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Framework

Modelos de maturidade digital: se a estratégia competitiva não estiver no centro, eles não funcionam

Pesquisa realizada no Brasil ajuda a explicar por que aproximadamente 70% das iniciativas de transformação digital, com ou sem IA, não conseguem entregar os resultados esperados – uma estatística que permanece teimosamente consistente nos últimos cinco anos. Um novo framework ajuda a escapar desse destino

Eduardo Peixoto
3 de novembro de 2025
33 min de leitura
Modelos de maturidade digital: se a estratégia competitiva não estiver no centro, eles não funcionam

Nos últimos anos, as empresas têm vivido uma ilusão: a de que os modelos de maturidade digital (MMDs) populares no mercado são as ferramentas certas para guiar a transformação digital (TD). Executivos em busca de clareza recorrem a esses frameworks para medir o quão “avançada” sua organização está e para definir os próximos passos. Consultorias de gestão, da Deloitte à McKinsey, desenvolvem sofisticadas ferramentas de avaliação. Instituições acadêmicas publicam pesquisas validando diversas abordagens. E as organizações investem milhões implementando recomendações baseadas nesses modelos.

Há, porém, um problema fundamental escondido sob toda essa indústria de avaliação: a maioria desses modelos parte de uma premissa implícita e profundamente falha de que existe um destino único para a maturidade digital. Como se toda empresa, em qualquer setor ou estratégia, devesse almejar o “mesmo (e mais alto) nível” de digitalização.

A realidade é bem diferente. Duas empresas no mesmo setor podem adotar caminhos estratégicos diametralmente opostos. E, nesse caso, o que significa ser “digitalmente maduro” também precisa ser distinto.

MMD – Modelo de maturidade digital genérico

Considere o seguinte: uma companhia aérea focada em custos, que otimiza a eficiência operacional, requer capacidades digitais fundamentalmente diferentes de uma companhia premium que compete com base na experiência personalizada do cliente. No entanto, os MMDs tradicionais avaliariam ambas com base em critérios idênticos, muitas vezes levando a líder em custos a investir em tecnologias de personalização caras que, na verdade, enfraquecem sua posição competitiva, ou empurrando a companhia premium para uma padronização que corrói sua diferenciação.

Isso não é uma pequena objeção metodológica. É uma cegueira estratégica que ajuda a explicar por que aproximadamente 70% das iniciativas de transformação digital não conseguem entregar os resultados esperados — uma estatística que permaneceu teimosamente consistente em estudos do Boston Consulting Group, McKinsey & Company e Deloitte nos últimos cinco anos.

A pergunta de US$ 6,8 trilhões

Entre 2018 e 2023, organizações em todo o mundo investiram cerca de US$ 6,8 trilhões em iniciativas de transformação digital, segundo a IDC. Se 70% desses esforços não atingiram os objetivos, estamos falando de aproximadamente US$ 4,8 trilhões em recursos mal alocados — uma soma maior que o PIB da Alemanha.

A explicação típica para essas falhas foca em desafios de execução: gestão de mudanças inadequada, comprometimento insuficiente da liderança, resistência dos funcionários, comunicação deficiente. Esses fatores certamente contribuem. Mas uma análise abrangente de 76 modelos de maturidade digital revela um problema mais fundamental: as próprias ferramentas de avaliação estão guiando as empresas na direção errada.

Nenhum dos 76 modelos examinados incorpora mecanismos para identificar a estratégia competitiva de uma empresa. Nenhum adapta seus indicadores ou níveis de maturidade com base no posicionamento estratégico. Em vez disso, eles assumem implicitamente um modelo “tamanho único”, onde toda empresa deve alcançar o mesmo destino digital — geralmente descrito em termos tecnológicos como “infraestrutura nativa da nuvem”, “tomada de decisão orientada por IA” ou “agilidade em escala”.

Essa neutralidade estratégica não é apenas ineficiente. É ativamente prejudicial. Ao seguir MMDs genéricos sem um filtro estratégico, as empresas investem em práticas que fortalecem capacidades irrelevantes — ou até mesmo prejudiciais — para seu posicionamento competitivo.

Quando a “melhor prática” se torna a pior prática

As consequências desse desalinhamento se manifestam dramaticamente no mundo real. Considere três contos de advertência:

General Electric: a miragem digital de US$ 1 bilhão

A tentativa altamente divulgada da General Electric de se tornar uma “empresa industrial digital” por meio de sua unidade GE Digital oferece um caso clássico de desalinhamento estratégico. Entre 2011 e 2018, a GE investiu mais de US$ 1 bilhão para construir a Predix, uma plataforma de internet das coisas (IoT, na sigla em inglês) industrial destinada a transformar a empresa em uma potência de software.

O problema não era a tecnologia – a Predix era genuinamente inovadora. O problema era a estratégia, ou melhor, a falta de alinhamento estratégico.

A GE operava com uma visão simplista e focada na tecnologia da transformação digital. Em vez de integrar iniciativas digitais de forma holística em seu modelo de negócio industrial principal, a GE criou uma unidade de negócios digital separada, com seu próprio mandato de lucros e perdas (P&L). Essa decisão estrutural forçou a GE Digital a priorizar a receita de software de curto prazo em detrimento do valor estratégico de longo prazo para as operações industriais da GE.

Mais criticamente, uma avaliação estratégica adequada teria revelado que a principal vantagem competitiva da GE residia em sua profunda expertise no domínio industrial, nos relacionamentos com a base instalada e nos contratos de serviço – não em competir diretamente com empresas puras de software em mercados de plataforma. A empresa precisava de capacidades digitais que aprimorassem seu posicionamento industrial, não de um negócio de software separado que a distraísse dele.

Um MMD genérico poderia ter marcado as caixas de “investimento em infraestrutura de nuvem” e “unidade digital dedicada” e atribuído uma alta pontuação à GE em maturidade digital. Mas esses mesmos investimentos, desalinhados com a estratégia competitiva real da GE, contribuíram para bilhões em baixas contábeis quando a GE Digital foi eventualmente vendida em pedaços.

Nokia: quando a excelência em hardware perde a mudança de plataforma

A queda da Nokia no mercado de smartphones demonstra como os MMDs que se concentram em otimizar as capacidades existentes podem cegar as empresas para pontos de inflexão estratégicos.

Em 2007, a Nokia era a fabricante dominante de celulares do mundo, com capacidades avançadas de P&D e processos de produção eficientes. Uma avaliação de MMD tradicional provavelmente teria classificado a Nokia com alta sofisticação tecnológica — a empresa detinha milhares de patentes e entregava hardware de qualidade de forma consistente.

Mas a maturidade da Nokia estava sendo medida em relação ao paradigma estratégico errado. A empresa se destacava na competição focada em hardware, enquanto o mercado estava mudando para uma competição baseada em plataformas, centrada em ecossistemas de software e comunidades de desenvolvedores.

A Nokia tinha as capacidades digitais para otimizar sua estratégia legada (produção de hardware com custo eficiente), mas carecia das diferentes capacidades digitais necessárias para o novo cenário estratégico (orquestração de plataforma, gerenciamento de APIs, relações com desenvolvedores, cultivo de ecossistema de aplicativos). Um MMD sintonizado com a estratégia teria detectado esse desalinhamento e sinalizado a necessidade de desenvolver capacidades em domínios totalmente diferentes.

Em vez disso, a Nokia continuou recebendo “notas altas” em avaliações digitais genéricas, enquanto simultaneamente perdia o mercado para a Apple e o Android – empresas que perseguiam estratégias competitivas fundamentalmente diferentes que exigiam formas bem diferenciadas de “maturidade digital”.

A realidade do varejo brasileiro: quando o e-commerce não é suficiente

Embora exemplos globais chamem a atenção, o padrão se repete em todos os mercados. No Brasil, os varejistas tradicionais têm lutado com a transformação digital não por falta de capacidades de e-commerce, mas porque aplicaram manuais digitais genéricos sem adaptação estratégica.

Considere o contraste entre o Magazine Luiza e outros varejistas brasileiros. Enquanto os concorrentes se concentravam em implementar plataformas de e-commerce padrão – marcando as caixas dos MMDs para “canal de vendas online” e “opções de pagamento digital” –, o Magazine Luiza perseguiu uma estratégia de integração físico-digital alinhada ao contexto específico do mercado brasileiro: alta penetração de smartphones, mas infraestrutura de entrega em domicílio limitada em muitas regiões, fortes comportamentos de comércio social e a importância dos relacionamentos pessoais nas transações de varejo.

A inovação estratégica do Magazine Luiza – incluindo a integração de ferramentas digitais com sua rede de lojas físicas e a venda social através do “Magazine Você” (uma plataforma que permite que indivíduos se tornem revendedores digitais) – não obteria uma pontuação alta em MMDs genéricos focados em métricas de e-commerce puro.

No entanto, essa abordagem de maturidade digital alinhada à estratégia tornou o Magazine Luiza uma das histórias de sucesso da transformação digital no Brasil, enquanto concorrentes com investimentos em maturidade digital mais “convencionais” enfrentaram dificuldades.

A estratégia importa mais do que você pensa

Pesquisas em múltiplos domínios confirmam o que esses exemplos ilustram: a desconexão entre os esforços digitais e a estratégia competitiva é um dos principais impulsionadores do fracasso da transformação.

Uma empresa cuja estratégia se baseia em inovação e diferenciação (como uma startup de tecnologia ou uma marca de moda premium) requer uma maturidade cultural caracterizada por autonomia, criatividade, tolerância ao risco e equipes auto-organizáveis. Para tais empresas, “maturidade digital” significa capacidades que aceleram a experimentação, permitem a prototipagem rápida, facilitam a cocriação com o cliente e suportam a personalização em escala.

Uma empresa cuja estratégia é a liderança em custos (como companhias aéreas de baixo custo, varejistas de desconto ou fabricantes de grande escala) requer uma maturidade cultural caracterizada por disciplina, eficiência e adesão a processos padronizados. Para essas empresas, “maturidade digital” significa capacidades que impulsionam a automação, eliminam a variação, otimizam a utilização de recursos e permitem economias de escala.

Estas não são apenas ênfases diferentes nas mesmas capacidades subjacentes. São conjuntos de capacidades fundamentalmente diferentes, às vezes opostos.

Maturidade digital genérica vs. cultura de redução de custos

Um exemplo prático: o paradoxo da autonomia

Para tornar isso concreto, imagine duas empresas operando no mesmo setor:

Empresa A foca na diferenciação através da experiência do cliente, com produtos hiperpersonalizados, design exclusivo e forte engajamento digital. Pense em uma empresa como a Natura no setor de cosméticos do Brasil, competindo com base em credenciais de sustentabilidade, personalização e valores de marca.

Empresa B compete em preço, com margens apertadas, logística enxuta e foco na eficiência operacional. Considere uma empresa como o Assaí no setor de atacado/varejo do Brasil, otimizando para volume e custo por transação.

Um MMD genérico perguntaria: “Sua empresa promove autonomia e liberdade de decisão dentro das equipes?”

Para a Empresa A, uma resposta positiva indica maturidade. A autonomia alimenta a inovação e a resolução criativa de problemas que reforçam sua estratégia de diferenciação. Equipes empoderadas podem responder rapidamente às necessidades individuais dos clientes, experimentar novas abordagens de engajamento e desenvolver soluções inovadoras que aprimoram a experiência premium.

Para a Empresa B, a mesma resposta positiva poderia representar um risco estratégico. A autonomia excessiva ameaça a padronização essencial para a eficiência de custos e pode gerar variabilidade que aumenta os custos operacionais — exatamente o oposto de sua vantagem competitiva. O sucesso aqui requer a execução coordenada de processos cuidadosamente otimizados, não a criatividade individual.

Este exemplo deixa claro: sem considerar a estratégia, os modelos de maturidade digital podem induzir os gestores a priorizar comportamentos que não fazem sentido para seu posicionamento de mercado.

O mesmo item de avaliação pode indicar “alta maturidade” em uma organização e “desalinhamento estratégico” em outra.

As quatro falhas fatais dos modelos estáticos

A análise de 76 modelos de maturidade digital da pesquisa acadêmica e da prática de consultoria revela fraquezas sistemáticas:

1. Ambição uniforme

Os MMDs atuais tratam todas as empresas como se tivessem o mesmo destino: um estado idealizado de maturidade, geralmente descrito em termos tecnológicos (nativo da nuvem, orientado por IA, totalmente automatizado etc.). Isso ignora a realidade de que diferentes estratégias competitivas exigem diferentes estados finais. Uma líder em custos nunca deveria alcançar o mesmo “perfil de maturidade digital” de uma diferenciadora – se o fizerem, uma delas desperdiçou recursos desenvolvendo capacidades que não apoiam sua estratégia.

2. Baixa adaptabilidade

Embora existam versões setoriais de MMDs (para manufatura, saúde, educação, serviços financeiros), mesmo esses modelos não conseguem capturar as diferenças estratégicas dentro do mesmo setor. O MMD de serviços financeiros trata bancos de varejo e bancos de investimento de maneira idêntica, apesar das dinâmicas competitivas radicalmente diferentes. O MMD de manufatura avalia oficinas de fabricação personalizada e instalações de produção em massa com os mesmos critérios, perdendo as diferenças estratégicas que mais importam.

3. Estratégia como uma “dimensão decorativa”

Em muitos modelos, “estratégia” aparece como apenas mais um item de verificação, ao lado de “tecnologia”, “processos”, “cultura” e “clientes”. Tipicamente, a dimensão da estratégia pergunta se a empresa “tem uma estratégia digital” ou se “a liderança está comprometida com a transformação digital”. Essas perguntas avaliam a “existência” da estratégia, não seu “conteúdo”. Elas não identificam qual posição estratégica a empresa ocupa e certamente não ajustam a avaliação de outras dimensões com base nessa posição. A evidência sugere que a estratégia não deve ser uma dimensão entre muitas – deve ser o princípio organizador que determina como todas as outras dimensões são interpretadas e ponderadas.

4. Risco de desalinhamento

Ao seguir um MMD sem um filtro estratégico, as empresas podem investir em práticas que fortalecem capacidades irrelevantes para – ou ativamente prejudiciais ao – seu posicionamento competitivo. A companhia aérea focada em custos que constrói caros motores de personalização baseados em IA. A rede de hotéis premium que implementa automação focada em eficiência que elimina o serviço de alto contato que justificava suas tarifas. A empresa de produtos inovadores que instala controles de processo rígidos que diminuem sua vantagem de velocidade para o mercado. Cada um representa uma pontuação alta em maturidade digital genérica combinada com um enfraquecimento da posição competitiva.

O problema das políticas públicas: quando o desalinhamento escala

As consequências dos MMDs cegos à estratégia se estendem para além das empresas individuais. No Brasil e globalmente, governos e agências de desenvolvimento usam cada vez mais avaliações de maturidade digital para orientar decisões de políticas públicas, alocar financiamento para inovação e medir a competitividade setorial.

Considere uma avaliação setorial hipotética que encontra “baixa maturidade digital” na manufatura tradicional porque as empresas pontuam mal em métricas como “sofisticação da plataforma de dados do cliente” e “engajamento em mídias sociais”. Os formuladores de políticas podem concluir que essas empresas precisam de ajuda para construir capacidades de marketing digital.

Mas e se esses fabricantes competem principalmente em excelência operacional em mercados B2B com contratos de longo prazo? Sua “baixa maturidade” em capacidades digitais voltadas para o consumidor não é uma fraqueza — é uma alocação racional de recursos para longe de capacidades que não apoiam sua estratégia competitiva.

O risco real é que as políticas públicas guiadas por avaliações cegas à estratégia irão:

  • Alocar recursos de forma inadequada para capacidades que não correspondem às necessidades competitivas reais das empresas.
  • Criar incentivos perversos onde as empresas buscam sinais visíveis de “maturidade digital” para acessar financiamento, em vez de capacidades que genuinamente fortalecem sua posição competitiva.
  • Distorcer a dinâmica competitiva, empurrando todas as empresas para o mesmo perfil digital, reduzindo a diversidade estratégica e potencialmente prejudicando a resiliência geral do setor.

Por que isso ainda não acontece?

Dadas essas limitações óbvias, por que os MMDs não evoluíram para incorporar a estratégia competitiva?

A análise de 76 modelos sugere várias explicações:

  • Divisão entre academia e prática: A maioria dos MMDs se origina ou da pesquisa acadêmica (focada em rigor conceitual e generalização) ou da prática de consultoria (focada em ferramentas de avaliação escaláveis). Ambos os contextos incentivam modelos genéricos. Acadêmicos buscam frameworks aplicáveis em diferentes contextos. Consultores precisam de ferramentas padronizadas que possam ser implantadas eficientemente. Modelos sintonizados com a estratégia, por definição, exigem mais personalização.
  • A sedução da comparação: As organizações querem se comparar com seus pares. “Como nos comparamos com nossos concorrentes?” é uma pergunta mais confortável do que “Estamos desenvolvendo as capacidades certas para nossa estratégia específica?”. Modelos genéricos permitem a comparação. Modelos sintonizados com a estratégia enfatizam a diferenciação.
  • Conveniência da medição: É mais fácil avaliar se uma empresa “tem infraestrutura de nuvem” do que avaliar se sua estratégia de infraestrutura se alinha com seu posicionamento competitivo. MMDs genéricos podem ser amplamente automatizados por meio de pesquisas e varreduras tecnológicas. O alinhamento estratégico requer um diagnóstico mais profundo.
  • A própria metáfora da maturidade: O conceito de “maturidade” em si implica uma progressão em direção a um ponto final definido. Essa metáfora funciona para avaliar uma capacidade específica (maturidade do processo de desenvolvimento de software, por exemplo), mas falha quando aplicada à estratégia, onde caminhos diferentes são igualmente “maduros” dependendo do contexto competitivo.
  • Incompreensão da transformação digital: Se você acredita que a transformação digital é principalmente sobre a adoção de tecnologia, então os MMDs genéricos fazem sentido e todos deveriam adotar tecnologias semelhantes. Mas se a transformação digital é sobre usar capacidades digitais para fortalecer a posição competitiva, então o contexto estratégico se torna essencial.

Esse vácuo explica por que tantos executivos relatam frustração: mesmo empresas que “pontuam alto” nos MMDs muitas vezes veem um impacto mínimo no desempenho dos negócios. Elas otimizaram para uma definição genérica de maturidade digital que não corresponde às suas fontes reais de vantagem competitiva.

A estratégia como norte: um novo framework

As evidências apontam uma abordagem fundamentalmente diferente: a estratégia não deve ser uma dimensão entre muitas; deve ser o princípio organizador que determina como todas as outras dimensões são interpretadas, ponderadas e desenvolvidas.

Para ilustrar tudo isso na prática, podemos comparar a maturidade tecnológica de uma empresa que compete por meio de inovação e liderança de produto e a de compete por meio de excelência operacional e custos.

A primeira empresa requer:

  • Alta capacidade de experimentação e prototipagem rápida.
  • Arquitetura flexível e que permite recomposição rápida.
  • Uso intensivo de dados para entender as preferências e comportamentos dos clientes.
  • Escolhas tecnológicas que favorecem a velocidade e o aprendizado em detrimento da otimização e estabilidade.
  • Investimento em tecnologias emergentes mesmo antes de um ROI claro existir.

E a segunda empresa requer:

  • Automação eficiente de processos padronizados.
  • Arquitetura estável e otimizada que maximiza a utilização e minimiza a complexidade.
  • Dados focados na eficiência operacional e na redução de desperdícios.
  • Escolhas tecnológicas que favorecem soluções comprovadas com claro custo-benefício.
  • Investimento disciplinado apenas em tecnologias com ganhos de produtividade demonstrados.

Esses não são diferentes níveis de maturidade como se um fosse mais alto do que o outro, percebe? São diferentes “tipos” de maturidade, cada um otimizado para uma estratégia competitiva diferente.

O mesmo princípio se aplica a todas as dimensões: cultura, organização, experiência do cliente, práticas de dados. Cada dimensão se manifesta de modo diferente dependendo da estratégia competitiva.

Um framework inicial

Para operacionalizar a avaliação sintonizada com a estratégia, precisamos de uma tipologia prática de estratégias competitivas digitais. Nossa pesquisa sugere que duas dimensões fundamentais impulsionam as diferenças estratégicas na economia digital:

Dimensão 1: Digitalização do produto – A medida em que a oferta principal de uma empresa incorpora conectividade digital e capacidades definidas por software. Isso varia de produtos físicos isolados (bens manufaturados tradicionais) a produtos e serviços digitais totalmente conectados (software, plataformas, sistemas habilitados por IoT).

Dimensão 2: Modelo de receita – Se a empresa monetiza principalmente por meio da transferência de propriedade (venda de produtos) ou por meio da prestação de serviços contínuos (assinaturas, preços baseados no uso, modelos baseados em resultados).

A interseção dessas dimensões cria quatro estratégias digitais iniciais:

CO (produtos conectados, modelo de propriedade)

Empresas como Apple e Tesla, que vendem produtos conectados digitalmente. O sucesso requer capacidades em infraestrutura de IoT, integração software-hardware, caminhos de atualização e desenvolvimento de ecossistemas. A maturidade digital significa a capacidade de aprimorar continuamente os produtos após a venda por meio de atualizações de software e manter relacionamentos profundos com os clientes ao longo da propriedade.

CS (produtos conectados, modelo de serviço)

Negócios de plataforma como Uber, Netflix e iFood, que fornecem serviços por meio de canais digitais. O sucesso requer capacidades em escalabilidade de plataforma, correspondência e otimização em tempo real, gerenciamento de efeitos de rede e ecossistemas de API. A maturidade digital significa a capacidade de orquestrar eficientemente a entrega de serviços complexos em escala, enquanto melhora continuamente por meio de ciclos de feedback de dados.

IO (produtos isolados, modelo de propriedade)

Fabricantes tradicionais como a maioria dos fabricantes de equipamentos industriais e empresas de bens de consumo. O sucesso requer capacidades em eficiência operacional, controle de qualidade, otimização da cadeia de suprimentos e gerenciamento de revendedores/distribuidores. A maturidade digital significa usar a tecnologia para aprimorar a excelência na fabricação, a confiabilidade do produto e a eficácia do canal — não necessariamente criar produtos conectados.

IS (produtos isolados, modelo de serviço)

Provedores de serviços baseados em ativos, como locadoras de carros tradicionais, empresas de leasing de equipamentos e operadores de imóveis comerciais. O sucesso requer capacidades em otimização da utilização de ativos, eficiência operacional e minimização de custos de transação. A maturidade digital significa usar a tecnologia para maximizar a produtividade dos ativos e otimizar a entrega de serviços – não necessariamente criar efeitos de plataforma.

Cada arquétipo requer um perfil de maturidade digital diferente. Uma empresa de serviços de plataforma, com estratégia CS, que alcançasse as mesmas capacidades digitais de uma fabricante tradicional, com estratégia IO, estaria estrategicamente desalinhada – apesar de potencialmente pontuar “alto” em um MMD genérico.

Então, o que os líderes devem fazer agora?

Não, depois de adquirir esses conhecimentos, executivos e líderes de transformação não precisam esperar que surjam MMDs perfeitamente sintonizados com sua estratégia. Podem, isto sim, dar passos práticos para evitar a armadilha do desalinhamento estratégico:

1. Começar com a estratégia, não com o modelo

Antes de aplicar qualquer MMD, articule explicitamente: Qual é a nossa estratégia competitiva? Como criamos e capturamos valor de modo diferente dos concorrentes? Quais são nossas fontes de vantagem competitiva?

Somente após responder a essas perguntas você deve interpretar os resultados do MMD. Pergunte continuamente: Essa “lacuna de maturidade” realmente importa para a nossa estratégia?

2. Reler os indicadores

Através de uma lente estratégica, quando um MMD identifica uma lacuna de capacidade, adicione um filtro estratégico:

  • Esse comportamento/prática é consistente com nossa forma de competir?
  • Desenvolver essa capacidade fortaleceria ou enfraqueceria nossa posição competitiva?
  • Estamos sendo medidos em relação à estratégia de um concorrente em vez da nossa?

3. Adaptar pesos e prioridades com base na estratégia

Nem todas as dimensões merecem a mesma atenção. Uma empresa diferenciadora deve dar mais peso às dimensões de cultura, inovação e experiência do cliente. Uma empresa focada em custos deve enfatizar a otimização de processos, automação e eficiência operacional. Crie uma sobreposição estratégica em seu MMD que ajuste os pesos de importância com base em seu posicionamento competitivo.

4. Exigir avaliação contextual

Se estiver trabalhando com consultores ou aplicando frameworks externos, insista na adaptação explícita à sua estratégia. Responda a recomendações genéricas com perguntas estratégicas:

  • “Como essa capacidade fortalece nossa vantagem competitiva específica?”
  • “Mostre-me exemplos de empresas com nosso perfil estratégico que se beneficiaram desse investimento.”
  • “Quais trade-offs estamos fazendo ao desenvolver essa capacidade em vez de outras alternativas?”

5. Construir a alfabetização

Estratégica em toda a organização, uma razão pela qual os MMDs genéricos persistem é que muitos gestores não têm um entendimento profundo da estratégia competitiva de sua empresa. Invista na educação estratégica para que as equipes possam avaliar independentemente se as iniciativas digitais se alinham ao posicionamento competitivo.

6. Criar métricas de sucesso específicas para a estratégia

Defina o que “maturidade digital” significa para sua estratégia específica e, em seguida, crie métricas alinhadas a essa definição. As métricas de sucesso digital de um líder em custos (custo por transação, taxa de automação, padronização de processos) devem ser fundamentalmente diferentes das métricas de um diferenciador (velocidade de experimentação, profundidade de personalização, valor do ciclo de vida do cliente).

7. Desafiar a metáfora da maturidade

Lembre-se de que “maturidade” é uma metáfora, não uma realidade objetiva. Questione se passar do “Nível 2” para o “Nível 3” em uma escala genérica realmente representa progresso para o seu contexto estratégico. Às vezes, o “Nível 2” em um modelo genérico representa um alinhamento estratégico perfeito, enquanto o “Nível 4” representa um superinvestimento em capacidades irrelevantes.

O caminho a seguir: rumo à avaliação sintonizada com a estratégia

A próxima geração de modelos de maturidade digital precisa abandonar a neutralidade estratégica e se tornar ferramentas de alinhamento competitivo. ao menos cinco iniciativas ajudariam a empresa a avançar nesse objetivo:

  1. Diagnóstico da estratégia como pré-requisito. Antes de avaliar as capacidades digitais, os modelos devem incluir métodos estruturados para identificar a estratégia competitiva da empresa – não apenas perguntar se ela existe, mas determinar seu conteúdo e lógica competitiva.
  2. Caminhos de avaliação condicionais. Em vez de todas as empresas responderem às mesmas perguntas, a avaliação deve se ramificar com base no perfil estratégico. Estratégias diferentes acionam critérios de avaliação diferentes, assim como o diagnóstico médico segue caminhos diferentes com base nos sintomas iniciais.
  3. Benchmarking específico da estratégia. Em vez de comparar todas as empresas a um padrão universal, a comparação deve ser contra outras que perseguem estratégias semelhantes. A maturidade digital de um líder em custos deve ser comparada com a de outros líderes em custos, não com a de diferenciadores.
  4. Mapeamento dinâmico de capacidades. Os modelos devem ajudar as organizações a identificar quais capacidades desenvolver para sua estratégia atual, ao mesmo tempo em que destacam como os requisitos de capacidade mudariam se a estratégia evoluísse. Isso apoia tanto a execução estratégica quanto a adaptação estratégica.
  5. Integração com o planejamento estratégico. A avaliação da maturidade digital deve ser incorporada aos processos mais amplos de planejamento estratégico, não tratada como uma iniciativa tecnológica separada. A pergunta muda de “Quão digitalmente maduros somos?” para “Nossas capacidades digitais apoiam nossa posição competitiva pretendida?”.

EM ÚLTIMA ANÁLISE, A VERDADEIRA PERGUNTA NÃO É SE SUA EMPRESA É MAIS OU MENOS “DIGITALMENTE MADURA”. A verdadeira pergunta é, isto sim, se sua maturidade digital fortalece ou enfraquece a maneira como você compete.

Uma pontuação baixa em um MMD genérico pode representar um alinhamento estratégico perfeito se você estiver deliberadamente não desenvolvendo capacidades que não apoiam sua vantagem competitiva. Uma pontuação alta pode indicar um perigoso superinvestimento em áreas irrelevantes.

A verdade incômoda é que muitos dos estimados US$ 4,8 trilhões em investimentos fracassados em transformação digital nos últimos cinco anos não foram falhas de execução, gestão de mudanças ou comprometimento da liderança – embora esses fatores certamente tenham contribuído. Foram falhas de alinhamento estratégico, guiadas por ferramentas de avaliação que não conseguiam distinguir entre diferentes tipos de sucesso competitivo.

Como observava Peter Drucker, “não há nada tão inútil quanto fazer com grande eficiência o que não deveria ser feito de modo algum”. Modelos de maturidade digital genéricos, por definição, não podem lhe dizer se algo “deve” ser feito – eles só podem lhe dizer se você “está fazendo”.

Até que os MMDs evoluam para se tornar ferramentas de alinhamento competitivo, cabe aos gestores não se deixar seduzir por métricas universais e benchmarks genéricos. O objetivo não é ser “digitalmente maduro” em algum sentido abstrato. O objetivo é desenvolver capacidades digitais que fortaleçam sua vantagem competitiva específica em seu contexto de mercado específico.

Essa é uma avaliação muito mais difícil de fazer – e é precisamente por isso que ela importa muito mais.

Sobre a pesquisa

Este artigo é baseado em: “MaturiX: Uma abordagem para sintonizar modelos de maturidade digital com estratégias competitivas” (tese de doutorado, CESAR School, 2025), que analisou 76 modelos de maturidade digital e desenvolveu um framework para avaliação sintonizada com a estratégia, incorporando a geração de capacidades alimentada por IA.

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Eduardo Peixoto
Eduardo Peixoto é CEO do CESAR Centro de Inovação e professor da CESAR School. Mestre em comunicação de dados pela Technical University of Eindhoven-Holanda, com MBA na Kellogg School of Management e na Columbia Business School, atua há 30 anos na área de tecnologias da informação e comunicação (TICs). Trabalhou como executivo no exterior, na Philips da Holanda e na Ascom Business System AG (Suíça).

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