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Pesquisa

IA em RH não é sobre tecnologia — é sobre gestão

Estudo com 50 empresas mostra que o verdadeiro diferencial da inteligência artificial em gestão de pessoas é o modelo de implementação

Luciana Camargo
7 min de leitura
IA em RH não é sobre tecnologia — é sobre gestão

A inteligência artificial já está presente no cotidiano das áreas de recursos humanos no Brasil. O que muda agora é a natureza dessa presença. Com a chegada dos agentes de IA — sistemas capazes de executar processos de ponta a ponta, interagir com múltiplos sistemas e operar com autonomia relativa — o RH deixa de apenas usar tecnologia e passa a conviver com ela como parte estrutural do trabalho.

Mas há um descompasso evidente: a tecnologia avança mais rápido do que a maturidade organizacional para absorvê-la.

Esta análise se baseia em uma pesquisa que conduzi, no Observatório do Futuro do Trabalho, com 50 empresas de diferentes setores e portes, entre julho de 2025 e janeiro de 2026. Mais do que mapear se a IA está sendo utilizada, investigamos onde ela é aplicada, como os projetos são implementados, quais estruturas de governança os sustentam e como isso impacta resultados e competências.

O padrão que emerge é claro: IA em RH não é uma variável tecnológica, é uma variável de gestão.

A primeira onda: eficiência operacional

A adoção começa onde o risco é menor e o ganho é visível. Recrutamento e operações de RH concentram a maior parte das aplicações atuais. Triagem de currículos, agendamento de entrevistas, atendimento aos funcionários, respostas automatizadas e organização de fluxos administrativos são os usos mais recorrentes.

Essas áreas compartilham três características: alto volume, repetição e padronização. São ambientes ideais para automação. Não surpreende que os primeiros ganhos percebidos sejam de produtividade.

Mas aqui já aparece uma tensão: começar pela eficiência não é o mesmo que transformar o modelo de RH. A maioria das empresas inicia pela automação tática. Poucas avançam para reconfiguração estratégica.

O verdadeiro diferencial não é a ferramenta, mas o modelo de implementação

Um dos achados mais relevantes da pesquisa está menos na tecnologia e mais na arquitetura organizacional. 

Projetos conduzidos por times internos ou modelos híbridos — combinando equipe própria com parceiros — apresentam maior maturidade, maior uso de KPIs e maior capacidade de evolução.

Já iniciativas totalmente terceirizadas tendem a permanecer no nível operacional, com baixa mensuração e dependência técnica.

A diferença não é ideológica. É estrutural. Quando o conhecimento permanece fora da organização, a IA gera eficiência. Quando o conhecimento é internalizado, a IA gera competência.

Esse é um ponto central: o protagonismo interno não é apenas governança — é um mecanismo de aprendizagem organizacional.

Produtividade surge cedo. Redução de custo só aparece com transformação.

A pesquisa mostra que a percepção de aumento de produtividade cresce conforme a maturidade avança. Organizações em estágios mais estruturados relatam ganhos relevantes — em alguns casos acima de 40%.

No entanto, a redução de custos aparece apenas nos estágios de escala organizacional ou transformação integrada. E mesmo assim, não é automática.

A maioria das empresas em fase de exploração ou piloto afirma não ter redução ou não saber mensurar.

Isso desmonta uma narrativa comum: implementar IA não significa, por si só, reduzir despesas.
Automação superficial otimiza tarefas; transformação operacional altera estrutura de custos. São fenômenos diferentes.

KPIs: o limite entre entusiasmo e evidência

Um dos padrões mais claros da pesquisa é a associação entre maturidade e mensuração.

Projetos conduzidos internamente ou em modelo híbrido utilizam indicadores de desempenho com mais frequência. Já iniciativas terceirizadas apresentam alta incidência de ausência de métricas.

Sem KPIs, a IA se apoia em percepção. Com KPIs, ela se torna decisão de gestão. Essa distinção separa organizações que aprendem daquelas que apenas experimentam.

IA e competências: o paradoxo do envolvimento

A introdução de agentes de IA não impacta apenas processos — impacta identidades profissionais.

Empresas com protagonismo interno reconhecem com mais clareza a necessidade de requalificação. Letramento em dados, capacidade de interação com sistemas inteligentes, revisão de processos e pensamento crítico emergem como competências-chave.

Curiosamente, organizações que terceirizam integralmente os projetos tendem a perceber menos necessidade de mudança de habilidades.

O paradoxo é evidente: quanto menor o envolvimento interno, menor a percepção de transformação — e menor o desenvolvimento de competências.

Nesse cenário, a IA pode funcionar como catalisador de aprendizagem ou como anestésico organizacional.

Cultura: o fator invisível

Além de estrutura e estratégia, emergem dimensões emocionais.

Medo de obsolescência, insegurança no uso da tecnologia e ansiedade quanto ao futuro do trabalho aparecem com frequência, especialmente entre profissionais mais jovens.

Empresas com cultura orientada à experimentação e dados lidam melhor com essa tensão. Nelas, a IA é percebida como ampliação de capacidade. Em ambientes mais avessos ao risco, ela é vista como ameaça.

Além da maturidade técnica, a pesquisa identificou um paralelo cultural, com níveis que vão da negação à transformação estratégica.

Governança: frequentemente tardia

Diretrizes éticas e estruturas formais de governança surgem predominantemente nos estágios mais avançados de adoção.

Nos estágios iniciais, predominam indefinições. Isso sugere um risco relevante: a governança tende a ser construída depois que a tecnologia já está em uso.

Se agentes de IA executam processos de ponta a ponta, a ausência de diretrizes não é apenas uma lacuna administrativa — é uma vulnerabilidade estratégica.

Conclusão: o RH diante de uma escolha estrutural

Os dados mostram que a adoção de agentes de IA em RH é real — mas desigual.

Onde há estratégia clara, protagonismo interno, métricas e investimento em competências, os resultados são consistentes e sustentáveis.

Onde a IA é tratada como ferramenta isolada, experimento periférico ou serviço terceirizado, os ganhos são limitados e dificilmente escaláveis.

A questão central não é se o RH utilizará agentes de IA. A questão é se o RH será agente da transformação ou apenas usuário da tecnologia.

A IA já é estrutural. O RH decidirá se quer liderar essa estrutura ou ser moldado por ela.

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Luciana Camargo
Luciana Camargo
Luciana Camargo é pesquisadora do Observatório do Futuro do Trabalho, board member da plataforma de IA canadense Praxxi e advisor da consultoria de estratégia por meio de pessoas BTS, além de membro da comissão temática de pessoas do IBGC. Teve uma carreira de 30 anos na IBM – sua última posição foi de VP global para RH, liderança, desenvolvimento e inclusão na IBM Consulting.

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