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Disrupção

Computação quântica: quando ela será risco? Quando será oportunidade?

Apesar do buzz recente, o poder transformador da computação quântica só será real na próxima década. Por enquanto, o desafio das empresas é preparar-se, investir em criptografia pós-quântica e fazer experimentos

Luis Quiles
6 min de leitura
Computação quântica: quando ela será risco? Quando será oportunidade?

Recentemente, o físico e futurista americano Michio Kaku afirmou que a computação quântica permitirá “quebrar qualquer código de segurança digital existente”, destacando que esses sistemas são “bilhões de vezes mais rápidos e precisos que o computador digital”. A fala de Kaku alerta para o potencial disruptivo da computação quântica sobre a criptografia, baseada em algoritmos como RSA [de criptografia assimétrica], ideados na dificuldade de fatorar números grandes. Segundo ele, sistemas de segurança de setores fundamentais para a sociedade, como os de bancos e governos, podem estar vulneráveis em pouco tempo. Rapidamente a declaração se espalhou, colocando um ponto de interrogação sobre se devemos, enquanto sociedade, investir no desenvolvimento da computação quântica.

Mas a verdade é que o receio de Kaku, pelo menos por enquanto, não tem razão de ser. Os principais atores globais interessados no tema não estão alheios ao risco. Tanto que instituições e governos há tempos estão preparando a transição para o que se convencionou chamar de criptografia pós quântica (PQC, na sigla em inglês).

A PQC já é uma realidade. Ela se baseia em problemas matemáticos resistentes a algoritmos quânticos. Algoritmos baseados em PQC, como ML-KEM (para encapsulamento de chaves) e ML-DSA (para assinaturas digitais), estão se tornando padrão internacional, com implementações híbridas em andamento. Em 2026, governos e empresas testam PQC em ambientes reais, com adoções iniciais em VPNs, TLS e certificados digitais. Até o final da década, a maioria dos sistemas críticos será quantum-secure, minimizando os riscos destacados por Michio Kaku.

Pelo menos até fevereiro de 2026, a computação quântica prática ainda estava longe de quebrar a criptografia atual em escala real. Os computadores quânticos mais avançados operam com pouco mais de uma centena de qubits físicos, que ainda são ruidosos e instáveis. Para comprometer uma chave RSA das que utilizamos na atualidade, baseada na enorme complexidade de decompor um número muito grande em seus fatores primos, seriam necessários milhares de qubits lógicos estáveis, com correção de erros altamente sofisticada. Esse nível de maturidade tecnológica ainda não foi alcançado. Os desafios de estabilidade, escalabilidade e controle físico continuam sendo enormes. As previsões mais otimistas apontam que esse nível só deverá ser alcançado em 2035.

O risco mais concreto não é imediato, mas futuro. Dados sensíveis, como informações financeiras sigilosas e segredos industriais, podem ser interceptados e armazenados hoje para serem decifrados no futuro, quando computadores quânticos mais poderosos estiverem disponíveis. É por isso que a migração para a criptografia pós quântica precisa começar antes que a ameaça se materialize.

Governos já definiram prazos claros. Nos Estados Unidos, a adoção federal de PQC deverá estar consolidada até 2035. Na Europa, países trabalham em seus roteiros de transição com foco em infraestruturas críticas antes do final da década. O movimento é coordenado e global.

A indústria também está mobilizada. Por exemplo, a NTT Research apresentou uma suíte de segurança baseada em princípios de Zero Trust adaptada para ambientes pós quânticos. Além disso, desenvolveu o primeiro sistema de transporte pós-quântico do mundo capaz de trocar métodos criptográficos sem interromper comunicações. 

A computação quântica levanta questões mais amplas sobre governança e responsabilidades. Organizações internacionais como o Fórum Econômico Mundial com seus princípios de governança da computação quântica, a Unesco por meio do COMEST [sigla em inglês para a comissão de ética em conhecimento de ciência e tecnologia]l e relatórios sobre ética da computação quântica e empresas líderes defendem princípios fundamentais: equidade no acesso, transparência, sustentabilidade ambiental, accountability e prevenção de usos maliciosos.

Também é importante evitar exageros. Computadores quânticos não substituem os clássicos nem são úteis para qualquer tarefa. Eles são promissores para problemas muito específicos, como simulações moleculares, treinamento de modelos de machine learning, desenvolvimento de novos materiais e certas otimizações complexas. Seu funcionamento baseia-se em fenômenos como superposição e entrelaçamento, operando de forma probabilística. Não se trata simplesmente de fazer milhões de cálculos em paralelo, mas de explorar propriedades físicas que permitem abordar certos problemas de maneira diferente.

O desafio em 2026 é preparar-se, investir em criptografia pós-quântica, e ao mesmo tempo, impulsionar e experimentar aplicações que podem trazer benefícios concretos, como novos medicamentos, materiais mais eficientes e modelos climáticos mais precisos.

O poder transformador da computação quântica será real na próxima década — e seu desenvolvimento não irá comprometer a segurança de dados mundial. Mas, por enquanto, a computação clássica continuará sendo a espinha dorsal da economia digital.

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Luis Quiles
Luis Quiles é diretor de inteligência artificial da NTT DATA Brasil.

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