataforma de streaming favorita.

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Colunista

Colunista Paul Ferreira

Paul Ferreira

É professor em tempo integral de estratégica e liderança na Fundação Getúlio Vargas (FGV EAESP, Brasil), diretor do mestrado executivo em administração (MPA) da FGV EAESP e vice-diretor do Núcleo de Estudos em Organizações e Pessoas (NEOP). Desde 2020, Paul é colunista do MIT Sloan Management Review Brasil. Além disso, ele é pesquisador visitante permanente na Universität St. Gallen (Suíça).

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