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Levantamento inédito da Innoscience e do Cubo Itaú mapeou 2.485 profissionais de inovação no Brasil e encontrou uma profissão que se popularizou mais rápido do que amadureceu
Em 1900, a General Electric convenceu um professor de química do Massachusetts Institute of Technology (MIT) de 32 anos a abandonar a vida acadêmica e montar, do zero, algo que praticamente não existia nos Estados Unidos: um laboratório de pesquisa dentro de uma empresa.
Willis Whitney não tinha precedente para seguir, nem colegas de profissão, nem literatura de gestão sobre o assunto. Ele passou 28 anos como diretor do laboratório, construindo o que transformou a GE em líder absoluta no mercado de lâmpada incandescente. Quando se aposentou, empresas como DuPont e General Motors já mandavam representantes a Schenectady para aprender como ele havia organizado a caça por descobertas relevantes. Whitney não apenas ocupou o primeiro cargo de inovação corporativa do mundo. Ele teve décadas para descobrir o que esse cargo deveria ser.
Cento e vinte e seis anos depois, o Brasil tem 2.485 profissionais com “inovação” no cargo ou na headline de rede social profissional, segundo o relatório Profissão Inovação, produzido pela Innoscience em parceria com o Cubo Itaú. Mas quase nenhum deles teve o tempo de Whitney. Dois terços chegaram à função a partir de 2021. Apenas 78 pessoas da amostra começaram a carreira já em inovação: o resto migrou, principalmente de tecnologia, engenharia e estratégia. O título se popularizou mais rápido do que a competência amadureceu, e essa distância é o fio condutor dos cinco insights que a pesquisa revela.
1. Inovação deixou de ser título raro. Há profissionais de inovação em toda a hierarquia organizacional brasileira, de analistas a C-level, concentrados em serviços financeiros, telecomunicações e TI, saúde e ciências da vida. Sudeste e Sul respondem por mais de 80% da amostra. A função saiu da exceção para a normalidade do organograma.
2. É uma profissão aprendida “correndo”. Quase 70% (69,7%) dos profissionais chegaram à função depois de 2021, vindos sobretudo de tecnologia, engenharia e estratégia. A profissão ainda não teve tempo de acumular identidade técnica própria, e isso aparece no repertório declarado: gestão de projetos e planejamento estratégico lideram o ranking geral de skills, à frente de qualquer termo específico de inovação.
3. Para eles, inteligência artificial é assunto, mas ainda não é instrumento. Só 20,1% dos inovadores declaram alguma skill de IA, e apenas 2,1% relatam efetivamente usá-la no trabalho. No discurso público, porém, a presença de IA quase triplicou em 14 trimestres, de 7,6% para 24% dos posts. O gargalo não é mais convencer a organização de que IA importa. É converter pauta em prática, numa velocidade que hoje não acompanha o discurso.
4. O repertório aponta para trás; o mercado, para a frente. Cruzando o que os inovadores declaram com a matriz Habilidades Mais Essenciais para 2030, do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês), aparece um padrão quase perfeitamente invertido: a competência mais declarada, gestão de recursos e operações (91,1%), é justamente a que menos deve crescer até 2030. Já IA, resiliência, curiosidade e motivação, entre as que mais devem crescer, estão entre as menos declaradas na base brasileira.
5. Fala-se do que se faz, raramente do que se entrega. Nos mais de 40 mil posts sobre inovação analisados, 60,4% valorizam a atividade (lançamos, realizamos, participamos) contra 18,1% que valorizam o resultado (reduziu, gerou, transformou). A proporção vem melhorando, de 4,1 atividades para cada resultado em 2023 a 2,8:1 nos trimestres mais recentes, mas o movimento é lento.
Para quem está na cadeira de inovação, o convite é auditar o próprio perfil contra a matriz do WEF e escolher, nos próximos 90 dias, um caso real de uso de IA no próprio trabalho, não mais um curso. Para a alta liderança, o ponto de atenção é direcionar áreas de oportunidade prioritárias, alocar tempo para aplicação real de IA nos times e cobrar indicador de resultado, não só de atividade, nos rituais de reporte, em vez de apenas disponibilizar LLMs. Para os RHs, a implicação é redesenhar a trilha de carreira com critérios de competência técnica distintos de competência de gestão genérica, e criar programa específico para quem migrou recentemente de outra área.
Whitney não esperou a disciplina de inovação amadurecer para agir. Ele a construiu enquanto praticava, com o tempo que o século 20 lhe deu. O inovador corporativo brasileiro não tem esse luxo. A régua de competência muda debaixo dele no mesmo ritmo em que a profissão ainda se forma. A boa notícia é que a distância que esta pesquisa mapeia tem direção clara de fechamento: repertório técnico de inovação, prática real de IA, as competências que o WEF já projeta crescer, e uma narrativa pública orientada a resultado.
Cada profissional, cada área e cada organização tem agora a chance de decidir o próprio próximo passo, antes que essa distância deixe de ser vantagem de quem age cedo e passe a ser desvantagem de quem esperou demais.
Você pode baixar a íntegra da pesquisa Profissão Inovação neste link.
O estudo parte de dados públicos de rede social profissional, tratados como ”digital trace data”, uma fonte pouco convencional para pesquisa de gestão, mas que tem precedente acadêmico brasileiro desde 2014.
No LinkedIn, foram coletados 3.482 perfis profissionais com “inovação” no cargo atual; 2.485 atenderam ao critério de atuar dentro de empresas (os demais, ligados a academia, governo, hubs e consultorias, ficaram fora desse recorte). As 14.171 skills declaradas por esses perfis foram classificadas uma a uma, sem amostragem, em 14 categorias. E os mais de 100 mil posts publicados por eles ao longo de 14 trimestres, de janeiro de 2023 a junho de 2026, passaram por um classificador que mediu tema, tom e presença de inteligência artificial no discurso.
O quadro quantitativo foi complementado por entrevistas em profundidade com três lideranças de inovação que já avançam nessa transição: Maiza Pimenta Goulart, diretora da AXIA Energia; Carolina Sevciuc, vice-presidente da PepsiCo no Brasil; e Bárbara Sapunar, diretora da Nestlé.
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