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Liderança ética

O problema não é o capitalismo, mas como o fazemos

Em tempos de IA e colapso de confiança, a nova fronteira do capitalismo é humana - e o desafio, mais do que reinventar o lucro, é reinventar o líder que o produz

Ulisses Zamboni
31 de outubro de 2025
16 min de leitura
O problema não é o capitalismo, mas como o fazemos
Resumo executivo:
  • O Capitalismo Consciente chega aos 16 anos com uma autocrítica: o problema nunca foi o sistema em si, mas a forma como o executamos.
  • Em Cincinnati, líderes do mundo todo discutiram menos o que mudar e mais como liderar com propósito, ética e empatia em tempos de IA e colapso de confiança.
  • A nova fronteira do capitalismo não é tecnológica, é humana – e o desafio não é reinventar o lucro, mas o líder que o produz.

Acho que vale fazer aqui uma introdução anedótica sobre o cotidiano vivido nos Estados Unidos, já que ele reflete bem o recorte atual do capitalismo americano.

Um apartamento de 50 metros quadrados em Manhattan, Nova York, não custa menos de US$ 4.700 por mês; a inflação de alimentos em determinados produtos já alcança dois dígitos; e a distância entre ricos e pobres na cidade cresce de forma inequívoca.

A eleição para as prefeituras nos Estados Unidos será em 4 de novembro – logo ali. E, mesmo para quem não gosta de política, é evidente que o que decide eleições não são intenções altruístas dos candidatos, mas a pujança e a performance da economia.

No caso da prefeitura de Nova York são quatro os candidatos: o atual prefeito Eric Adams, que tenta a reeleição como independente (sim, aqui candidatos podem ser independentes), mas enfrenta acusações de corrupção e contribuições ilegais à campanha deste ano; Andrew Cuomo, também independente, com histórico de alegações de abuso sexual; Curtis Sliwa (Partido Republicano), ativista e apresentador de rádio apoiado por Donald Trump, que já disputou a prefeitura em 2021; e Zohran Mamdani, um jovem de 33 anos, filho de imigrantes, deputado estadual e socialista democrático, que venceu as primárias democratas em junho de 2025. Sua plataforma propõe impostos para milionários, congelamento de aluguéis, reforma de moradias públicas, gestão estatal de supermercados e regulação mais rígida de proprietários de imóveis.

Pense bem (aliás, nem precisa pensar muito): em qual narrativa política você votaria? Como diria James Carville, estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton, “It’s the economy, stupid.”

Você não consegue pagar suas contas, não confia nos políticos do passado e guarda ressentimentos contra as elites bilionárias. Então surge um “novato”, antissistema, que expõe as feridas sociais, desejando até ser odiado pelo menosprezo que sente sobre o que está acontecendo e…bingo! 

Mesmo estando no espectro político oposto de Mamdani, foi exatamente assim que Donald Trump venceu sua primeira eleição presidencial: furando a bolha política daquele momento, dizendo compreender os problemas das pessoas e falando diretamente com elas. Isso tem nome: populismo.

Mamdani, apesar de ser de uma esquerda mais radical, usa o mesmo caminho de estratégia de discurso do Trump: a economia. Ele deve ganhar as eleições para prefeitura. 

A consequência imediata é clara: o princípio da livre iniciativa está em jogo na maior cidade dos Estados Unidos. A narrativa abertamente contrária ao sistema, encampada por Mamdani, expõe uma realidade dura — e não é que as pessoas sejam simpáticas ao socialismo, apenas já não acreditam no capitalismo atual.

Precisamos de um capitalismo melhor, mais centrado nas pessoas e menos no capital. Um capitalismo, eu diria, mais consciente.

Rediscutir capitalismo no primeiro quarto do século 21 

Nova York ou Chicago? Não, Cincinnati, Ohio. Foi lá que Timothy Henry, novo CEO do Conscious Capitalism (CC), decidiu realizar a reunião mundial do movimento, um evento dedicado a repensar o futuro das empresas conscientes no mundo.

Participei do The Future of the Conscious Enterprise – em tradução livre, “O Futuro das Empresas Conscientes” – como membro há mais de dez anos e cofundador do novo CCBrasil – Capitalismo Consciente Brasil. Meu objetivo era duplo: contribuir ativamente com a discussão e compreender os caminhos possíveis para o futuro do movimento nos Estados Unidos, no Brasil e no mundo.

Tão controverso quanto o local do evento foi o seu conteúdo. O denominador comum entre os participantes podia ser resumido em uma única pergunta: como manter os negócios minimamente equilibrados em meio ao caos que vivemos?

Polarização generalizada, caos geopolítico, conflitos civis e terrorismo pelo globo, inflação real e escondida em alimentos e serviços, guerra de tarifas de importação e exportação, diplomacia em jogo, IA substituindo humanos, tecnologia atropelando a conversa. 

O acrônimo BANI (brittle, anxious, nonlinear, incomprehensible) é uma realidade na gestão empresarial. Ele sintetiza o que há de mais desafiador para qualquer executivo – em especial, a não linearidade, elemento que rompe a lógica tradicional de causa e efeito. Em qualquer escola de negócios, o mantra ainda é o mesmo: empresas precisam de previsibilidade.

O fato é que este quarto de século expõe um cenário repleto de vulnerabilidades para os negócios e evidencia um capitalismo cada vez mais tensionado e questionável.

Presentes no evento estavam mais de 30 capítulos do movimento nos Estados Unidos e em outros países, além de 16 CEOs de empresas americanas. Participaram também keynote speakers reconhecidos por suas publicações sobre o tema e jovens universitários da geração Z, em busca de um propósito capaz de unir desempenho nos negócios e consciência – um dos grandes desafios para a próxima geração de líderes empresariais. 

Logo na abertura do segundo dia de evento (o primeiro foi dedicado apenas às questões mais complexas do movimento, como seu modelo de negócio e modus operandis), Timothy Henry compartilhou com a audiência a premissa que mais me encanta sobre o movimento: 

“A livre iniciativa tirou mais pessoas da pobreza do que qualquer outro sistema socioeconômico já concebido. Os negócios como conhecemos são heróicos porque tiram pessoas da pobreza e criam prosperidade”

O problema atual é que o mesmo capitalismo está devolvendo boa parte do público para a pobreza. Se não completamente, pelo menos parcialmente. 

Aqui, vale um aviso: se você, logo de cara, não concorda com a premissa de que o capitalismo tirou o mundo da pobreza, simplesmente não vai concordar com nada que estou dizendo até agora (ou com o que vem a seguir). 

A verdade é que me deparo cotidianamente com céticos do capitalismo que, em sua maioria, sustentam uma visão equivocada – a de que ele é um jogo de soma zero, em que alguém só enriquece à custa da perda de outro. Trata-se de um equívoco profundo sobre a natureza do sistema e sobre o potencial criativo da livre iniciativa.

Salvo raras exceções – mais evoluídas e menos suscetíveis a serem levadas por narrativas fáceis -, as gerações Z e Alpha (nascidos entre 1997 e 2013) tendem a ignorar as conquistas do capitalismo, talvez porque já tenham vindo ao mundo “com a vida ganha”. Esses grupos ainda não reconhecem a relevância do sistema e, pior, têm usado as plataformas digitais como instrumentos de contestação a ele.

É claro que há muito a ser aprimorado e ajustado no capitalismo. A realidade de Nova York, mencionada na introdução deste artigo, é um exemplo eloquente disso. Mas é justamente nesse ponto que o movimento do Capitalismo Consciente encontra sua razão de ser – vale lembrar, um movimento que nasceu há mais de 15 anos.

Quer outro exemplo sofrível do capitalismo selvagem? Um CEO, geralmente das multinacionais, ganhar até 600 vezes mais do que um de seus funcionários em nível médio. E, olha que não estou nem falando do trabalhador chão de fábrica.   

É por essas e outras discrepâncias que o capitalismo vem criando ceticismo e perdendo relevância nas novas gerações – e até mesmo entre os baby boomers (geração nascida entre 1946 e 1964). 

Novos atributos, novas atitudes, novos tempos 

Workshops e palestras marcaram o evento, centradas na missão do Capitalismo Consciente (CC) de elevar o capitalismo por meio da promoção de uma liderança mais consciente e de boas práticas empresariais. Um desafio especialmente relevante em tempos de tecnologia na velocidade da luz — fator que pode descarrilar o desenvolvimento de qualquer organização se não for conduzido com consciência. 

Ficou bastante claro que os pilares que constituem a filosofia de um capitalismo consciente permanecem inabaláveis e se tornam cada vez mais relevantes. 

O propósito segue como eixo central do movimento, ao lado de uma liderança capaz de equilibrar resultados e humanidade – conduzindo os negócios com foco genuíno nas pessoas, e não em práticas exploratórias.

O cuidado com os stakeholders como forma de proteger e dar sustentabilidade à cadeia de valor e a construção de uma cultura empresarial baseada em princípios contemporâneos, capazes de resistir aos percalços do mundo moderno, continuam sendo as bases inalteradas do movimento. 

No entanto, mais de 16 anos após sua criação, o CC enfrenta uma transformação sociológica (e até antropológica) sem precedentes.

Temas antes varridos para debaixo do colchão do berço corporativo emergem com força e já que são evidentes os danos psíquicos à sociedade (stress elevado, doenças cardiovasculares e burnout) gerados pelo pesado cotidiano das empresas.

Entre os executivos presentes, prevaleceu um consenso: resiliência, agilidade e inovação são subprodutos diretos da consciência empresarial — expressões de valores intangíveis como confiança, engajamento e segurança psicológica.

Entre os executivos presentes, prevaleceu a percepção de que a resiliência, a agilidade e a inovação nas empresas são subprodutos diretos da consciência organizacional – qualidades sustentadas por valores intangíveis como confiança, engajamento genuíno e segurança psicológica.

Se nada “cai por terra”, qual o problema? 

O foco da reunião não esteve no “o que” fazer, mas no “como” fazer. Os pilares do CC acima descritos continuam inabaláveis, aliás, o contexto atual do capitalismo traz a sensação de que estão corretíssimos. O problema está no “como” fazer. 

“Tem uma série de coisas que tem que ser reparadas, atualmente. O que o Capitalismo precisa são de mais pessoas adotando o sistema só que executando do jeito certo”, enfatiza Timothy na palestra de abertura. 

A proposta é cristalina: elevar a prática do capitalismo através – repito em outras palavras: por meio – de uma liderança consciente que, como consequência, gera negócios conscientes. trata-se de concentrar esforços em líderes empresariais cuja cartilha fundamental é o bem-estar coletivo e não apenas o individual. 

A tendência humana é replicar boas práticas, e os gestores de empresas são exemplos bem mais próximos da população, merecendo atenção especial por sua capacidade de serem modelos replicáveis na sociedade. Eles superam em importância até mesmo as celebridades, políticos e influenciadores digitais.

O capitalismo consciente é um filosofia de negócios e está acima do capitalismo puro. Se fizermos uma engenharia reversa para observar o sucesso dos negócios que realmente florescem, iríamos deparar nos encontrar com líderes que exercem sua gestão da maneira mais humanizada possível. 

A inteligência artificial e o capitalismo consciente

Entre os participantes do evento, estava Gopi Kallayil, estrategista-chefe de inteligência artificial do Google. Sua posição já seria, por si só, suficiente para justificar atenção, mas o que realmente chama a atenção é seu perfil multifacetado. Gopi se define como triatleta, palestrante e viajante global. Já discursou em eventos como TEDx, The World Happiness Summit e Wisdom 2.0. Músico e escritor, lançou três álbuns e é autor de dois livros – sendo The Happy Human (O Humano Feliz), o mais recente.

Formado em Stanford, Gopi não poderia estar mais alinhado com a proposta do foco na pessoa dentro das organizações. Em sua opinião, “estamos no melhor momento para negócios que querem ser conscientes, já que a inteligência artificial está aí para multiplicar a produtividade para o indivíduo de forma mágica”.

Gopi destacou a atualidade do propósito empresarial do Google (“organizar e disponibilizar democraticamente toda a informação do mundo”) e o quanto a inteligência artificial ampliou essa missão em escala exponencial. Em seguida, provocou a audiência com uma pergunta que pairou sobre o auditório: “Qual é a maior oportunidade de negócios conscientes que cada um ali presente (e empresários do mundo todo) tem diante da IA?”?”

Indo na direção oposta do senso comum que enfatiza que IA é uma ferramenta de substituição de mão de obra para aumento margens, Gopi deixa clara a ambição e a responsabilidade do Google com seu desenvolvimento: “IA é a ferramenta que amplifica – e não substitui – as mãos dos colaboradores para que resolvam problemas complexos, atingindo resultados que eles sozinhos jamais conseguiriam”.

Apela para aquela velha máxima, mas absolutamente verdadeira, de equiparação da invenção da prensa mecânica, da eletricidade e das máquinas para fazer valer de que estamos num momento potencial de mudança do curso da civilização, especialmente sobre as questões de implicações éticas. 

Por fim, deixa claro que o desenvolvimento da IA é um momento chave para humanidade e, por isso, faz-se necessário o comprometimento dos negócios na tarefa de evoluir com o uso da tecnologia para um bem maior, com responsabilidade ética e consciência.   

A lição aprendida

Verdade seja dita: todo o Congresso foi centrado no “como” fazer um mundo melhor – e não no “o que”. Talvez esse seja o ponto mais revelador de todos. O “o que” já está dado: ninguém ali duvidava da urgência de um capitalismo mais justo, sustentável e humano.

O impasse está no caminho – no método, na coragem e, sobretudo, na coerência de colocar propósito acima de ego, valor acima de preço, humanidade acima de métricas. Costumo dizer, a quem propõe a criação de uma certificação para empresas conscientes, que consciência não se certifica: ela habita a mente humana. Uns a praticam, outros apenas a mencionam.

Falar sobre o “como” é aceitar que a transformação não virá por decreto, mas por cultura. Que não se trata mais de reformar o sistema, e sim de reeducar quem o opera. O “como” é o novo campo de batalha do capitalismo contemporâneo — onde líderes conscientes deixam de ser idealistas para se tornarem pragmáticos, e onde a consciência deixa de ser discurso para se tornar desempenho.

Em tempos em que a Inteligência Artificial promete reinventar o mundo, a tarefa mais complexa ainda é reinventar a nós mesmos. Porque, no fim, o que separa o capitalismo que adoece do capitalismo que evolui é a forma. E a forma — como se viu em Cincinnati — importa mais do que nunca.

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Ulisses Zamboni
Com mais de 40 anos de experiência na área de comunicação, é presidente e sócio da agência Santa Clara, membro do board e do comitê de etica e integridade do Capitalismo Consciente e membro do conselho editorial da MIT Sloan Review Brasil. Também clinica como psicanalista.

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