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Liderança

Líderes maduros praticam mindfulness e gerenciam melhor a mudança

Gestores que trabalham a atenção plena e consciente têm maior controle emocional e são mais capazes de liderar suas equipes através da ambiguidade e dos desafios de uma mudança organizacional estratégica. Veja como a técnica de meditação pode ajudar

Jean-François Harvey e Ravi S. Kudesia
3 de novembro de 2025
11 min de leitura
Líderes maduros praticam mindfulness e gerenciam melhor a mudança

Seja uma virada ágil para aproveitar uma nova oportunidade ou uma guinada de posicionamento com foco no futuro do negócio, mudanças estratégicas são fundamentais para o desempenho de uma empresa. Mas esse é um processo difícil de ser feito com sucesso.

Tais mudanças muitas vezes causam agitação e ansiedade, o que leva à relutância à mudança. Mas há casos em que as equipes abraçam os novos objetivos ou as novas formas de trabalhar. Por que isso ocorre?

Realizamos um estudo em uma grande empresa americana do setor hipotecário que estava passando por uma transformação estratégica. Exploramos os comportamentos e características dos líderes de equipes que podiam explicar essas diferenças entre as reações dos funcionários.

Descobrimos que um comportamento de mindfulness do líder de equipe parece desempenhar um papel mediador crucial no processo de gestão de mudanças. Veja por que isso acontece.

Por que a mudança organizacional é tão desafiadora

Os líderes muitas vezes colocam uma forte ênfase na comunicação em torno da mudança. Mas é raro informar com precisão às pessoas o que está por vir.

Consequentemente, uma mudança estratégica, por sua natureza, desencadeará uma grande ambiguidade. Os gestores devem simultaneamente descobrir como dar conta de novos objetivos e congregar as equipes para se moverem em uma nova direção.

O último ponto – motivar os funcionários – é complicado pela tendência das pessoas de se retraírem quando a mudança está no ar. É um gesto autoprotetor, que indica que elas são menos propensas a comportamentos exploratórios, essenciais para aceitar e implementar novidades.

A ambiguidade nos estágios iniciais da mudança pode deixar os funcionários sem objetivos concretos ou metas para se orientar. Sem direção suficiente e vivenciando emoções difíceis de administrar, eles se concentram em proteger-se do desconforto com o desconhecido, lutando para preservar o status quo.

Existe uma explicação evolutiva para esse comportamento. A resposta à ambiguidade se origina no cérebro primitivo dos mamíferos, no sistema límbico, onde nossas emoções residem e onde a prioridade é a sobrevivência no curto prazo. Deve-se evitar desconfortos e ameaças.

Moldada pelas experiências de nossos antepassados, essa parte do cérebro humano tende à familiaridade, executando o que podemos descrever como um conjunto de algoritmos neurais que repelem a novidade e a experimentação. Assim, comportamentos conhecidos, que nos mantiveram seguros no passado, ganham força.

Para que os funcionários adotem a mudança, os gestores devem promover um ambiente que incentive a exploração. Por exemplo, um líder em nosso estudo deixou de lado, por um tempo, as metas rígidas e de longo prazo. Trocou-as por metas de curto prazo ajustáveis à medida que a situação evoluía. Isso permitiu que a equipe permanecesse focada durante a transformação organizacional, ainda que as ambiguidades de longo prazo permanecessem.

Outro gestor tentou várias formas de comunicação, como reuniões mais frequentes, atualizações por e-mail e check-ins individuais, para determinar os métodos mais eficazes para manter a equipe bem-informada e engajada. Já um outro alternou temporariamente as funções dentro do time. Isso ajudou as pessoas a entender os diferentes aspectos do trabalho umas das outras e a ver como a mudança afetava cada função. Além disso, promoveu empatia e colaboração.

Ao observarmos como os gestores podem ter um impacto profundo na execução bem-sucedida da mudança, vimos ainda que um fator diferenciador é o mindfulness – ou seja, a técnica que estimula a capacidade de se concentrar na experiência do momento atual, em vez do passado ou do futuro. Aqueles que tinham uma taxa maior de atenção plena, conforme avaliado por nosso questionário, estavam mais bem equipados para gerir a ambiguidade para si e para seus liderados.

A disciplina mental do mindfulness, aplicada no decorrer do trabalho, fez a grande diferença. Em contraste, gestores com baixos níveis eram mais propensos a adotar comportamentos rotineiros, mesmo quando essas rotinas não contribuíam para alterar as circunstâncias.

Sem uma orientação clara de cima, eles tiveram de batalhar para encontrar os caminhos mais convenientes em seu ambiente ou adaptar sua abordagem. Como resultado, foram menos eficazes em ajudar sua equipe a lidar com a ambiguidade. Muitas vezes, reforçaram a incerteza em vez de reduzi-la.

Experimentar em comportamento aprimora a capacidade de aprender e de se adaptar

O que é a atenção plena e consciente

O cerne da prática de mindfulness está em cultivar a capacidade de focar a atenção no momento presente. Nesse estado, podemos nos ancorar na situação e nos envolver plenamente com tudo que está acontecendo naquele momento, percebendo e absorvendo mais informações do que o habitual e as processando com mais flexibilidade.

A atenção plena muda as forças que guiam diferentes áreas do cérebro. O sistema límbico perde influência, abrindo caminho para que o córtex pré-frontal e as funções que ele comanda tenham domínio – como atenção, raciocínio e resolução de problemas. Isso promove uma aceitação de estratégias flexíveis em vez de rígidas.

Em meio aos objetivos ambíguos da mudança estratégica, observamos que aqueles gestores que exibem níveis mais altos de mindfulness podem enfrentar melhor o desafio do momento. Eles têm uma postura aberta e inquisitiva e maior disposição para assumir riscos.

Gestores com atenção plena podem navegar por objetivos ambíguos, mantendo sua concentração nos eventos presentes à medida que eles se desenrolam. Isso permite que eles reconheçam e rejeitem comportamentos automáticos, que replicam experiências passadas.

O medo do desconhecido não exerce força limitante para esses gestores, que são mais capazes de se adaptar às mudanças e, assim, adotar uma postura mais exploratória para novas situações. Por outro lado, gestores com notas piores de mindfulness exibirão mais medo e sua capacidade de experimentar será restringida por objetivos ambíguos.

Em essência, um líder com boas habilidades de mindfulness sabe como manter o foco no momento presente, administrar suas emoções de maneira mais eficaz e encontrar formas de se adaptar à mudança. Eles são capazes de detectar elementos que podem ser alterados e aprimorados durante a mudança estratégica, porque se sentem seguros o suficiente para fazê-lo. Há menos resistência e mais compromisso.

Implicações do mindfulness para as equipes

A adoção de uma postura mais exploratória da mudança pode influenciar positivamente aqueles funcionários que, em geral, procuram os gestores para identificar quais crenças, emoções e comportamentos são aceitáveis ou não. Dado que esses gestores são, em geral, o primeiro grupo avisado pela liderança da empresa sobre mudanças, eles estão bem-posicionados para atuar como um ponto de referência. Portanto, quando estão confortáveis com a ambiguidade e adotam a experimentação como procedimento operacional padrão, suas equipes tendem a segui-los.

Em termos práticos, a experimentação é vantajosa para equipes confrontadas com uma mudança estratégica. Ela produz pequenas vitórias, pois os times podem testar maneiras de operar que sejam congruentes com a mudança e adequadas em seus contextos específicos. Tudo isso em um ambiente psicologicamente seguro.

A experimentação cria ciclos de feedback rápidos que ajudam as equipes a observar restrições imprevistas, esclarecer expectativas e refinar abordagens em tempo real. Em vez de esperar pelo alinhamento perfeito ou pela certeza completa, os times têm o poder de seguir em frente, aprendendo por meio da ação, reduzindo a ambiguidade e mantendo o alinhamento com os objetivos estratégicos.

Essas pequenas vitórias facilitam a implementação da mudança porque esclarecem as pessoas sobre os benefícios potenciais, aumentando a confiança e diminuindo o desconforto. As equipes também aprimoram sua capacidade de aprender e de se adaptar ao grupo, o que as prepara para lidar melhor com mudanças futuras.

Equipando seus gestores com ferramentas de mindfulness

Com origem em práticas contemplativas asiáticas, o mindfulness ficou mais popular e acessível graças a milhares de livros, artigos e aplicativos que ensinam técnicas básicas de meditação. Não é incomum que as empresas ofereçam programas de treinamento do tipo: o Google, a varejista Target e a multinacional alimentícia General Mills estão entre elas.

Hoje, a maioria das organizações que aplicam workshops sobre técnicas de mindfulness o fazem porque a prática demonstrou ajudar contra o estresse. Inúmeras técnicas para usar a respiração ou o sistema visual para focar a atenção no presente podem ajudar as pessoas a sair de um estado de medo ou ansiedade.

Mas mindfulness não é apenas uma atividade passiva em torno da redução do estresse. Ela deve se tornar ativa e levar as pessoas a se envolverem com o ambiente e os outros ao redor. Com isso, há mais experimentação e abertura à mudança. Mas como proceder?

Primeiro, à medida que os gestores se envolvem em mindfulness, eles se tornam mais capazes de aliviar sua própria ansiedade, de interromper os padrões limitadores de atenção que os acompanham e de dedicar a atenção às coisas como elas são no ambiente externo. Isso pode permitir que eles vejam possibilidades ou problemas que outros ignoram.

Podem enxergar, por exemplo, quem na equipe está mais próximo dos clientes ou das operações e, a partir disso, fazer conexões que esclarecem a ambiguidade. Com habilidades aprimoradas de observação e escuta, eles se tornam mais sintonizados com os outros e, portanto, melhores em promover uma atmosfera de segurança psicológica. O mindfulness pode levar à percepção de coisas que, por sua vez, podem abrir novas possibilidades de ação.

Em segundo lugar, ele também se alinha com o poder das pequenas vitórias. Ao verem quando pequenas tentativas estão valendo a pena, os líderes na linha de frente da implementação da mudança podem conscientizar os membros da equipe sobre os caminhos através da ambiguidade e proporcionar a eles uma sensação de realização, o que os motivaria a continuar explorando e avançando.

EM TEMPOS DE MUDANÇA ESTRATÉGICA, abordar a ambiguidade e melhorar a clareza da mensagem da alta administração não é suficiente. É necessário garantir que os gestores possuam as habilidades psicológicas necessárias para enfrentar o desafio e entender o impacto que ela terá em suas equipes. Mindfulness é uma ferramenta potente para desenvolver tais habilidades.

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Jean-François Harvey e Ravi S. Kudesia
Jean-François Harvey e Ravi S. Kudesia
Jean-François Harvey é professor do departamento de empreendedorismo e inovação da HEC Montréal (Canadá). Ravi S. Kudesia é professor de administração na Fox School of Business da Temple University, na Filadélfia (Estados Unidos).

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