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Por que todas as startups devem incluir a sustentabilidade em sua história

Empresas que que integram práticas ambientais e sociais desde o início obtêm vantagens competitivas na atração de talentos, gestão de riscos e em seu posicionamento para crescimento e investimento futuros

Michael Wahlen e Swasti Gupta-Mukherjee
27 de agosto de 2025
11 min de leitura
Por que todas as startups devem incluir a sustentabilidade em sua história

O foco corporativo em levar seu negócio de forma sustentável está cada vez mais ligado à capacidade de gerir melhor os riscos, atrair talentos e descobrir novas oportunidades de expansão. Mas para startups que não visam explicitamente o setor de sustentabilidade, o tópico geralmente é uma reflexão tardia – e isso pode se revelar míope.

As startups normalmente não atraem a atenção dos stakeholders para as práticas sustentáveis e estão preocupadas, principalmente, em buscar um crescimento rápido e construir um modelo de negócio viável. No entanto, as empresas que priorizam a sustentabilidade desde o início podem desfrutar de algumas vantagens sobre seus pares e se posicionar para serem mais atraentes para potenciais compradores, clientes e investidores.

Para entender melhor até que ponto as startups estão incluindo considerações de sustentabilidade em seus planos de negócio, usamos o machine learning para quantificar o quanto elas se concentram em tópicos ambientais, sociais e de governança (ESG) em seus argumentos para investidores.

Usando um algoritmo público desenvolvido por outra equipe de pesquisadores, analisamos 65 pitches usados nos últimos cinco anos por startups norte-americanas que representam uma ampla gama de indústrias e estágios de crescimento. Calculamos pontuações separadas para atenção a fatores ambientais, sociais e de governança, permitindo uma análise granular. Em seguida, realizamos uma análise semelhante dos S-1 (registro de capital junto à SEC antes de um IPO) para revelar as diferenças na forma como as empresas se descrevem em diferentes estágios de crescimento. Os pitches representam os estágios iniciais da narrativa na jornada da startup, enquanto os S-1 representam estágios mais maduros.

Nossa análise revelou três insights principais. Primeiro: as startups raramente mencionaram sustentabilidade e impactos sociais em qualquer estágio (por exemplo, 50% da amostra nunca discutiu fatores ambientais). Segundo: as startups eram muito mais propensas a discutir impactos sociais em seus registros S-1 do que em seus pitches para investidores – sete vezes mais frequentemente no caso de empresas de software e 13 vezes mais em fintechs. Terceiro: à medida que as startups passaram das primeiras para as últimas rodadas de captação, elas se tornaram quase duas vezes mais propensas a discutir questões ambientais, sugerindo que suas perspectivas evoluiram para incluir temas ambientais mais amplos.

Por que investidores ainda não cobram sustentabilidade

Em entrevistas, os fundadores disseram acreditar que investidores se preocupam mais com receita e lucratividade, por isso enfatizam essas métricas em seus discursos. A ausência de questões ambientais e sociais nos pitches decorre da percepção de que esses fatores são secundários em relação a detalhes técnicos e financeiros.

Embora a comunidade de venture capital (VC) esteja interessada em sustentabilidade, nossos contatos com investidores indicaram que eles consideram relevantes esses fatores apenas quando o negócio aborda diretamente oportunidades nesse setor. Para startups de outros segmentos em estágio inicial, o peso é menor. Consequentemente, a maioria vê pouco valor em enfatizar credenciais de sustentabilidade desde o início, a menos que o modelo de negócio nasça delas.

Na Europa, porém, fundos de VC e investidores de private equity  estão ampliando o rigor de suas análises pré-IPO em metas de sustentabilidade para antecipar riscos. E uma narrativa sólida sobre o tema pode ser decisiva à medida que uma startup amadurece: os negociadores de fusões e aquisições veem cada vez mais a due diligence de sustentabilidade como crítica para gerir o risco e proteger a avaliação e o desempenho, de acordo com um relatório de 2024 do Boston Consulting Group. Pesquisa de Alessandro Fenili e Carlo Raimondo (ESG and the Pricing of IPOs: Does Sustainability Matter, 2021)também encontrou uma ligação entre melhores comunicações ESG e preços e avaliação de IPO mais altos para uma amostra de aberturas de capital feitas nos Estados Unidos entre 2012 e 2019.

Por que startups iniciais devem priorizar sustentabilidade

Se as questões de sustentabilidade se tornam mais importantes para os stakeholders apenas em estágios posteriores do crescimento da empresa, por que deveria importar para startups em fase inicial? Nosso argumento: as startups que esperam até mais tarde em seu desenvolvimento para se concentrar na sustentabilidade perdem a oportunidade de infundir tais metas em seu DNA. 

Pesquisas em teoria organizacional mostram que as novas organizações incorporam desde o início  normas, rotinas, valores e estruturas que tendem a permanecer ao longo do tempo. Incluir metas de sustentabilidade desde cedo ajuda a integrá-las organicamente no modelo de negócio, estabelecendo valores centrais para cultura e processos. Também evita os efeitos de inércia organizacional e os custos de adaptação de infraestrutura em fases futuras de crescimento.

Alguns fundadores e investidores podem ver a sustentabilidade como uma questão lateral ou irrelevante para proposta de valor, estrutura de custos e fluxos de receita. No entanto, em um cenário global em evolução, sua incorporação pode aumentar o apelo da startup junto a investidores, sinalizando não apenas impactos positivos ambientais e sociais, mas também melhorando a proposta de valor, reduzindo riscos e ampliando acesso a talentos.

A incorporação de uma abordagem sustentável pode permitir que startups B2C diferenciem suas ofertas de maneira a atrair clientes ambientalmente ou socialmente conscientes, muitas vezes possibilitando maior fidelidade e até preços superiores. Um exemplo é a Allbirds: ao se comprometer com a neutralidade de carbono e adotar materiais sustentáveis, a empresa conseguiu se destacar no concorrido mercado de calçados, ultrapassando US$ 100 milhões em vendas.

Startups que esperam até mais tarde em seu desenvolvimento para se concentrar na sustentabilidade perdem a oportunidade de infundir tais metas em seu DNA

Da mesma forma, clientes corporativos estão cada vez mais atentos à sustentabilidade em suas cadeias de fornecimento e tendem a recompensar startups B2B que integram práticas sustentáveis em seus modelos de negócio. A Mighty Buildings, por exemplo, já despertava interesse dos desenvolvedores pela eficiência e economia de custos de seus materiais de construção impressos em 3D, mas foi seu compromisso com a neutralidade de carbono que atraiu clientes globais dispostos a reduzir a significativa pegada ambiental da indústria da construção.

Modelos de negócio orientados à sustentabilidade também costumam adotar estratégias que reduzem riscos operacionais e regulatórios, reforçando ainda mais a proposta de valor da empresa. Nesse sentido, esforços sustentáveis podem ser apresentados não apenas como despesas, mas como impulsores de eficiência e economia. É o caso dos centros de dados de IA que buscam soluções de energia limpa, com tendência a se tornarem mais baratas do que os combustíveis fósseis no longo prazo. Além disso, startups sustentáveis podem obter acesso a subsídios e benefícios fiscais voltados a incentivar essas iniciativas.

Por fim, ao incorporar sustentabilidade antecipadamente, as startups ficam mais bem posicionadas para atrair os melhores talentos. Uma pesquisa da Deloitte (2025) revelou que 70% dos millennials e da geração Z consideram as credenciais ambientais dos potenciais empregadores ao buscar emprego. Já um estudo do IBM Institute for Business Value (2022) mostrou que dois terços dos candidatos em todo o mundo estão mais dispostos a se candidatar e aceitar ofertas de emprego de empresas sustentáveis.

Como outros setores incorporam sustentabilidade

Embora seja incomum, algumas startups que não atuam diretamente no setor de sustentabilidade a incorporaram com sucesso em seus modelos de negócio. Com o boom da IA jogando luz cada vez mais no impacto ambiental dos data centers, empresas de tecnologia têm a oportunidade de mostrar como estão incorporando energia limpa às suas operações desde o início.

A Hugging Face, uma plataforma líder de operações de machine learning, comprometeu-se com energia limpa desde o início de seu ciclo de vida, em parceria com a Verne, operadora de data center que utiliza a mesma matriz energética. Já a empresa de construção modular FullStack Modular não apenas reduz desperdícios, como também projeta cada edifício com foco em melhor uso de energia – um diferencial que agrega valor para clientes em busca de eficiência energética de longo prazo, conformidade com padrões ecológicos ou maior valor de revenda.

Considerando que a captação de recursos é a principal preocupação das startups em estágio inicial, os fundos de venture capital (VCs) têm papel central em incentivar os empreendedores a levarem a sustentabilidade a sério, capturando benefícios de curto e longo prazo. Idealmente, essas considerações devem integrar os critérios de investimento e as perguntas feitas aos fundadores. Embora fundos na Europa e no Reino Unido já exijam cada vez mais relatórios ESG de startups, a prática ainda está em fase inicial globalmente.

Incorporar sustentabilidade ao modelo de negócio desde cedo pode ajudar startups a evitar ajustes futuros dispendiosos e riscos de reputação, além de permitir melhor posicionamento junto a investidores e clientes e apoiar a resiliência operacional de longo prazo. O caminho pode começar com a identificação de fatores ambientais relevantes, incorporando essas necessidades em suas escolhas operacionais e de produtos e comunicando-as em pitches. Embora as pressões em estágio inicial muitas vezes tratem os esforços de sustentabilidade como não prioritários, reformulá-los como uma fonte de diferenciação e valor de longo prazo, em vez de uma obrigação a ser cumprida, pode ajudar os fundadores a construírem empresas mais fortes desde o início.

Em última análise, startups que integram sustentabilidade em seus planos de negócio iniciais estarão mais bem posicionadas para crescer, formar parcerias e captar investimentos, além de reduzir a necessidade de reconfigurar negócios e marca posteriormente. Também estarão menos propensas à riscos reputacionais e outros entraves ao desenvolvimento, ao mesmo tempo em que desbloqueiam oportunidades associadas à sustentabilidade.

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Michael Wahlen e Swasti Gupta-Mukherjee
Michael Wahlen e Swasti Gupta-Mukherjee
Michael Wahlen é diretor associado do Boston Consulting Group, nos EUA. Swasti Gupta-Mukherjee é membro sênior e professor adjunto da University of Washington em St. Louis, EUA.

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