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“Calma” costuma ser a mais fraca entre oito capacidades dos líderes de carreira longa, mas ela pode ser fortalecida, como mostra este artigo
À medida que as empresas buscam maior produtividade, uma verdade incômoda vem à tona: muitos funcionários não conseguem mais acompanhar o ritmo. Líderes descrevem o mesmo padrão em todos os lugares – muitas reuniões, pouco tempo para pensar, interrupções digitais constantes e um ritmo que não deixa espaço para recuperação. Por trás desses sintomas, reside uma tensão que observo repetidamente no meu trabalho: o conflito entre “produtividade” e “cuidado”. Produtividade sem cuidado leva à exaustão; cuidado sem produtividade leva à fragilidade. Essa tensão não é algo que resolvemos de uma vez por todas; é algo com que lidamos continuamente.
Durante a última década, minha pesquisa e ensino têm se concentrado em como as pessoas constroem vidas profissionais sustentáveis em uma era de longevidade. Com base em programas de educação executiva, entrevistas intergeracionais e pesquisa de campo, desenvolvi um framework de oito eixos que captura as capacidades nas quais as pessoas se apoiam no decorrer de longas carreiras: quatro eixos relacionam-se com capacidades, motivações e habilidades específicas para a construção da produtividade; e os outros quatro relacionam-se ao que fazemos para cuidar de nós mesmos e daqueles ao nosso redor, sendo cruciais para criar e manter a harmonia em nossas vidas profissionais.
Recentemente, tenho usado uma escala de avaliação em workshops com executivos para avaliar a força atual de seus oito eixos. O padrão é consistente. Os participantes descrevem seus pilares de produtividade como os mais fortes – particularmente “o de domínio”, ou seja, as competências que desenvolveram ao longo de suas carreiras. Os participantes avaliam positivamente sua capacidade de identificar seus pontos fortes principais, encontrar regularmente oportunidades para aprofundar sua expertise e encontrar um trabalho que os energize. Em contraste, o pilar mais fraco é o da “calma” – a capacidade e a motivação para criar espaço para reflexão, centrar-se e proteger as atividades que restauram sua energia.
Quando os executivos discutem esses resultados, muitos expressam o mesmo dilema: “Eu sei que preciso de calma, mas meu trabalho não me permite”.
No entanto, em todos os workshops, uma pequena minoria de participantes – geralmente cerca de 10% – considera a calma seu ponto forte. Eles não são menos ocupados, menos motivados e menos responsáveis do que seus colegas. Eu os chamo de “minoria calma”. Este artigo explora quem são essas pessoas e o que nós, os demais, podemos aprender com elas.
Ao entrevistar membros dessa minoria tranquila, o que os diferenciava não era a carga de trabalho, mas a maneira como lidavam com ela. Eles enfrentam as mesmas pressões que todos os outros – o ritmo, a complexidade, as demandas conflitantes – e, ainda assim, conseguem manter uma serenidade que outros consideram inatingível.
Observando atentamente, percebi que a calma deles tende a surgir por meio de três caminhos. Esses caminhos refletem a questão de identidade mais profunda – “Quem sou eu?” – que permeia minha pesquisa. A calma é moldada pela identidade. Ela emerge dos contextos de onde viemos, dos temperamentos que carregamos e das experiências que nos formam. Na minoria calma, esses elementos podem derivar de uma entre três fontes: “herança”, “personalidade” e “experiência”.
Caminho 1: Calma herdada da cultura – moldada pelo contexto e pelas normas iniciais
Alguns membros da minoria calma cresceram em um ambiente onde a calma fazia parte do cotidiano. Sejam práticas culturais, familiares ou espirituais, eles absorveram um ritmo mais lento, rituais de descanso e a crença de que pausas são produtivas. A calma não era algo que buscavam na vida adulta; era algo que herdaram. Ela veio não tanto por meio de instrução, mas sim pelos micropadrões da vida diária.
A calma é uma forma de organizar a atenção, a energia e as emoções em ambientes que constantemente ameaçam desestabilizá-las.
Os executivos descreveram famílias onde a estabilidade era modelada quase inconscientemente. Eles tinham um avô ou avó que lidava com as dificuldades com reflexão ponderada em vez de reatividade, ou um lar onde os conflitos eram administrados com moderação. Outros atribuíram sua calma a normas culturais mais amplas que valorizam a serenidade ou o apoio coletivo. Um executivo japonês falou de tradições que elevam a intencionalidade e a moderação; um executivo latino-americano observou como os fortes laços familiares criaram a sensação de que as crises seriam enfrentadas juntos, e não sozinhos.
Ao longo da longa vida profissional das pessoas, essa calma inicial se transforma em uma forma de capital psicológico. Ela se acumula com o tempo, permitindo que elas lidem com transições e volatilidade com mais facilidade.
Para aqueles que têm dificuldade em encontrar a calma, a lição não é imitar outra cultura ou família, mas sim olhar para a sua própria. A maioria das pessoas consegue identificar pelo menos uma pessoa ou experiência inicial marcante que serviu de modelo para a estabilidade. Quando se reconectam com essas pessoas ou momentos – um professor que ouvia sem pressa, um ritual familiar que proporcionava tranquilidade, uma prática comunitária que oferecia segurança – muitas vezes redescobrem um recurso esquecido que carregam há anos e que podem usar de forma mais ativa hoje.
Caminho 2: Calma a partir da personalidade – o temperamento como âncora interna
Alguns membros dessa minoria calma pareciam incorporar a calma em seu temperamento. Eles tendiam a ser mais introvertidos, menos neuróticos, mais orientados à autonomia e naturalmente atraídos por trabalhos profundos e focados. Para eles, a calma não era uma meta a ser alcançada, mas uma forma natural de se mover pelo mundo.
No entanto, muitos descreveram como era difícil manter esse temperamento em escritórios de planta aberta, com interrupções constantes e mensagens rápidas – fatores que corroem as condições que permitem que sua calma natural floresça. Assim, com o tempo, aprenderam a redesenhar seus ambientes ou rotinas para melhor se adequarem a quem eram. Reservaram períodos ininterruptos em suas agendas, protegeram as manhãs para um trabalho de alta qualidade e reduziram sua exposição a ruídos e distrações.
O que torna este caminho particularmente útil para outros é que alguns aspectos dele são replicáveis. Mesmo pessoas que não compartilham esses temperamentos podem adotar os princípios subjacentes: proteger o “tempo profundo”, reduzir os estímulos sensoriais e cognitivos, estabelecer limites mais claros e priorizar a profundidade em detrimento do ruído. Elas podem aprender, como este grupo aprendeu, que a calma muitas vezes surge não da desaceleração de tudo, mas da eliminação da ativação desnecessária – uma mudança acessível a muito mais pessoas do que o temperamento poderia sugerir.
Caminho 3: Calma por meio da experiência – aprendida por meio da exposição e da ressignificação
O caminho mais eficaz para a calma é aquele moldado pela experiência. Muitos dos que pertencem à minoria calma não começaram suas carreiras como indivíduos calmos. Eles se tornaram calmos por meio da exposição, da prática e de uma reformulação gradual de como reagiam à pressão.
Esses membros da minoria calma falaram de mentores que exemplificavam comportamentos ponderados, gestores que valorizavam a qualidade em detrimento da velocidade e organizações que protegiam os limites em vez de os flexibilizar. Alguns atribuíram isso a práticas deliberadas, como treinamento de atenção, práticas reflexivas ou rituais de quietude, que gradualmente reconfiguraram suas reações. Outros apontaram para momentos cruciais – um projeto fracassado, uma reestruturação, um problema de saúde ou um conflito mal administrado – que forçaram uma mudança da reatividade para a resolução de problemas fundamentada.
A calma surge de diferentes fontes: de onde viemos, quem somos intuitivamente e como fomos moldados ao longo do tempo.
O que este caminho demonstra é que a calma pode ser “treinada”. A herança cultural pode oferecer uma base inicial, e o temperamento pode ajudar, mas a experiência mostra que a calma pode ser fortalecida em qualquer fase. Quando os executivos refletem sobre as pessoas ou os momentos que os moldaram, muitas vezes percebem como aprenderam a fazer pausas ou a reformular a pressão. O que o Caminho 3 revela é que a calma não é a ausência de velocidade, mas sim a capacidade de escolher quando a velocidade é necessária e quando é contraproducente.
Se a Via 1 dá permissão e a Via 2 dá predisposição, a Via 3 dá método. Juntas, essas vias revelam que a calma emerge de diferentes fontes: de onde viemos, quem somos intuitivamente e como fomos moldados ao longo do tempo.
A calma é em parte herdada e em parte inata, mas a minoria calma demonstra que essa característica pode ser construída, fortalecida e praticada deliberadamente. A capacidade de aprender é, de longe, o fator mais importante. Em longas e complexas vidas profissionais, a habilidade de saber fazer uma pausa torna-se uma vantagem estratégica. Ela molda não apenas nosso desempenho sob pressão, mas também por quanto tempo conseguimos manter um trabalho significativo sem nos esgotarmos ou perdermos a clareza.
O primeiro passo para refletir sobre a calma em nossas próprias vidas é reconhecer qual dos três caminhos mais se assemelha à nossa experiência. Algumas pessoas podem encontrar ecos de estabilidade precoce em sua educação; outras podem reconhecer um temperamento que prospera na profundidade em vez do ruído; e muitas perceberão que sua calma foi forjada pela experiência, em momentos que exigiram reformulação, desaceleração ou a escolha de uma resposta mais sábia. Compreender seu ponto de partida é importante porque revela onde residem seus pontos fortes e quais práticas emprestadas dos outros caminhos podem ajudá-lo a crescer.
A partir daí, o trabalho para cultivar mais calma torna-se pessoal. A calma é uma forma de organizar a atenção, a energia e as emoções em ambientes que constantemente ameaçam desestabilizá-las. A minoria que pratica a calma desenvolve essas capacidades por meio de pequenos atos repetidos.
Ao adotarmos uma prática herdada, um limite determinado pelo temperamento ou uma reformulação baseada na experiência, podemos começar, com uma ou duas mudanças deliberadas, a fortalecer uma capacidade que nos sustentará muito além de qualquer ferramenta de produtividade ou esforço momentâneo.
Num mundo de exigências implacáveis, a calma não é um luxo. É uma forma de liderança. E para aqueles que estão dispostos a praticá-la, a calma torna-se uma fonte de resistência, clareza e influência constante. É uma capacidade que se torna ainda mais valiosa à medida que nos aprofundamos na vida profissional.
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