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Edição #39 do MIT SMR Brasil
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Entender melhor os três tipos de políticas que os Estados Unidos estão impondo às empresas chinesas – tecnonacionalista, tecnolocalista e protecionista – pode ajudar as empresas ocidentais em geral a responder mais estrategicamente
As tensões geopolíticas entre o Ocidente e a China estão se aprofundando. Os governos dos Estados Unidos e da Europa estão endurecendo suas regras em relação às empresas do gigante asiático, refletindo políticas ocidentais em relação às empresas chinesas cada vez mais rigorosas. Muitos executivos ocidentais veem tais políticas como um afastamento econômico, mas essa visão é limitante.
Em vez disso, eles devem aprender a classificar as políticas em três grupos distintos: tecnonacionalista, tecnolocalista e protecionista. Assim, poderão entender melhor os riscos e as oportunidades que se apresentam.
O governo americano e alguns governos europeus colocaram as empresas chinesas na mira por três razões:
Essa perda das vantagens de produção e inovação gerou preocupações sobre a dependência econômica de entes estrangeiros, levando os governos a desejarem maior controle sobre as indústrias locais. Tais preocupações são maiores em áreas obviamente relacionadas à segurança nacional (como semicondutores e telecomunicações), bem como em inteligência artificial não militar, redes sociais, veículos elétricos e outros setores de tecnologia.
As políticas ocidentais podem parecer que caminham para o afastamento. Mas identificá-las em uma das três categorias oferece aos líderes uma perspectiva mais estratégica sobre como responder a elas.

As políticas tecnonacionalistas visam construir capacidade tecnológica doméstica, removendo totalmente as empresas chinesas das cadeias de fornecimento. Nesse sentido, as proibições de agências dos EUA à Huawei e à ZTE exemplificam esse tipo de restrição, justificada por preocupações de segurança nacional.
Ambas as empresas estão proibidas de fornecer tecnologias para a rede de telecomunicações dos EUA, assim como as organizações americanas estão impedidas de vender tecnologias de semicondutores para elas. Países europeus como Alemanha, Suécia e Dinamarca também impuseram suas próprias restrições à Huawei e à ZTE.
Apesar dessas barreiras, algumas empresas ocidentais têm procurado manter laços com seus parceiros tecnológicos chineses, tanto como fornecedores quanto como clientes. Por exemplo, a Qualcomm e a Intel pressionaram o Departamento de Comércio dos EUA para repensar suas restrições às vendas de semicondutores para a Huawei, argumentando que fornecer à empresa chips de baixo custo não aumentaria suas capacidades.
Elas conseguiram licença para vender para a Huawei, mas a pressão dos reguladores prevaleceu e as permissões foram revogadas em 2024. Essa perda da Huawei como compradora relevante agravou os problemas financeiros da Intel.
Igualmente, a DeepSeek, empresa chinesa de IA de código aberto, esteve sujeita a políticas tecnonacionalistas. Isso porque vários níveis do governo americano estão preocupados com a potencial adoção generalizada do aplicativo de IA generativa da empresa e sua capacidade de coletar dados confidenciais do usuário.
Como resultado, o aplicativo da DeepSeek foi proibido em dispositivos e redes governamentais em alguns estados americanos. Outras propostas podem restringir ainda mais o serviço no país.
As empresas ocidentais que enfrentam políticas tecnonacionalistas podem precisar eliminar gradualmente seu relacionamento com organizações chinesas. Prolongar o inevitável, deixando de buscar novos compradores ou parceiros, será desastroso.
Aquelas de setores críticos devem identificar clientes e fornecedores não chineses e reconfigurar suas alianças. Ademais, mesmo as tecnologias de código aberto supervisionadas por empresas chinesas precisam ser adotadas com cautela.
Em termos de estratégias não mercantis, as organizações devem fazer lobby por uma maior harmonização entre as nações na política em relação às empresas chinesas. Afinal, as corporações ocidentais de ambos os lados do Atlântico têm mais a perder se forem as únicas a reorganizar seus relacionamentos nas cadeias de fornecimento.
Medidas protecionistas oferecem vantagens de curto prazo. Mas não dá para depender delas

Diferentemente das políticas tecnonacionalistas, que almejam a exclusão completa das empresas chinesas, as tecnolocalistas buscam manter as tecnologias essenciais, sejam estrangeiras ou domésticas, dentro das próprias fronteiras. Essas políticas geralmente envolvem algum tipo de troca com empresas de fora: o acesso aos mercados ocidentais ou mesmo o apoio do governo é permitido em troca da localização da tecnologia.
Essas políticas se assemelham às exigências de transferência de tecnologia que a China impôs a estrangeiras que quisessem estabelecer lá [uma prática de muitos países, incluindo o Brasil].
Um exemplo extremo de uma política tecnolocalista é a exigência de Washington de que o TikTok seja vendido para uma empresa dos EUA. Esse cenário apresenta uma oportunidade potencial para corporações americanas: várias manifestaram interesse em adquirir a plataforma.
Uma diferença visível entre os casos TikTok e DeepSeek é que a empresa de IA não tem sua tecnologia proprietária protegida. Além disso, ela não tem uma participação suficiente no mercado dos EUA para garantir que esteja sujeita a políticas americanas tecnolocalistas.
Um exemplo menos conflituoso de uma política tecnolocalista é a exigência da União Europeia de que as empresas chinesas de baterias de veículos elétricos estabeleçam fábricas locais e compartilhem conhecimentos. Em troca, elas terão acesso ao equivalente a US$ 1,17 bilhão em subsídios de desenvolvimento.
Por um lado, as empresas ocidentais podem usar políticas tecnolocalistas a seu favor. Tais regras facilitam o acesso a novas tecnologias e/ou permitem que as empresas negociem condições favoráveis para a transferência de tecnologia.
Por outro, é preciso cautela. Como mostra uma pesquisa que fizemos anteriormente, se as políticas estatais de transferência de tecnologia negarem aos proprietários estrangeiros as condições de lucrar com suas maiores inovações, elas tendem a não funcionar. Podem sair pela culatra ao desencorajarem essas transferências para empresas do mercado local, à medida que o país anfitrião adquire uma imagem ruim.
Além disso, em outra pesquisa, descobrimos que as empresas ocidentais que enfrentaram políticas forçadas de transferência na China muitas vezes compartilharam apenas tecnologia não crítica. Isso, juntamente com outras estratégias de propriedade intelectual, permitiu que elas mantivessem sua liderança por décadas.
As empresas chinesas que se expandem para a Europa e os EUA podem usar estratégias semelhantes a fim de proteger suas vantagens tecnológicas de políticas tecnolocalistas. É um risco possível.
Em suma, as empresas ocidentais podem se beneficiar dessas políticas em seus países de origem. Mas não devem confiar nelas como uma solução a longo prazo para desvantagens competitivas mais enraizadas.
Políticas tecnolocalistas não ajudam quando há desvantagens competitivas mais enraizadas
O objetivo de políticas protecionistas clássicas não é, explicitamente, a transferência de tecnologia ou a expulsão de empresas chinesas. Trata-se de limitar as importações para proteger as indústrias domésticas.
Exemplos recentes de políticas protecionistas incluem a imposição pelos EUA de uma tarifa de importação de 100% sobre veículos elétricos fabricados na China em 2024. Além disso, outras taxações foram aplicadas a células de energia solar, semicondutores, aço, alumínio e outros componentes.
Em 2025, o segundo governo Trump instituiu tarifas substanciais sobre as importações da China, bem como México, Canadá, Europa, Brasil, Índia e outros lugares. Da mesma forma, a União Europeia impôs tarifas de até 35% às empresas que importam veículos elétricos da China. Não apenas as organizações chinesas estão sujeitas a essas regras: os carros da Tesla, que é americana, enfrentam tarifas de importação significativas na União Europeia quando são produzidos na China.
A política comercial protecionista também pode criar vantagens para a indústria doméstica. Uma lei de 2022, por exemplo, oferece subsídios consideráveis exclusivamente para painéis solares, baterias e veículos elétricos fabricados nos EUA. Isso beneficiou as empresas americanas e tornou mais difícil para os produtores chineses manterem as vantagens de custo.
A Europa instituiu um conjunto semelhante de políticas como parte do “Buy European Act”. A ideia é fazer com que 40% das tecnologias limpas consumidas na União Europeia sejam produzidas lá até 2030.
Ao mesmo tempo, essas políticas não impedem que as empresas chinesas mantenham certas operações existentes nos EUA ou na Europa ou façam parcerias com empresas ocidentais. Por exemplo, a BYD, uma das principais fabricantes chinesas de veículos elétricos, ainda tem contratos lucrativos nos EUA para a venda de ônibus para agências de trânsito em alguns estados.
A empresa tem uma fábrica na Califórnia e declarou seu compromisso de investir nos EUA, comprar de fornecedores locais e contratar mão de obra americana. A Chery, outra fabricante chinesa líder de veículos elétricos, tem uma joint venture com a montadora espanhola Ebro-EV Motors para construir carros em Barcelona. Até o presidente Donald Trump sugeriu explicitamente que as montadoras chinesas podem evitar tarifas futuras construindo fábricas nos EUA, em vez de transferir a produção para o México como um acesso alternativo ao mercado americano.
Além disso, em alguns casos, as organizações da China podem até explorar os incentivos governamentais oferecidos por políticas protecionistas. Empresas chinesas de painéis solares investiram em instalações consideráveis nos EUA, e algumas delas podem se beneficiar de bilhões de dólares em subsídios fiscais. É o caso da fornecedora chinesa LONGi, que formou uma joint venture com a Invenergy, com sede em Chicago, para produzir painéis solares. Ela já se beneficiou de milhões de dólares em créditos fiscais.
A lição aqui é que as empresas ocidentais não podem deixar seu sucesso depender de políticas protecionistas. Em vez disso, elas devem aumentar os investimentos localmente e considerar com cuidado as parcerias com empresas chinesas.
Embora as medidas protecionistas possam oferecer vantagens de curto prazo a, por exemplo, empresas americanas, depender delas é perigoso. Algumas empresas chinesas se mostraram resistentes às políticas protecionistas, aumentando seus investimentos no exterior e se adaptando por meio de parcerias locais, gestão de imagem e inovação.
As corporações ocidentais devem responder aumentando seus próprios investimentos em P&D, produção e marketing. Também pode ser conveniente considerar alianças estratégicas locais com empresas chinesas experientes, que possuam tecnologia, know-how ou capacidades de produção adequadas.
INVESTIDORES E CONSUMIDORES SE BENEFICIARAM COM A OTIMIZAÇÃO das cadeias de valor globais, proporcionada pelas empresas multinacionais. No geral, os lucros cresceram e os preços caíram.
No entanto, como consequência, as próprias bases sobre as quais o sucesso dessas empresas se fez começaram a se desgastar. À medida que os governos ocidentais começam a promulgar políticas que redefinem as regras da concorrência global, as multinacionais devem repensar como gerenciam suas cadeias de valor.
Os líderes empresariais do Ocidente podem avaliar melhor os riscos e as oportunidades apresentados pelas políticas americanas dirigidas às empresas chinesas, entendendo melhor se elas são de caráter tecnonacionalista, tecnolocalista ou protecionista. Para responder de maneira mais estratégica, os executivos devem realinhar as cadeias de fornecimento, capitalizar incentivos políticos, aumentar os investimentos e/ou avaliar a possibilidade de firmar parcerias estratégicas com os chineses.
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