Pesquisa realizada em 116 países e 21 setores de atividades mostra os efeitos da nova fase da inteligência artificial sobre o capital e o trabalho
O gatilho mais rápido do Oeste
Sam Ransbotham e David Kiron são dois dos professores/pesquisadores da nossa revista-mãe mais próximos da operação brasileira. E, coincidentemente, são dois dos especialistas em inteligência artificial que mais vêm ajudando as empresas ocidentais a encaixarem a IA generativa em seu contexto. Na verdade, junto com Michael Schrage, outro que é nosso amigo, eles integram o pelotão de elite de estudos sobre os impactos da IA na gestão. Aqui no Brasil estamos na cola deles e por isso sabemos que, neste ano de 2026, essa tecnologia deve tracionar para valer. Assim, nada melhor do que começar o ano com uma edição especial sobre o tema baseada nas pesquisas mais avançadas deles – concorda?
Permitam-me dar uma ideia introdutória sobre a relação entre os negócios e os agentes de IA, sistemas que decidem pelas pessoas. As organizações os estão abraçando muito rapidamente – muito mais rapidamente do que a gente percebe. A adoção da IA tradicional (como o machine learning, a visão computacional e o processamento de linguagem natural) demorou oito anos para chegar em uma adoção de 72%, segundo nossa pesquisa. (Era 46% em 2017 e passou de 70% só em 2025.) A IA generativa, em apenas três anos, já era adotada por 70% das empresas. E a IA agêntica fechou 2025, com meros dois anos de existência – sendo utilizada por 35% das empresas e com 44% planejando utilizá-la em breve.
A teoria da difusão das inovações nos explica o fenômeno da versão caçula das IAs: quando tecnologias novas oferecem uma vantagem relativa clara (com resultados observáveis) e são compatíveis com sistemas já utilizados pelas pessoas (o que as torna fáceis de experimentar), elas se difundem como rastilho de pólvora. E a IA agêntica atende a essas condições praticamente “by the book”: como já usamos aplicativos de IA generativa (ChatGPT, Perplexity, Gemini e afins), a IA agêntica se mostra familiar e fácil de testar; e como seus resultados de produtividade, comparados aos de outras tecnologias, são claros e observáveis, a equação fecha. Isso faz dessa tecnologia o atual “gatilho mais rápido do Oeste“ – no caso, o Ocidente – e transforma sua adoção pelas empresas em um imperativo.
(Em vez de apontar a urgência, eu preferia dizer que ela é desejada pelos gestores, porque me lembro de Jorge Forbes dizendo que, na gestão da pós-modernidade, o sucesso vem menos de endereçar necessidades e mais de atender a desejos.)
Em resumo, esta edição contém a pesquisa de Ransbotham, Kiron e colegas do BCG sobre o que eles se atrevem a chamar, com liberdade poética, de “empresa agêntica”. A pesquisa, extensa, foi dividida em três partes, para facilitar a compreensão. A essência da descoberta é a seguinte:
As organizações sempre separaram ferramentas e pessoas. Agora enfrentam o desafio de gerir combinando abordagens de ferramentas e pessoas, porque a IA agêntica precisa ser gerida como uma ferramenta e como um pessoa. A separação entre as áreas de tecnologia e estratégia que existe na maioria das empresas só faz aumentar o desafio. E a IA agêntica influencia o design de processos, a estrutura dos papéis, a alocação dos direitos de decisão e a accountability, tudo ao mesmo tempo agora.
Traduzindo em bom português, a IA agêntica é um baita desafio de gestão e liderança. Nesta edição, abordamos esse desafio em cinco artigos, três baseados no amplo estudos liderado pelo Sam e pelo David, um com os fundamentos dessa tecnologia escrito pela colega Laurianne McLaughlin, e um brasileiro trazendo uma abordagem antropológica para a IA, num artigo-cabeça, só que (por incrível que pareça) “hands-on”, que discorda sobre o que é/será a nova era da IA. Seu autor aponta em outra direção: a da sabedoria artificial.
Não entendeu nada sobre o quinto artigo? Explico: o autor é Chico Araújo, com formação em antropologia e larga experiência em tecnologia. E ele argumenta que, se a IA já está tomando decisões por nós (e ele prova que isso já acontece, mesmo com IAs não agênticas), precisamos tornar a IA sábia (donde… sabedoria artificial), acrescentando-lhe qualidade de julgamento e um bom movimento evolutivo. É uma discussão importantíssima que ocorre em várias partes do mundo e o Brasil, ainda bem, está atualizado. O “hands-on” é porque ele esboça os caminhos para construir essa sabedoria artificial.
Não posso deixar de comentar sobre nosso conteúdo de marca oferecido pela consultoria Fractal, que não deixa a IA esconder o lado humano da gestão, cada vez mais relevante. (Fazemos questão de reforçar isso.) A Fractal criou uma espécie de guia para a área de recursos humanos e transformar em um “RH de negócios”, trocando uma gestão operacional por uma estratégica. Assunto mais premente, impossível.
Boa leitura!
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