Status de leitura
Faça login para usar este recurso
©2026 MIT Sloan Management Review Brasil. Todos os direitos reservados. A reprodução, total ou parcial, é proibida sem a autorização prévia e expressa do CNEX.
Entre a vaidade e a obrigação, esse posicionamento pode tanto ajudar quanto ter efeitos colaterais indesejados na carreira
Em algum momento, toda liderança chega a uma encruzilhada que não aparece nas avaliações de desempenho. De um lado, a pressão para construir presença digital: publicar, posicionar-se, ocupar espaço nas plataformas onde sua reputação se forma ou vai se apagando aos poucos. Do outro, a percepção, raramente dita em voz alta mas presente na fofoca de corredor, de que o executivo que aparece demais está olhando para fora quando deveria estar olhando para dentro.
Aparecer tem custo. Não aparecer também.
Se você constrói uma voz reconhecida fora da empresa, arrisca ser lido pelos pares como alguém que só joga para a plateia. A visibilidade desperta um desconforto organizacional específico: parte inveja, parte ceticismo, parte a suspeita (às vezes justa, às vezes só conveniente) de que quem está no palco não está na trincheira. O líder que vira referência de mercado antes de ser referência interna vive um dilema para o qual a cultura corporativa contemporânea ainda não está preparada.
O silêncio digital tem seu preço: profissionais ausentes descobrem que o algoritmo tem memória curta e o mercado, mais curta ainda. Essa ausência não é neutralidade. Você entrega o campo para quem tem menos a dizer, mas mais disciplina de aparecer.
O uso de IA generativa chegou para embaralhar ainda mais as coisas, habilitando qualquer pessoa, com qualquer nível de experiência e muitas vezes sem uma opinião elaborada, a produzir conteúdo que soa “quase” exatamente como o de quem passou décadas acumulando algo a dizer. O volume explode e o sinal desaparece no ruído. A pergunta que antes era “como me posicionar?” virou “como navegar nessa enxurrada de conteúdo sintético, distinguindo pensamento de ‘AI slop’?” [A expressão “AI slop”, em bom português, refere-se a conteúdo de baixa qualidade gerado por inteligência artificial.]
Usar tecnologia para escalar um pensamento que existe é eficiência, mas usá-la para fabricar a aparência de um pensamento que não existe é encenação. E o mercado está ficando um pouco melhor em distinguir os dois.
A expertise que nenhuma marca consegue possuir
Um estudo publicado no Journal of Knowledge and Process Management por Näti e Ulkuniemi (2022) concluiu que clientes de grandes consultorias raramente compram a empresa. Eles compram o profissional que passou anos metido naquele mesmo sistema, que sabe onde ficam os atalhos e as armadilhas. Quando esse profissional sai, o cliente liga para o celular dele, não para a firma.
Aplique isso ao “”thought leadership”. A audiência não segue o cargo, segue a pessoa, o histórico, a perspectiva que só poderia existir depois de um percurso específico. Quando um executivo terceiriza essa voz para uma assessoria ou alguns segundos de prompt, mais do que delegar a escrita, ele está desfazendo o único motivo pelo qual alguém pararia para ler.
O mesmo estudo revela que profissionais com forte capital relacional tendem a resistir a compartilhar conhecimento internamente, com receio de que isso dilua seu próprio diferencial. O líder mais reconhecido lá fora pode ser o mais isolado aqui dentro.
Aparecer também é virar um alvo
A maior parte dos profissionais com presença digital se depara com algum grau de hostilidade velada de quem não quer, não consegue, não gosta e não valoriza essa história de se projetar.
Raramente isso acontece através de um confronto. Geralmente vem pelas bordas, disfarçado de preocupação. “Você não acha que está se expondo demais?” “Aquele post foi polêmico.” “As pessoas estão comentando que você parece mais focado no pessoal do que no institucional.” A crítica ao desequilíbrio entre dentro e fora da firma é, muitas vezes, a embalagem socialmente aceitável para a inveja do espaço que o outro ocupa.
Graham, Harvey e Rajgopal mostraram em seu estudo com 1.348 executivos, publicado no Journal of Financial Economics (2022), que a competição entre pares é um dos principais obstáculos à cultura organizacional saudável. Empresas onde o sistema de remuneração incentiva performance individual tendem a ter menos integridade declarada, menos disposição para reportar problemas e mais distância entre o que se diz e o que se pratica. Ambientes assim produzem pessoas que sabotam o visível para proteger o confortável.
Dito isso: nem toda crítica à presença excessiva é má-fé. Uma liderança que passa mais tempo construindo audiência do que construindo time tem um problema real de prioridade. A pergunta-chave é “o que estou deixando de fazer enquanto apareço?” É aqui que a crítica pode estar certa.
É fundamental diferenciar a exposição que fortalece o trabalho da exposição que alimenta o ego. A primeira gera negócios, conexões, perspectivas que retroalimentam a prática. A segunda é a sedutora armadilha da vaidade.
Os mesmos autores entrevistaram 19 sócios de grandes firmas globais e identificaram o que chamam de “visibility-legitimacy model”: líderes que dominam a visibilidade legítima tornam-se os pontos de referência que outros seguem.
Por outro lado, visibilidade, além de um certo ponto, passa a ser lida pelos pares como sinal de tempo sobrando. No imaginário corporativo, influencer ainda carrega o cheiro de quem não se dedica ao que importa. A visibilidade que deveria demonstrar competência passa a questionar comprometimento. E aí a inveja, essa palavra que não aparece em nenhum texto corporativo, mas que todo profissional conhece intimamente, termina o serviço.
O gap entre o que é dito e o que é vivido
O executivo escreve sobre ousadia estratégica e faz microgerenciamento de todas as tarefas. Fala sobre escuta ativa, desde que seja a escuta do que ele tem a dizer. Todo ser humano é inconsistente; essa não é a questão. O problema está em projetar uma identidade que você não habita. Isso é diferente de compartilhar sobre os temas que de fato te ocupam, incluindo as contradições, as dúvidas, as posições que você mudou. Essa segunda versão é rara.
Quantidade de posts não resolve. Posts melhores ajudam um pouco. A única saída factível é conteúdo que ninguém mais poderia ter escrito, porque vem de uma experiência que ninguém mais teve.
O risco da câmara de eco
Há um estágio posterior à inconsistência, mais insidioso: quando a liderança começa a acreditar na própria narrativa na plataforma. O algoritmo favorece engajamento, e isso significa distribuir conteúdo para quem já está inclinado a gostar dele. Todo mundo da firma acaba curtindo, afinal, melhor prevenir. A bolha de validação se forma sozinha. O líder posta sobre transformação digital. Os comentários chegam de pessoas que adoram transformação digital. Ele posta mais. A audiência cresce. A sensação de que está tocando em algo importante também.
O que raramente se vê são os que discordam e ficam quietos, os que rolam o feed sem parar, os que abrem o post, ficam com preguiça e fecham em três segundos. A liderança calibra seu pensamento pelo aplauso da plateia, sem o atrito da realidade. O que começa como ponto de vista vira entretenimento corporativo, tecnicamente inofensivo, praticamente inútil, embalado por um ghostwriter (já fiz muitos).
Manita, Elommal e Dalmas, em artigo publicado nesta MIT SMR, argumentam que visibilidade legítima exige comportamento consistente ao longo do tempo. A câmara de eco produz o oposto: consistência artificial, calibrada pelo feedback plataformizado. Conquista-se a visibilidade de quem já se conhece e torna-se mais irrelevante para quem está fora da bolha.
Em produto, isso tem nome: local maximum. Otimiza-se tão bem para o ambiente atual que se perde a capacidade de perceber que o ambiente mudou.
A fábrica de especialistas instantâneos
John Winsor, fundador do Open Assembly e fellow na Harvard Business School, publicou este mês na Harvard Business Review: “A barreira de entrada para o teatro da expertise caiu a zero. Quando todos podem performar autoridade, a própria autoridade perde sentido.”
A IA generativa não inventou o problema, mas montou uma linha de produção em cima dele. Ghostwriters e assessorias existiam antes do ChatGPT. O que mudou é que o processo ficou barato, rápido e quase indistinguível do original para a maioria dos leitores. Circulam prompts com instruções detalhadas para disfarçar texto gerado: remova os travessões dramáticos, quebre as tríades, adicione conflito onde está suave demais. O mercado de Thought Leadership está sendo sistematicamente maquiado.
Alberto Romero descreveu em sua newsletter The Algorithmic Bridge o surgimento do termo AI;DR, “AI; didn’t read.” Se o texto cheira a automatizado, o leitor fecha a aba. Só que Romero identifica o problema por baixo do protesto: a maioria das pessoas não consegue distinguir texto humano de texto de máquina com nenhuma consistência. O AI;DR é mais um gesto simbólico contra a ausência de intenção. Quem produz conteúdo vazio não sente nada, apenas segue publicando.
Quem não tem experiência vivida fica frágil apoiado em prompts. Romero chama isso de altitude lock: o especialista genérico que fala sobre macrotendências com fluência, mas trava quando você pergunta detalhes específicos. Outro sintoma dessa especialidade-superficial são as pivotagens instantâneas de carreira: de estrategista em AI para especialista em futuro do trabalho, de metais raros a deeptech em universidades. Expertise fabricada tem apenas aparência, e a aparência ficou fácil de produzir.
Cicatrizes como credencial
Winsor propõe um conceito que merece entrar no vocabulário de quem leva esse tema a sério: “thought doership”. A distinção entre isso e “thought leadership” é entre prática e substância.
Um thought leader descreve como a IA vai transformar sua força de trabalho. Um thought doer construiu um piloto com a equipe em dez dias, viu quebrar na terceira semana porque ninguém havia mapeado a dependência com o sistema legado de RH, e reporta de volta com os números que ninguém queria ver. A diferença está na vivência. Você pode escrever sobre fracasso, mas não dá para fabricar a especificidade de ter vivido um.
Thought doership não exige que todo líder seja operador de linha de frente. Há profissionais cujo valor real é sintetizar, conectar, comunicar sem ter construído na trincheira.
O critério não é “você construiu?” É “você pensou?” Pensar deixa rastro. Aparece em como você responde quando alguém discorda. Na capacidade de transitar entre o nível macro e o detalhe específico sem perder o fio. E na disposição de dizer “mudei de posição sobre isso”.
Expertise embutida em experiência prática tem uma textura diferente. É detectável e inimitável, porque depende de coisas que aconteceram com uma pessoa específica, num lugar específico, com consequências reais para ela.
IA não consegue replicar as cicatrizes da experiência vivida.
O que fica quando o barulho cessa
A armadilha não tem saída evidente. Aparecer tem custo e não aparecer também. A câmara de eco aguarda quem foge da fricção. A IA nivelou a produção de conteúdo num patamar onde quantidade deixou de ser vantagem.
Antes de publicar qualquer coisa com seu nome, valem três perguntas. Essa perspectiva vem de algum lugar onde só eu poderia ter estado? Essa posição tem alguém que discordaria com razão, e eu estaria disposto a publicar essa resposta? Esse texto existiria igual se tivesse sido escrito por outra pessoa no mesmo cargo, com o mesmo tempo de empresa, no mesmo setor?
Se as respostas forem não, o texto não deveria existir com o seu nome. Ou deveria existir sem ele.
Se todo feed parece igual, especificidade é escassez. Quando a autoridade pode ser mimetizada por qualquer pessoa com acesso a um modelo de linguagem, a única que ainda vale alguma coisa é a que tem uma história vivida por trás.
Nätti, S. & Ulkuniemi, P. (2022)"Embeddedness of individual expertise in professional business service relationships"Knowledge and Process Management, 29(1) — https://doi.org/10.1002/kpm.1702
Graham, J. R., Grennan, J., Harvey, C. R. & Rajgopal, S. (2022)"Corporate culture: Evidence from the field"Journal of Financial Economics, 146(2), 552–593 — https://doi.org/10.1016/j.jfineco.2022.07.008
Manita, R., Elommal, N. & Dalmas, M. (9 mar. 2026)"Why visibility has become the new test of leadership"MIT Sloan Management Review — sloanreview.mit.edu
Winsor, J. (9 mar. 2026)"Has AI ended thought leadership?" Harvard Business Review
Romero, A. (26 mar. 2026)"It's AI, so I didn't read"The Algorithmic Bridge [newsletter] — thealgorithmicbridge.substack.com
Você leu o post? Então faça login e tenha acesso ao recurso de “Marcar como lido”.