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Como ambientes profissionais seguros e a autenticidade podem reduzir o estresse e melhorar o desempenho cognitivo
Antes de tudo, acredito ser razoável entrarmos no consenso sobre o que é inteligência. Não há uma única definição do que seja inteligência, então vou compartilhar a minha visão, de acordo com meus estudos em neurociências, filosofia e comportamento humano.
Intelligere é o termo em latim, que significa compreender e perceber. Se formos resumir neurobiologicamente essa capacidade, podemos expandir seu conceito etimológico, e dizer que inteligência seria a capacidade de aprendizagem do cérebro. Ou seja, o quanto conseguimos armazenar, interpretar, compreender, acessar e utilizar informação. De livros a experiências vividas, de conversas a habilidades aprendidas.
Nesse conceito, te convido a entender o que bloqueia o uso da nossa inteligência e o que a potencializa. Especialmente quando nos relacionamos com atividades de trabalho.
Você já abriu a porta da geladeira sem saber por que e o que estava fazendo? Já teve episódios de déjà-vu? Ou ainda, tem notado que sua memória não está tão boa quanto costumava ser?
Se você respondeu sim para ao menos uma dessas três perguntas, pode ser um forte sinal de que você está estressado. Se o sim foi para todas, não é um sinal, é certeza.
O cortisol, que é o hormônio que secretamos para, veja só, regular o estresse, em excesso acaba surtindo um efeito emocionalmente bem conhecido: a ansiedade. Em outras palavras, o hormônio que nos ajuda a lidar com situações de estresse pode gerar mais estresse ainda quando desregulado.
Estudos indicam que o cortisol alto pode afetar o lobo parietal, a região do cérebro responsável por funções cognitivas importantes, como memória de curto e longo prazo e concentração.
Agora, vamos voltar para as perguntas acima: se estamos estressados, nosso cérebro busca maneiras de enfrentar esse estresse por meio de estímulos ao sistema dopaminérgico, responsável pela sensação de recompensa. A ida à geladeira, por exemplo, pode caracterizar uma atitude de procrastinação, onde nosso cérebro busca uma compensação imediata, no caso comer.
Episódios como déjà-vu e lapsos de memória podem estar relacionados a alterações no lobo parietal. Quando isso acontece, há dificuldade no acesso a memórias de curto e longo prazo, além de uma redução na capacidade de concentração. Como resultado, pode surgir confusão sobre se determinada experiência foi realmente vivida ou não, bem como dificuldade para acessar a memória.
Note que o cortisol em excesso gera um impacto negativo na armazenagem, interpretação, compreensão, acesso e uso do que aprendemos. Ou seja, em resumo: perdemos inteligência quando estamos estressados.
Até aqui, falamos sobre o conceito de inteligência e como ela é impactada negativamente. Agora, chegou a hora de falarmos onde ela é produzida e como podemos expandi-la.
Para começar, a inteligência está diretamente ligada a região do cérebro mais famoso entre os humanos: o córtex pré-frontal. Para ativá-la, precisamos despertar essa região, que demonstra maior atividade quando estamos sendo racionais.
De acordo com estudos feitos por americanos e eslovenos, publicados no periódico Neuroscience, o número e a frequência de conexões cerebrais no córtex pré-frontal são maiores em pessoas com desempenho cognitivo superior.
Pesquisas anteriores apontavam que o tamanho do cérebro poderia explicar até 6,7% da variação na inteligência de uma pessoa, enquanto as atividades neurais no córtex pré-frontal influenciavam até 5%. Agora, um novo estudo realizado pelos neurocientistas Todd Braver e Michael W. Cole, da Universidade de Washington, em parceria com as universidades do Colorado, Yale e de Liubliana (Eslovênia), revelou que a frequência da atividade no lado esquerdo do córtex pré-frontal pode explicar até 10% da variação no desempenho intelectual.
Particularmente, gosto da visão do psiquiatra britânico autor do livro “O paradoxo do chimpanzé”, Steve Peters, quando ele, analogicamente, se refere ao córtex pré-frontal como “humano”, devido a produção de inteligência, e ao lobo parietal de “computador”, já que armazena e dá acesso a memórias, e ao sistema límbico – região que possui estruturas que produzem, entre outras funções, emoções, de “chimpanzé”, referindo-se a sua subconsciência.
Isso demonstra o relacionamento entre essas regiões cerebrais, e o quanto é importante, para o desempenho cognitivo, que estejam em sintonia.
Afinal, como o córtex pré-frontal representa nossa parte mais “humana”, é fundamental expandir suas capacidades ao máximo e mantê-lo sempre ativo, para que possamos ter mais influência — e, consequentemente, mais equilíbrio — entre nossas decisões e emoções.
E uma das estratégias mais assertivas para sermos mais inteligentes no trabalho é sermos quem somos o máximo que pudermos.
Estudos sugerem que mais atividade no córtex pré-frontal está associada a expressão de experiências e autoexpressão, ou seja: AUTENTICIDADE.
Refletir sobre si mesmo e adotar atitudes que genuinamente expressam aspectos da identidade pessoal, intensifica a atividade no córtex pré-frontal medial (CPFm), uma região neural fundamental para a cognição, a regulação emocional e o comportamento social.
Essa área desempenha um papel central no processamento do ‘self’, integrando memórias e pensamentos relacionados à nossa identidade. Quando agimos com autenticidade, o CPFm não apenas apresenta uma elevada ativação, mas também reforça nossa percepção sobre quem somos. Esse processo fortalece a autoconfiança e estimula a automotivação.
Em essência, cultivar a autenticidade estimula essa ativação neural, o que contribuiu para nos tornarmos mais inteligentes.
Se uma das chaves para expandir nossa inteligência é ser autêntico, precisamos viver a autenticidade.
E, no ambiente corporativo, há uma “fórmula” para isso: nossos valores.
Quando atuamos em empresas, projetos e, sobretudo, com pessoas que compartilham nossos valores, criamos um ambiente propício para expressarmos nossa identidade.
O pensamento é, em si, um comportamento. Por isso, para que possamos refletir sobre quem somos e agir de maneira coerente com essa identidade, é fundamental cultivarmos um ambiente seguro e acolhedor.
A diversidade tem ajudado a criar essas estruturas de validação de autenticidade, ao promover múltiplas formas de expressão de diferentes identidades, tornando natural sermos quem somos em todos os ambientes que frequentamos, principalmente o trabalho.
Assim, podemos concluir que uma liderança inteligente se compromete com a criação de ambientes culturais e psicologicamente seguros, nos quais todos possam manifestar suas identidades livremente, sem o receio de serem julgados ou silenciados. Isso, por sua vez, minimiza um dos maiores inimigos da inteligência: o estresse.
Embora tudo isso pareça simples e até óbvio, permanece a pergunta: o que, afinal, ainda nos impede de sermos autênticos no ambiente corporativo?
Aqui vai uma dica: o mecanismo de sobrevivência mais utilizado nas relações contemporâneas: O MEDO.
Mas este é um assunto para o nosso próximo encontro.
Antes de ir, quero deixar aqui uma sugestão de conteúdo: o seriado “Ruptura”, da Apple TV, no qual os personagens separam suas memórias da vida real e do trabalho por meio de um procedimento neurológico.
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