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“Sem interoperabilidade, não há inovação financeira”

No palco Ecossistema Global no Rio Innovation Week, especialistas discutiram a integração entre sistemas, regulações e culturas como condição básica para a escalabilidade das soluções no setor financeiro

Liria Knutti
19 de setembro de 2025
8 min de leitura
“Sem interoperabilidade, não há inovação financeira”

Inovação não viaja sozinha. Ela precisa de conexões — entre setores, países, tecnologias, culturas e até linguagens — para deixar de ser uma ideia isolada e se tornar força transformadora. É nessa teia de interações que surgem as soluções capazes de atravessar fronteiras e remodelar realidades.

Nos dois dias de programação do Palco Ecossistema Global, na 5ª edição do Rio Innovation Week, ficou claro que a inovação, para acontecer de forma significativa, precisa se ancorar em redes sólidas e diversas. Mais do que acelerar processos ou criar novos produtos, o desafio está em articular sistemas inteiros: alinhar regulações, aproximar culturas, integrar tecnologias e, sobretudo, criar confiança entre os atores envolvidos.

Inovação como rede, não como ilha

No imaginário popular, a inovação costuma ser associada a um momento de “eureka”, um lampejo solitário. Mas, na prática, ela é um processo coletivo e relacional. Um sistema financeiro mais ágil, por exemplo, não depende apenas de avanços técnicos como APIs e blockchains; exige acordos internacionais, compatibilidade de sistemas, segurança jurídica e padrões comuns que permitam a interoperabilidade.

Essa palavra, que soa distante para o público em geral, significa basicamente a capacidade de diferentes sistemas conversarem entre si. Sem ela, um pagamento feito no Brasil não chegaria com fluidez a um destino na Ásia, nem uma empresa colombiana poderia adotar, com sucesso, práticas inspiradas no Pix brasileiro. A interoperabilidade é o antídoto contra a fragmentação e o desperdício de potencial.

Quando uma solução funciona e se abre ao diálogo, seu alcance se multiplica. O Brasil é exemplo disso com o Pix: além de se consolidar internamente, tornou-se referência para outros países, que adaptam a ideia às suas realidades. Não se trata apenas de exportar tecnologia, mas de exportar um modelo de integração entre regulação, infraestrutura e experiência do usuário.

Essa “tropicalização” de soluções — adaptar tecnologias globais às especificidades locais — é uma habilidade estratégica. Funciona também no sentido inverso: absorver ideias externas, ajustá-las às demandas internas e, assim, criar uma espécie de “dialeto” que mantém a conexão com o idioma global da inovação.

Outro ponto central é que conexões não são só técnicas: são, sobretudo, humanas. Em muitos mercados latino-americanos, a digitalização de serviços ainda enfrenta barreiras culturais, como o apego ao dinheiro vivo e a desconfiança em relação a instituições financeiras. Nesses casos, transparência e clareza sobre custos e processos são tão ou mais importantes que a sofisticação tecnológica.

A confiança é o verdadeiro catalisador da inovação. Sem ela, a adesão a novos serviços é lenta e frágil; com ela, a curva de adoção se acelera e a tecnologia passa a fazer parte da rotina. Isso explica por que empresas globais do setor financeiro investem tanto em padronizar a experiência do usuário e comunicar com absoluta clareza suas condições.

Padrões globais, sensibilidades locais

Padronizar, porém, não significa homogeneizar. Uma marca pode manter processos consistentes em 40 países e, ao mesmo tempo, respeitar as particularidades de cada mercado. É um equilíbrio delicado: global demais, corre-se o risco de parecer distante; local demais, perde-se a força da rede internacional. A chave está em reconhecer e valorizar as “jabuticabas” — aquelas características únicas de cada contexto — sem abrir mão da interoperabilidade.

Essa lógica também se aplica a inovações emergentes como moedas digitais, stablecoins e tokenização de ativos. Todas têm potencial de transformar as transações internacionais, mas só ganharão escala se houver compatibilidade técnica e convergência regulatória. De nada adianta criar a “moeda do futuro” se ela ficar presa em um ecossistema isolado, incapaz de dialogar com os demais.

Se há um fio condutor para todas essas ideias, é que colaboração não é ornamento: é infraestrutura. Sem ela, a inovação se parece com um idioma falado por uma única pessoa — pode até ser sofisticado, mas é inútil para a comunicação. Com ela, ideias ganham lastro, encontram parceiros estratégicos e se transformam em soluções adotadas por diferentes setores e países.

A colaboração atravessa barreiras setoriais e geográficas. No turismo, por exemplo, ela aparece na criação de rotas que valorizam culturas locais e, ao mesmo tempo, se inserem em estratégias globais de promoção de destino. Na tecnologia, se manifesta na troca de APIs, dados e protocolos entre empresas concorrentes em um mercado, mas parceiras na construção de um padrão comum.

Falar em ecossistema de inovação é falar de redes vivas, onde cada participante tem um papel e uma função. Um ecossistema é mais do que um conjunto de empresas ou instituições; é um ambiente onde as interações geram valor que nenhum ator isolado conseguiria produzir.

No contexto global, isso significa que países e regiões precisam se enxergar como peças de uma engrenagem maior. O Sul Global, por exemplo, tem potencial de se consolidar como um polo de soluções de impacto global em áreas como agro, saúde e envelhecimento populacional. Mas, para isso, precisa fortalecer laços internos e reduzir a dependência de modelos vindos exclusivamente do Norte.

Inovação com vocação para o coletivo

O que emerge das discussões ocorridas entre os convidados do palco Ecossistema Global é uma visão de inovação que não se contenta com a escala local nem com o brilho efêmero de uma tendência. É uma inovação que busca permanência e relevância, que nasce com a intenção de se conectar a outras, somar forças e se adaptar a diferentes contextos.

É também uma inovação que reconhece a importância do fator humano. Por trás de cada dado, há pessoas; por trás de cada índice de crescimento, há histórias de colaboração, aprendizado e superação de barreiras. Isso vale para startups que cruzam fronteiras, para sistemas financeiros que ganham escala continental e para iniciativas culturais que constroem pontes simbólicas entre países.

Pensar o futuro sob essa ótica significa aceitar que nenhuma solução relevante será construída sozinha. As grandes respostas — para crises climáticas, desigualdades sociais ou desafios econômicos — virão da interseção entre setores, países e culturas.

Estas discussões que ecoaram nos dias 12 e 13 de agosto não se encerram ali. Elas apontam para um caminho em que a inovação, para ser de fato transformadora, precisa ser radicalmente conectada. Uma inovação que entende que cada ponte construída entre realidades distintas é também uma via para novas possibilidades — e que o futuro, no fim das contas, será escrito a muitas mãos.

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Liria Knutti
Liria Knutti
Liria Knutti é empresária e participou do Rio Innovation Week 2025 como curadora do palco Ecossistema Global

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