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Do possível ao inevitável: IA generativa e o desafio existencial das cooperativas de crédito

Como inteligência artificial, cibersegurança e agentes autônomos estão moldando o futuro dos serviços financeiros

Lucas Bragagnolo
25 de agosto de 2025
15 min de leitura
Do possível ao inevitável: IA generativa e o desafio existencial das cooperativas de crédito

As tecnologias emergentes primeiro parecem impossíveis, depois improváveis e, subitamente, inevitáveis.” A frase de Kevin Kelly, escritor, futurista e um dos pensadores mais influentes sobre tecnologia e sociedade, nunca fez tanto sentido quanto agora. A inteligência artificial generativa deixou de ser promessa para se tornar realidade nos serviços financeiros.

No painel “Do Possível ao Inevitável: IA Generativa e o Futuro dos Serviços Financeiros”, realizado no Febraban Tech 2025, essa transição ficou evidente. Se em 2023 ainda se discutiam as potenciais aplicações da tecnologia, em 2025 ela já reconfigura, na prática, o modo como o mercado financeiro cria valor. Mas o que isso significa para as cooperativas de crédito?

O setor financeiro está deixando de ser apenas digital para se tornar cognitivamente inteligente e adaptativo. A IA generativa não representa apenas uma evolução tecnológica incremental, mas sim uma transformação sistêmica na forma como valor é criado, capturado e entregue no mercado financeiro.

Relatório da McKinsey & Company, The economic potential of generative AI: The next productivity frontier (2023), estimou que a IA generativa poderá adicionar entre US$ 200 bilhões e US$ 340 bilhões ao setor bancário global por ano, o equivalente a até 4,7% de suas receitas totais. Mais do que um novo motor de eficiência, trata-se de uma tecnologia que reconfigura o DNA competitivo das instituições financeiras, redefinindo a lógica de criação, captura e distribuição de valor em escala global.

Já a pesquisa The State of AI in 2025, também realizada pela McKinsey & Company, indica que mais de 75% dos bancos globais já implementaram iniciativas avançadas de IA generativa, não apenas como ferramentas de eficiência, mas como elementos centrais de transformação dos seus modelos de negócios, ampliando produtividade, redesenhando cadeias de valor e criando vantagens competitivas sistêmicas.

Enquanto bancos e fintechs avançam rapidamente, a IA generativa emerge como uma força de reconfiguração estrutural, habilitando:

  • Atendimentos onipresentes e empáticos, conduzidos por agentes cognitivos disponíveis 24/7, que acessam históricos financeiros, dados contextuais e preferências comportamentais para criar interações fluidas, personalizadas e quase humanas.
  • Decisões aceleradas com menor viés, pois algoritmos interpretam grandes volumes de dados estruturados e não estruturados em tempo real, reduzindo falhas humanas, antecipando riscos e propondo soluções de forma autônoma. 
  • Modelos de precificação mais inclusivos, ao integrar dados alternativos, inteligência comportamental e análise contextual para redefinir o conceito de risco de crédito, expandindo o acesso financeiro a segmentos historicamente excluídos.
  • Inteligência financeira prescritiva, capaz de ir além de análises descritivas ou preditivas, gerando recomendações e ações customizadas para cada cliente, com base em sua jornada financeira individual e cenários de mercado dinâmicos.

A verdade é que IA generativa não é apenas mais uma tecnologia no portfólio digital bancário – ela se torna o core estratégico que define velocidade, relevância e adaptabilidade organizacional. No futuro dos serviços financeiros, a vantagem não estará em quem possui mais agências ou maior carteira de crédito, mas em quem detém a inteligência mais contextual, responsiva, ética e confiável.

Cooperativas no olho do furacão

Para as cooperativas de crédito, que historicamente construíram sua relevância em torno do relacionamento próximo, da confiança comunitária e da governança democrática, a ascensão da IA generativa cria um novo dilema estratégico existencial: como manter sua proposta de valor única em um mercado onde a experiência financeira se torna hiperpersonalizada, preditiva e mediada por inteligências artificiais cada vez mais humanizadas?

Ao longo das décadas, cooperativas solidificaram sua legitimidade em três pilares essenciais:

  • Confiança e proximidade, ancoradas no atendimento humanizado e no conhecimento profundo do contexto de vida dos associados.
  • Governança democrática, que dá voz aos associados como protagonistas estratégicos, não apenas como clientes.
  • Propósito comunitário, atuando como motores do desenvolvimento econômico local e da distribuição equitativa de prosperidade, fortalecendo redes de cooperação e inclusão financeira.

No entanto, esses pilares, antes inabaláveis, estão sob intensa pressão. Estudos globais, como The future of work after COVID-19: Banking and financial services (McKinsey & Company), indicam que até 73% das funções bancárias têm potencial de automação ou aprimoramento por IA generativa, remodelando as fronteiras entre humano e máquina na prestação de serviços financeiros.

Nesse novo paradigma, manter modelos operacionais analógicos ou replicar apenas versões digitais dos processos físicos se torna insuficiente – e arriscado. As consequências de não incorporar tecnologias cognitivas de forma estratégica passam por situações como: 

  • Desaceleração do progresso digital dos associados, que passam a encontrar em bancos e fintechs experiências mais fluidas, personalizadas e responsivas.
  • Diluição do valor percebido do relacionamento humano, já que a IA generativa é capaz de simular empatia, memória contextual e atendimento proativo com maior velocidade, escala e precisão.
  • Enfraquecimento da relevância comunitária, pois o tempo dedicado a tarefas operacionais poderia ser realocado para estratégias de impacto social, consultoria financeira e construção de ecossistemas de prosperidade.

O que antes posicionava as cooperativas como referência em relacionamento e proximidade, como a presença física e o impacto social nas comunidades, agora corre o risco de se tornar um passivo competitivo em um mercado que avança exponencialmente. O verdadeiro desafio não está em escolher entre tecnologia ou humanidade, mas em orquestrar ambos como forças complementares: a tecnologia potencializando a essência cooperativa com eficiência, inteligência e personalização em escala, enquanto as pessoas se dedicam ao que nenhuma IA poderá substituir – inspirar confiança genuína, criar pertencimento coletivo e catalisar transformações reais nas comunidades.

Nesse novo contexto, não se trata apenas de decidir se a tecnologia cabe na cooperativa, mas de reconhecer que, sem ela, a própria cooperativa pode deixar de caber no futuro financeiro que se desenha.

Entre confiança e vulnerabilidade

À medida que cooperativas avançam em IA generativa, cloud e plataformas de dados, proteger dados e sistemas críticos não é apenas cumprir compliance regulatório; é salvaguardar o maior ativo intangível do cooperativismo: a confiança comunitária construída em décadas.

A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2025, conduzida pela Deloitte, evidencia que cibersegurança figura como a principal prioridade de investimentos entre bancos brasileiros, superando analytics e inteligência artificial, refletindo a preocupação com o aumento de ataques e fraudes sofisticadas no setor financeiro.

Além disso, tratar cibersegurança apenas como checklist de auditoria interna ou controles reativos é uma visão ultrapassada e perigosa. A cada avanço tecnológico, golpes e fraudes evoluem proporcionalmente, potencializados pela própria IA generativa, que já é utilizada para criar phishing hiperpersonalizados, deepfakes para engenharia social e ataques autônomos cada vez mais complexos.

Não se trata apenas de decidir se a tecnologia cabe na cooperativa, mas de reconhecer que, sem ela, a própria cooperativa pode deixar de caber no futuro financeiro que se desenha

Em um cenário onde tecnologia e riscos cibernéticos crescem exponencialmente e em paralelo, cooperativas precisam consolidar a cibersegurança como pilar estratégico e cultural, garantindo que sua evolução digital seja acompanhada por segurança, ética e a proteção integral dos dados e da confiança de seus associados.

O novo papel social das cooperativas

Cooperativas de crédito sempre foram vistas como agentes de desenvolvimento comunitário. Mas, no mundo atual, desenvolver comunidades não se limita ao econômico ou social – envolve também promover o letramento tecnológico. Em uma era onde a tecnologia define acesso, produtividade e inclusão, negligenciar esse pilar é abdicar de seu papel transformador.

Não oferecer aos associados as tecnologias que hoje moldam o sistema financeiro global não é apenas ineficiência ou atraso estratégico; é um ato de negligência ao futuro coletivo. Insistir em narrativas como “preservar o atendimento humano como diferencial competitivo” para justificar a não adoção das evoluções tecnológicas, na prática, significa:

  • Condenar os associados a um atraso digital e cognitivo, forçando-os a permanecer em experiências transacionais inferiores às disponíveis em bancos digitais e fintechs.
  • Manter processos manuais, lentos e burocráticos, que reduzem a produtividade dos colaboradores e drenam recursos que poderiam ser reinvestidos em inovação social e financeira.
  • Agir de forma egoísta e autocentrada, priorizando estruturas internas obsoletas em detrimento das reais necessidades dos associados, que passam a buscar fora o que não encontram dentro: conveniência, inteligência e personalização.

E a próxima fronteira já está posta: agentes de IA autônomos. Diferente dos copilotos, que auxiliam tarefas, os agentes de IA executam fluxos complexos de ponta a ponta, com autonomia, inteligência preditiva e capacidade de decisão. Para cooperativas, eles representam a oportunidade de orquestrar jornadas financeiras completas, liberando colaboradores para atividades de relacionamento humano estratégico e ampliando exponencialmente sua capacidade de servir, proteger e transformar comunidades.

A omissão tecnológica das cooperativas não protege seus associados – os limita. E à medida que a sociedade se torna cada vez mais conectada e digitalmente fluida, as pessoas e empresas começarão a cobrar avanços tecnológicos como pré-requisito básico, e não como diferencial.

O maior risco, portanto, não está em adotar tecnologias que substituam parte do atendimento humano. Está em falhar em potencializar o humano com tecnologia, inteligência e segurança, deixando claro que o foco não é, de fato, a prosperidade do associado, mas a proteção de uma zona de conforto institucional que, cada vez mais, se torna insustentável em um mundo cognitivo e conectado.

Hora de escolher: contar histórias ou criar futuros?

Em um mercado cada vez mais digital, inteligente e autônomo, as cooperativas de crédito precisam decidir se continuarão apenas contando histórias sobre propósito e confiança ou se irão protagonizar o futuro como plataformas tecnológicas de prosperidade coletiva. O mundo não espera mais por discursos – ele exige experiências que combinem humanidade e inteligência em cada interação.

A pergunta que fica para as cooperativas não é mais “se” irão adotar IA generativa, agentes autônomos e cibersegurança como pilares estratégicos – mas “quando”, e principalmente, “com qual visão”. Porque o risco real não está em investir nessas tecnologias, mas em permanecer irrelevante em um mercado que avança com ou sem elas.

Na prática, o caminho começa pequeno, mas exige decisão e disciplina. Na Sicredi Ouro Verde MT (conheça aqui o case de criação da área de inovação da cooperativa), no segundo semestre de 2023 treinamos nossas lideranças em IA generativa antes mesmo de implementações, estudamos cases de mercado e startups para entender possibilidades reais e demos um passo simples, mas transformador: capacitamos grande parte da equipe para usar copilotos de IA no dia a dia – seja para abordagens comerciais, dúvidas sobre crédito ou consultas a manuais. E mesmo com essa evolução, resistências surgiram: o medo relacionado à cibersegurança e, paradoxalmente, a dificuldade de muitos em utilizar a tecnologia disponível. Há quem deseje processos hiperautomatizados, mas ainda não explora nem as funcionalidades mais básicas.

Além disso, um ponto crítico nesse processo é mensurar os resultados de tudo aquilo que foi testado, contratado ou desenvolvido. Só através da mensuração consistente é possível evidenciar o impacto real e o potencial da tecnologia no dia a dia, garantindo decisões baseadas em valor entregue e não apenas em narrativas de inovação. No nosso caso, chegamos a reduzir em 30% o número de atendimentos para dúvidas sobre normativos.

Por isso, o insight que carrego e compartilho é claro: comece pequeno, mas comece. Meça cada passo dado. “Forçar” o uso no início não é imposição, é despertar curiosidade, ampliar repertórios e desafiar rotinas que já não entregam o melhor ao associado. Perguntar a si mesmo“Será que preciso continuar fazendo isso ou poderia ser feito por IA?” abre espaço para nos dedicarmos ao que só nós, humanos, podemos fazer – nutrir confiança, criar pertencimento e transformar comunidades.

No final, liderar o futuro cooperativo será sobre usar a tecnologia para amplificar a essência humana, não para substituí-la, garantindo que cada decisão, cada jornada digital e cada camada de segurança continuem servindo ao seu propósito maior: fazer prosperar pessoas, comunidades e o mundo que todos queremos construir juntos.

Gostou do assunto? Para se aprofundar, acesse a pesquisa inédita da MIT SMR Brasil, A competitividade das cooperativas de crédito na era digital, que mapeia os desafios e as oportunidades do setor para se tornar future-ready.

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Lucas Bragagnolo
Lucas Bragagnolo é engenheiro de biossistemas, gerente de inovação e processos no Sicredi Ouro Verde MT e vencedor do Prêmio Relevant Leaders (2024), da MIT Sloan Management Review Brasil e CNEX, no pilar Visão Sistêmica. É articulista da MIT SMR Brasil e atua na construção de cultura de inovação organizacional, intraempreendedorismo e transformação estratégica.

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