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Manual de sobrevivência

2026, o ano em que a realidade bate à porta

Estima-se que a capacidade média de atenção humana esteja menor do que a de um peixinho dourado. O problema é que você vai precisar de mais atenção neste ano, porque será um ano mais de fricção do de que expansão. Entenda as cinco frentes dessa fricção e aprenda a acionar o manual de sobrevivência  

Paulo Emediato
23 min de leitura
2026, o ano em que a realidade bate à porta

Já estamos no fim de janeiro. Deu para por o pé nas águas de 2026 e experimentar a temperatura, certo? Que tal?

Se eu fosse escrever sobre o fim da leitura num formato que exige leitura profunda seria, como bem colocou Derek Thompson da The Atlantic, “comicamente fútil — algo como escrever ária após ária sobre como ninguém escuta ópera.” Mas se você chegou até aqui, provavelmente pertence ao cada vez mais seleto grupo de pessoas que ainda conseguem manter atenção em algo por mais de 8,25 segundos. Isso é bom, porque vou escrever sobre quanto você vai precisar dessa capacidade de atenção.

2026 promete ser o ano em que várias narrativas confortáveis colidem simultaneamente com inconveniências conhecidas como “fatores físicos”. Sabe aquela história de que podíamos crescer infinitamente num planeta finito? Pois é. 

Começamos com Amy Webb, da Future Today Institute: “Tecnologia não é mais um setor. É o substrato da economia global, a infraestrutura invisível que molda cada indústria, cada mercado, cada decisão.” O problema é que esse substrato descobriu que precisa de algo bem mais mundano do que algoritmos: eletricidade, chips, água para resfriamento e — pasmem — humanos capazes de entender sistemas complexos.

Ao longo dos últimos meses, cruzei análises de fontes tão diversas quanto a Agência Internacional de Energia (IEA), JP Morgan, Scott Galloway, Tom Standage (da The Economist), estudos sobre declínio cognitivo de Derek Thompson e as previsões de Amy Webb. A conclusão é unânime: 2026 será um ano mais de fricção do de que expansão. 

Mas calma. Antes de você fechar esta aba e voltar para a distração em sua rede social de preferência, a boa notícia é que a realidade não é pessimismo. É informação que serve como base para estratégias inteligentes. 


I. A grande correção da IA: quando US$ 7 trilhões encontram o mundo real

O problema da tomada elétrica

Scott Galloway nunca foi conhecido por amenizar as coisas: “A questão não é se a bolha de IA vai estourar, mas qual será o catalisador.” Ele aposta na China. Mas vamos por partes.

Amy Webb traz os números que fazem qualquer CFO suar frio: big tech investiu mais de US$ 400 bilhões em data centers e infraestrutura de IA somente em 2025. No ritmo atual, quase US$ 7 trilhões serão gastos até o fim da década. E a década termina em apenas quatro anos.

O problema? As receitas anuais diretamente atribuíveis à IA não chegarão perto de recuperar esse investimento. Webb coloca a questão: “As novas ferramentas de IA estão mudando significativamente como o trabalho é feito? Estão desbloqueando novos produtos, novos mercados e crescimento real? Se o resultado primário for economia de custos marginais e eficiência incremental, isso deveria nos preocupar. A promessa da IA sempre foi expansão, não só otimização.”

A maior alucinação de IA ainda é a suposição de que nos próximos anos construiremos algo próximo da capacidade necessária de rede elétrica e energia

Scott Galloway

Galloway é ainda mais direto: “A maior alucinação de IA ainda é a suposição de que nos próximos anos construiremos algo próximo da capacidade necessária de rede elétrica e energia.” Ele calcula que a OpenAI precisa de 20% da capacidade elétrica atual dos EUA — equivalente a 250 usinas nucleares — a um custo de US$ 10 trilhões. E há uma espera de cinco a oito anos para conectar um novo data center à rede.

A IEA confirma com dados: o consumo global de eletricidade por data centers deve mais que dobrar até 2030, chegando a cerca de 945 terawatt-horas — aproximadamente o consumo total do Japão hoje. Nos Estados Unidos, os data centers devem responder por quase metade do crescimento da demanda de eletricidade entre agora e 2030.

Daí vem o paradoxo: quanto mais prometemos descolar da realidade física através da IA, mais desesperadamente dependemos dela. Gás natural e carvão juntos devem atender mais de 40% da demanda adicional de eletricidade dos data centers até 2030. Estamos literalmente queimando mais combustíveis fósseis para alimentar nossa revolução “verde” digital.

O contrato de US$ 300 bilhões que pode não fazer sentido

Em setembro de 2025, a OpenAI anunciou um acordo com a Oracle para comprar até $300 bilhões em poder computacional ao longo de cinco anos, começando em 2027. É oficialmente um dos maiores contratos de computação em nuvem da história.

Galloway não compra a história: “OpenAI está prometendo à Oracle US$ 300 bilhões — dinheiro que não tem — por infraestrutura que a Oracle não construiu. Não podemos ver o contrato real, mas isso é besteira.”

Ele tem razão em estar cético. A OpenAI atingiu uma taxa de receita anual de US$ 17 bilhões no final de 2025 e projeta receita de US$ 125 bilhões até 2029. Mas mesmo com esse crescimento agressivo, a empresa espera queimar US$ 115 bilhões em caixa nesse horizonte. De onde virá o dinheiro para pagar US$ 60 bilhões por ano para a Oracle?

E tem mais: os compromissos totais de gastos da OpenAI — incluindo acordos com Nvidia, CoreWeave, AMD e Broadcom — somam US$ 1,4 trilhão. Para contextualizar, isso excede a dívida nacional da Argentina.

A Oracle, por sua vez, viu suas ações dispararem inicialmente, fazendo seu fundador Larry Ellison brevemente se tornar o homem mais rico do mundo. Mas desde então as ações têm lutado, especialmente após a empresa aumentar substancialmente suas previsões de despesas de capital para US$ 50 bilhões, além de registrar uma perda de fluxo de caixa livre de US$ 10 bilhões no segundo trimestre — muito pior que os US$ 6 bilhões esperados.

Analistas da DA Davidson resumem: “Eles estão numa situação difícil, em que precisam construir capacidade para esse cliente e pegar muito dinheiro emprestado para fazer isso quando há uma incerteza muito alta se esse cliente conseguirá pagar por essa capacidade.”

A Nvidia e a promessa de meio trilhão

A Nvidia, por outro lado, está surfando na onda com mais solidez. A empresa anunciou que tem “visibilidade de meio trilhão de dólares” em receita de Blackwell e Rubin do início de 2025 até o final de 2026. A CFO Colette Kress confirmou que espera cerca de US$ 350 bilhões em receita de Blackwell e Rubin nos 14 meses entre novembro de 2025 e dezembro de 2026.

Galloway levanta a sobrancelha: “Com base em sua avaliação, a Nvidia está dizendo ao mercado que adicionará US$ 800 bilhões em receita nos próximos cinco anos — equivalente à receita combinada de Apple, IBM, Meta e Tesla.”

É factível? Talvez. A Nvidia já tem um backlog significativo de pedidos de chips de data center a serem cumpridos em 2026, totalizando cerca de US$ 275 bilhões. Mas a questão que Webb levanta permanece: essa receita refletirá adoção real e produtiva de IA, ou apenas corrida especulativa por capacidade?


II. China: o jogo que o Vale do Silício não viu vindo

Dumping de IA: o aço dos anos 2000

Aqui é onde a análise de Webb e Galloway se encontram. Enquanto os EUA correm atrás de AGI (sigla em inglês para inteligência artificial geral), a China está jogando xadrez num tabuleiro completamente diferente.

Webb: “A China está tomando uma abordagem muito diferente para IA. Ao invés de correr em direção à inteligência artificial geral, está focada na rápida e coordenada adoção de modelos existentes em cada faceta da sociedade chinesa.”

O plano chinês de cinco anos, a ser formalizado em março de 2026, estabelece três fases:

  • 2027: Incorporar IA em seis domínios-chave
  • 2030: Alcançar adoção tão ubíqua quanto eletricidade ou internet
  • 2035: Evoluir para “sociedade inteligente”, com IA remodelando cultura e interação humana

A execução já começou. E é mais agressiva do que qualquer previsão imaginava.

A China está jogando xadrez [de IA] num tabuleiro completamente diferente. E 80% das startups americanas financiadas pela a16z (entre as que usam open source) rodam em tecnologia chinesa de IA

Martin Casado, sócio da Andreessen Horowitz (a16z), revelou que 80% das startups americanas financiadas por sua empresa que usam modelos open-source estão rodando em tecnologia chinesa de IA. Deixe isso afundar. Oitenta por cento.

DeepSeek, Qwen, Kimi K2 — esses nomes ainda são desconhecidos do público geral, mas estão cobrando apenas centavos onde modelos americanos cobram dólares. Para startups queimando caixa, a escolha entre modelos chineses e americanos é existencial.

Galloway chama isso pelo nome correto: “dumping de IA”. É o playbook do aço dos anos 2000, só que desta vez com algoritmos. O modelo DeepSeek V3 foi desenvolvido em apenas dois meses com um orçamento inferior a US$ 6 milhões — em contraste gritante com os bilhões gastos por OpenAI, Meta e Anthropic.

A estratégia é cirúrgica

A JP Morgan confirma o contexto: o PIB chinês deve crescer 4,3% em 2026, desacelerando em relação a 2025, com o banco identificando “dependência crescente do setor externo” como característica do padrão de crescimento atual. A China registrou um superávit comercial recorde de US$ 1 trilhão em apenas 11 meses de 2025.

Isso é sintoma de uma economia que precisa inundar o mundo com seus produtos só para manter as fábricas funcionando e evitar crise de emprego. A China está exportando sua crise interna via dumping tecnológico.

Webb resume: “Enquanto os EUA empurram inovação em ritmo frenético, faltam os incentivos e coordenação para reconectar sistemas educacionais, processos de negócios e instituições públicas no mesmo ritmo. A China está explicitamente construindo esse tecido conectivo. Ao longo da próxima década, o risco não é que a América falhe em inovar — mas que falhe em traduzir inovação em um volante de produtividade sustentado.”

Galloway vai além: se ele estivesse aconselhando Xi, recomendaria “ir para a jugular” com dumping de IA. E segundo ele, já está funcionando: “Inundar o mercado com modelos de IA competitivos e menos caros colocará pressão nas margens e poder de precificação da Mag 7, derrubando um S&P assustadoramente concentrado e provavelmente enviando os EUA, possivelmente o globo, para recessão.”

Tom Standage, da The Economist, chama isso de “deriva geopolítica”. A velha ordem global baseada em regras está se dissolvendo, mas o que nasce no lugar não é uma nova guerra fria clara entre blocos. É o que ele chama de “transacionalismo radical” — Trump muda tarifas sobre a China 17 vezes em um ano, não por estratégia, mas por instinto e negociação caso a caso./

A velha ordem global baseada em regras vai ficar à deriva e decair ainda mais. Mas ‘coalizões de dispostos’ vão fechar novos acordos em áreas como defesa, comércio e clima

Tom Standage, The Economist

O resultado é a fragmentação do comércio global em “ilhas comerciais”. Quem estiver na ilha errada — sem acesso a chips baratos, terras raras ou mercados consumidores — sufocará lentamente.


III. A erosão cognitiva: quando metade da população não consegue mais ler um livro

Enquanto a infraestrutura física e financeira range, há uma crise ainda mais profunda — uma crise de capacidade cognitiva.

Derek Thompson, do The Atlantic, documenta o fenômeno: ele nasceu em 1986. Quando tinha 10 anos, era natural chegar em casa e ler por horas — O Senhor dos Anéis, a série Fundação de Asimov. “Isso não parecia uma coisa particularmente especial ou notável da minha parte,” ele escreve.

Mas nos últimos 25 anos, algo mudou dramaticamente. Durante os anos 1990, a proporção de adolescentes que liam diariamente superava em número aqueles que liam “quase nunca”. Hoje, aproximadamente metade dos adolescentes dizem que quase nunca leem por diversão. O adolescente que lê diariamente está a caminho de se tornar uma espécie em extinção.

As pontuações nacionais de leitura caíram para uma baixa de três décadas para estudantes americanos. A proporção de americanos que dizem que leem livros por lazer diminuiu quase 50% desde os anos 2000. “A maioria dos nossos estudantes é funcionalmente analfabeta,” escreveu um professor universitário sob pseudônimo. Rose Horowitch, da The Atlantic, relatou que estudantes universitários de elite estão chegando ao campus sem nunca terem lido um livro completo.

A capacidade média de atenção humana encolheu para apenas 8,25 segundos — menor que a de um peixinho dourado. Thompson identifica o culpado: “Nossa atenção está se movendo da palavra impressa para a imagem transmitida.”

Segundo pesquisa da JPMorgan citada por Thompson, a proporção de americanos que dizem obter suas notícias de fontes impressas diminuiu cerca de dois terços desde o início dos anos 2010. Televisão a cabo e sites também estão em declínio. “Redes sociais e de vídeo”, como TikTok e YouTube, estão devorando o consumo de notícias.

Thompson resume: “Tudo está se tornando televisão.” Mídias sociais estão se tornando menos sobre acompanhar amigos e mais sobre assistir vídeos curtos feitos por estranhos. Podcasts estão se tornando menos sobre ouvir rádio na internet e mais sobre assistir talk shows no YouTube.

A nova divisão de classes

O que isso tem a ver com economia? Tudo. Estudos nos EUA, Reino Unido e no mundo desenvolvido descobriram que adolescentes estão lendo por prazer com muito menos frequência do que gerações anteriores. Simultaneamente, o tempo diário de tela entre jovens aumentou significativamente, com alguns adolescentes passando mais de sete horas por dia em telas fora do trabalho escolar.

Estudos liderados pela Northwestern University e pelo National Assessment of Educational Progress destacam deterioração pronunciada em vocabulário, compreensão de leitura e raciocínio matemático.

Estamos criando uma força de trabalho incapaz de processar complexidade e nuance. Numa economia moldada pela automação e IA, isso cria uma bifurcação brutal:

A elite cognitiva — aqueles que ainda conseguem ler profundamente, entender sistemas complexos e operar tecnologias avançadas — se tornará mais valiosa do que nunca.

O precariado digital — a massa de trabalhadores cujas funções de processamento de informação (resumir reuniões, escrever e-mails, analisar planilhas simples) serão engolidas pela eficiência algorítmica.

“A maioria das empresas luta para entender o que fazer com IA em escala. Pilotos abundam, mas simplesmente não há um amplo catálogo de fluxos de trabalho duráveis ainda.”

Parte do gap entre US$ 7 trilhões investidos e retorno incerto é simples: ninguém sabe direito como usar IA para criar crescimento real, e a força de trabalho está cada vez menos capaz de descobrir.


IV. América Latina: o paradoxo da resiliência através do tédio

Enquanto o Norte Global lida com crises existenciais, a América Latina oferece algo surpreendente: a vantagem competitiva do tédio pragmático.

O relatório Next Big Thing LatAm identificou que a região parou de tentar copiar o Vale do Silício. O Brasil, com sua infraestrutura digital financeira (Pix, Open Finance) e matriz energética relativamente limpa, está posicionado de forma única.

A ironia é: enquanto Califórnia e Flórida lidam com seguradoras abandonando o mercado, enquanto a Europa enfrenta gargalos energéticos, e enquanto a China exporta desesperadamente sua superprodução, o Brasil tem o que o mundo realmente precisa em 2026 — commodities, energia e, talvez mais importante, neutralidade geopolítica.

Tom Standage captura isso quando fala da “deriva geopolítica”: o mundo está se fragmentando em “ilhas comerciais”. Num mundo fragmentado, ser o fornecedor confiável de alimentos e energia para múltiplos blocos não é má posição.

A volta dos IPOs na B3 é o reconhecimento de que capital precisa de ativos que gerem caixa real, não promessas de disrupção.


Manual de sobrevivência para 2026: 10 recomendações para navegar bem

1. Faça auditoria da realidade física

Sua estratégia depende de energia barata? De chips taiwaneses? Da atenção profunda do consumidor? Liste todas as suas dependências de infraestrutura física. Para cada uma, tenha um Plano B. Busque redundância geográfica. Assuma que cadeias de suprimento vão quebrar — porque vão.

2. Entenda a diferença entre inovação e adoção

O sinal para observar não é desempenho de benchmark, mas taxa de adoção formal. Suas ferramentas de IA estão mudando como o trabalho é feito? Estão desbloqueando novos produtos e crescimento real de receita? Se a resposta for “só estamos economizando custos”, você está na bolha. E bolhas estouram.

3. Aposte nos átomos, não apenas nos bits

Galloway oferece a melhor recomendação de investimento para 2026: Amazon. Por quê? Porque “o resto da Mag 7 capitaliza sobre a elevação de informação (bits) sobre objetos (átomos), enquanto a Amazon está alavancando bits para mover átomos mais rápido e mais barato.” A empresa ultrapassou 1 milhão de robôs em operações e reduziu o tempo do clique ao envio em 78%.

Invista em quem move coisas, cura corpos ou gera energia. A era do “software puro” que queima caixa acabou.

4. Prepare-se para o inassegurável

Se você tem ativos físicos — imóveis, infraestrutura, operações logísticas — entenda que o conceito de seguro está mudando. Propriedades em zonas de risco climático podem ver seu valor cair não por dano físico, mas por se tornarem inasseguráveis. Audite sua exposição a riscos climáticos agora. O mercado ainda não precificou isso completamente, mas vai.

5. Construa fortalezas regionais

O globalismo morreu. Não haverá tratados de livre comércio elegantes. Haverá blocos, tarifas e protecionismo disfarçado de segurança nacional. O jogo é criar posições fortes em mercados regionais e ter capacidade de operar em múltiplos blocos simultaneamente. Pense “glocal” — global na estratégia, local na execução.

6. Invista em imunidade cognitiva

Em um ano de deepfakes e polarização (Webb), a capacidade da sua liderança de discernir verdade de narrativa será seu maior ativo. Isso significa: equipes que ainda sabem ler documentos longos, que conseguem manter atenção em problemas complexos, que não foram completamente colonizadas pelo pensamento algorítmico. Procure por quem ainda lê livros. Sério.

7. Monitore a estratégia chinesa de perto

A China vai inundar o mercado com IA barata para evitar crise de emprego interno. Isso significa: (a) se você compete com produtos chineses, prepare-se para guerra de preços brutal, (b) se você pode usar modelos chineses baratos, considere seriamente (mas entenda os riscos geopolíticos), (c) se você investe em tech americana, entenda que as margens estão sob pressão.

8. Presuma que energia será o gargalo

A IEA é clara: não há energia suficiente para os planos de IA do Vale do Silício. Se sua estratégia depende de data centers baratos ou energia abundante, revise suas premissas. Explore energia renovável local. Considere operações em regiões com excesso de capacidade energética (como partes da América Latina). A energia será o petróleo do século 21 — e já está escassa.

9. Questione valuations insustentáveis

OpenAI prometendo US$ 300 bilhões que não tem. Nvidia projetando adicionar receita equivalente a Apple + IBM + Meta + Tesla. Compromissos de gastos da OpenAI de US$ 1,4 trilhão excedendo a dívida da Argentina. Webb alerta: “Uma correção acentuada do mercado em 2026 carregaria consequências reais, com reverberações muito além dos Estados Unidos.” Se você está exposto a essas empresas, tenha estratégia de saída.

10. Olhe para onde ninguém está olhando

América Latina. Infraestrutura chata mas lucrativa. Empresas que resolvem problemas reais (não imaginários). Setores “não sexy” como logística, agricultura, energia. Galloway resume: “A maior criação de valor para acionistas da IA será em empresas que alavancam a IA de outros.” Não seja o desenvolvedor de IA queimando bilhões. Seja quem usa IA para mover átomos melhor.


Conclusão: a gravidade voltou (e ela não negocia)

Amy Webb tem razão quando diz que tecnologia deixou de ser uma categoria à parte. Mas isso não significa que ela escapou das leis da física. Significa exatamente o oposto — que agora toda a economia está sujeita às mesmas restrições que sempre governaram o mundo físico.

2026 não será um colapso cinematográfico. Será mais cruel e interessante: uma correção lenta e inexorável onde narrativas encontram fricção.

Os espertos estarão garantindo acesso a energia, construindo redundância logística, cultivando talento cognitivamente capaz e, acima de tudo, mantendo os pés firmemente plantados na única coisa que nunca blefa: a física

Galloway prevê que a bolha de IA será estourada pela estratégia chinesa de dumping. Webb adverte que a questão crítica é se estamos vendo inovação real ou apenas capex inflado sem retorno. A IEA confirma que a energia não existe. Os dados sobre seguros mostram ativos se tornando não financiáveis. Os estudos sobre cognição revelam uma força de trabalho incapaz de complexidade. Thompson documenta o fim da leitura e, com ela, da capacidade de processar nuance.

Standage, da The Economist, resume a questão geopolítica: “A velha ordem global baseada em regras vai ficar à deriva e decair ainda mais. Mas ‘coalizões de dispostos’ vão fechar novos acordos em áreas como defesa, comércio e clima.” Não haverá nova guerra fria clara. Haverá fragmentação, transacionalismo radical e muita incerteza.

Os espertos estarão garantindo acesso a energia, construindo redundância logística, cultivando talento cognitivamente capaz e, acima de tudo, mantendo os pés firmemente plantados na única coisa que nunca blefa: a física.

A gravidade voltou. E ela não negocia.

Referências bibliográficas


Análises estratégicas:

  • Amy Webb, Future Today Institute. "2026 Macro Themes + 2025 Signals Review", Annual Letter, dezembro 2025
  • Scott Galloway (Prof G). "2026 Predictions", dezembro 2025
  • Tom Standage, The Economist. "The World Ahead 2026: Ten Trends to Watch", novembro 2025
  • Derek Thompson, The Atlantic. "The 26 Most Important Ideas For 2026", dezembro 2025

Dados econômicos e financeiros:

  • International Energy Agency (IEA). "Energy and AI" Special Report, 2025
  • JP Morgan Private Bank. "China's GDP forecast 2026", dezembro 2025
  • Oracle Corporation. "OpenAI Cloud Deal Announcement", setembro 2025
  • Nvidia Corporation. "Blackwell and Rubin Revenue Visibility", novembro 2025
  • DA Davidson. "Oracle Analysis Post-OpenAI Deal", dezembro 2025

Tecnologia e IA:

  • Martin Casado, Andreessen Horowitz. "Chinese Open-Source AI Models Adoption Data", 2025
  • Amazon. "DeepFleet AI Model and 1 Million Robots Milestone", julho 2025
  • China Briefing. "China's 15th Five-Year Plan Recommendations", outubro 2025

Seguros e clima:

  • Yale Law Journal. "The Uninsurable Future: Climate Threat to Property Insurance", 2025
  • Center for American Progress. "Managing Climate Change-Fueled Property Insurance Crisis", maio 2025
  • U.S. Senate Budget Committee. "Investigation on Property Insurance Non-Renewals", 2025

Cognição e educação:

  • 3CL Foundation. "Cognitive Decline and Screentime", maio 2025
  • National Assessment of Educational Progress (NAEP). "Reading Comprehension Trends", 2025
  • Northwestern University. "Vocabulary and Mathematical Reasoning Studies", 2025
  • OECD PISA. "Longitudinal Assessments on Reading Comprehension", 2025

Relatórios regionais:

  • Next Big Thing LatAm. "Latin America Tech and Innovation Report", 2025
  • The Economist, Good Judgment, Asia Society (via documento original)

Nota metodológica: Todas as citações foram verificadas contra múltiplas fontes. Números específicos (como os US$7 trilhões da Amy Webb, o acordo Oracle-OpenAI de US$ 300 bilhões, e os US$ 500 bilhões de visibilidade da Nvidia) foram confirmados através de buscas independentes e documentos públicos das empresas citadas.

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Paulo Emediato
Paulo Emediato é head de growth e comunicação no inovabra, ecossistema de inovação do Bradesco. Foi CMO da Oxygea Ventures, fundo de corporate venture capital da Braskem, e managing partner da DesignThinkers Group no Brasil, com projetos para mais de 100 clientes corporativos. Professor convidado na Miami Ad School e na PUC Minas, escreve sobre o ponto em que estratégia, narrativa e negócio se encontram.

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