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Edição #44 do MIT SMR Brasil
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A transformação proposta pelo TikTok Brasil, que quebra a linearidade tradicional da área, pode se materializar em outras organizações com três princípios e três deslocamentos
O “TikTok Way of Learning” começou a ser desenvolvido a partir do reconhecimento de que o descompasso entre trabalho e estudo nunca se resolveria com avanços incrementais. Não se tratava de refinar o pipeline, mas de substituí-lo por outra lógica.
Assim, a transformação proposta, e já observada desde a primeira implementação por meio do salto de engajamento, não podia depender de mudanças isoladas de formatos. Ela precisava da nova visão, segundo a qual o poder cognitivo deve estar nas pontas, visão este apresentada no artigo anterior. Para essa nova visão se firmar, ela precisa se basear em novos princípios, e em deslocamentos estruturais que alterem a governança da aprendizagem, redistribuam a autoridade cognitiva e reformulem o desenho das experiências.
Uma maneira de olhar para isso é: a organização deve deixar de “ter” uma área de treinamento e desenvolvimento (T&D) e passar a operar como uma learning-based company, uma empresa que faz do aprender o seu jeito de ser. A seguir, este artigo aprofunda os princípios e os deslocamentos estruturais que sustentam tal transformação.
São três os princípios que estruturam o novo paradigma de aprendizagem corporativa proposto pelo TikTok:
O primeiro princípio é “Learning as core business”. No TikTok, a aprendizagem não está subordinada ao RH, mas integrada à própria estrutura operacional. Os programas são concebidos a partir de KPIs estratégicos: acelerar a adoção de soluções de monetização, elevar indicadores de satisfação do cliente (CSat), fortalecer a proposta de valor e ampliar a receita.
Na prática, essa execução se dá a partir de quatro pilares de iniciativas: (1) educação de produto (“Solutions Sessions”), (2) excelência em vendas (“TikTok Way of Selling”), (3) desenvolvimento de liderança (“TikTok Way of Leading”) e (4) especialização técnica (TikTok Way of Sharing).
Um exemplo é a disciplina de mobilizar todo o time da América Latina semanalmente para as “solutions sessions”, ou sessões de soluções, imersões dedicadas à educação em produtos diretamente ligados à geração de receita. Nesse arranjo, a aprendizagem deixa de ser uma formalidade administrativa e passa a operar como infraestrutura de retorno sobre investimento (ROI, na sigla em inglês), orientada por resultados tangíveis para clientes e para o negócio.

Fonte: “TikTok Way of Learning” – LATAM [Manifesto]. Documento interno, 2024.
O segundo princípio – ”Culture via learning and learning via culture” – traduz a relação de retroalimentação entre aprendizagem e cultura. A lógica de plataforma, baseada em círculos de influência, e não em pirâmides hierárquicas, orienta também o design educacional. Em vez de concentrar a autoria em T&D, o conhecimento emerge das pontas, mobilizando colaboradores e áreas funcionais diversas.
Iniciativas como o TikTok Way of Sharing legitimam talentos como referências técnicas e culturais – os chamados “champions” – independentemente da posição hierárquica. O papel de T&D passa a ser o de orquestrador, criando as condições para que práticas circulem lateralmente, ganhem legitimidade social e retroalimentem a cultura de “grow together” e “leverage collective wisdom” da empresa [relacionada com o princípio de as pessoas crescerem juntas e com a alavancagem da sabedoria coletiva]. Assim, a comunidade de aprendizagem se torna autossuficiente: cada especialista (seja ele um champion ou um SME – sigla em inglês para especialista na matéria) é também potencial multiplicador de conhecimento.

O terceiro princípio é o “For You Learning”. Inspirado no For You Page – o feed do TikTok em que cada interação retroalimenta o algoritmo, tornando as experiências dos usuários cada vez mais relevantes e precisas –, o modelo aplica lógica semelhante ao desenho das jornadas de aprendizagem. Quanto mais interações e feedbacks circulam, mais o sistema se refina e se torna responsivo nas próximas interações.
Isso porque cada sessão de aprendizagem convida todos os participantes a registrarem feedbacks que aprimoram a experiência seguinte e oferecem oportunidades de desenvolvimento direto para os facilitadores. Assim, como no feed do TikTok, o sistema aprende em tempo real com cada uso, respondendo às necessidades do negócio e das equipes.
Esse princípio ainda está em evolução e tem como aspiração consolidar uma curadoria em escala, capaz de substituir o modelo “one size fits all” por um fluxo de conteúdos mobilizados conforme a relevância percebida pelo negócio. Não há um formato único vencedor. O que existe é a ambidestria: usar tanto imersões presenciais quanto pílulas digitais distribuídas pela plataforma interna, conforme a demanda.

No novo paradigma, é preciso fazer três deslocamentos para reconfigurar o papel da aprendizagem na organização.
Durante décadas, a aprendizagem corporativa operou como um departamento isolado. O efeito colateral desse arranjo é conhecido: o conhecimento tende a se concentrar em um feudo, muitas vezes desconectado da dinâmica real da empresa. A provocação do futurista brasileiro Tiago Mattos sobre inovação ajuda a explicitar esse efeito: “quando você cria um departamento de inovação, automaticamente rotula todo o resto da empresa como não inovação”. O conceito de Mattos, aplica-se, por analogia, à aprendizagem. Afinal, quando o aprender é confinado a um único domínio funcional, o desenvolvimento de capacidades deixa de ser entendido como responsabilidade coletiva e se distancia do fluxo real do negócio.
O primeiro deslocamento do “TikTok Way of Learning” mora na transversalidade, ou seja, na aprendizagem integrada a toda a organização. Nessa lógica, T&D assume o papel de articulador de conexões, engajando todas as áreas e funções na responsabilidade compartilhada de desenvolver capacidades críticas para o negócio.
Esse princípio ganhou forma no programa que institucionalizou o “Train the Trainer” (TTT) com formação de SMEs da própria organização: o TikTok Way of Sharing.
Para acelerar a curva de maturidade em quatro disciplinas críticas para o negócio em AdTech – mensuração, branding, performance e creative – em vez de concentrar a produção de conteúdo apenas em T&D, foi estruturado um ciclo no qual especialistas de áreas funcionais capacitaram os vendedores. Estes, por sua vez, tornaram-se champions e assumiram a missão de disseminar o conhecimento entre pares e também em outros países. Forma-se, assim, uma engrenagem em cascata: T&D prepara o trainer; o trainer desenvolve o champion; e o champion multiplica o conhecimento na rede.
Essa arquitetura de learning-based company muda o jogo. O que antes era um conhecimento restrito a poucos passa a circular em rede e cada interação reforça a autonomia dos times comerciais. Os vendedores deixam de depender exclusivamente dos especialistas para acessar práticas validadas e passam a contar com colegas preparados como multiplicadores.
O ganho não está em entregar mais horas de treinamento, mas em ativar a inteligência coletiva da organização, de todas as áreas. Enquanto orquestrador, T&D cria as condições para que o conhecimento se mova em rede e se traduza em performance. E a implicação estratégica é clara: da dependência à autossuficiência. Ou seja, o conhecimento deixa de ficar retido em poucos especialistas e passa a circular como ativo coletivo, ampliando a capacidade da organização de converter o saber em resultado.
Se o primeiro deslocamento trata de estrutura e governança, o segundo diz respeito à autoridade cognitiva, isto é, quem tem legitimidade para produzir e difundir conhecimento. Nos modelos tradicionais de aprendizagem organizacional, essa dinâmica assume a forma de uma pirâmide: cabe exclusivamente à área de T&D o mandato de criar, validar e disseminar conteúdos. Essa arquitetura centralizada cria gargalos, pois a experiência prática só adquire legitimidade depois de filtrada e formalizada por processos institucionais.
O “TikTok Way of Learning” rompe esse monopólio ao instituir o programa de champions, que reconhece e legitima os colaboradores, independentemente do nível hierárquico, como SMEs com papel ativo na produção e circulação de práticas. Champion não é um cargo formal, mas uma função social. Sua autoridade não deriva do seu cargo, e sim da combinação entre consistência de entrega, alinhamento cultural e capacidade de traduzir experiências reais em formatos ensináveis.
O programa “Champions 2025” tornou esse deslocamento concreto ao estruturar uma trilha em quatro fases:
Esse ciclo transforma especialistas locais em multiplicadores globais.
Além disso, a organização criou o “Champions on Demand”, uma base que conecta colaboradores a especialistas em diferentes temas e regiões, permitindo acionar práticas validadas em tempo real. Mais do que um repositório, a iniciativa funciona como uma consultoria interna distribuída, ao organizar e disponibilizar conhecimentos antes restritos a redes informais. O acesso à expertise deixa de depender de contatos pessoais e passa a ser mediado por um sistema que assegura rapidez, legitimidade e escala na difusão das práticas.
Casos concretos ilustram o mecanismo. Em um projeto, um Champion de Mensuração, o Vitor Itakaki, criou a Ask MIA (Measurement Intelligence Assistance), uma base de conhecimento interativa que responde dúvidas de técnicas e orienta fluxos de trabalho, com o objetivo de ampliar a autonomia dos times e reduzir a dependência em especialistas. Em outra frente, foi criado o C.R.I.A.I. pelo Jefferson Moreira, Champion de Creative, um roteiro de cinco etapas para campanhas sensíveis (como as de governo, saúde e bebidas) concebido para minimizar retrabalho e disseminar boas práticas entre equipes que atuam em indústrias semelhantes.
O princípio que sustenta esse movimento – o da alavancagem da sabedoria coletiva, da ByteDance – substitui a pirâmide de conhecimento por círculos de conhecimento, nos quais a liderança se constrói não apenas a partir de cargos formais, mas da capacidade de tornar práticas ensináveis, reutilizáveis e compartilháveis.

Os efeitos estratégicos são claros:
1. Aceleração da difusão: a distância entre a descoberta individual e a disseminação organizacional diminui, permitindo que a empresa aprenda na mesma velocidade em que o negócio se transforma.
2. Autorregulação cultural: ao legitimar quem ensina, a organização sinaliza que liderança também é influência cognitiva, e não apenas gestão de pessoas. Ensinar passa a ser uma forma reconhecida de liderança – e a comunidade de aprendizagem passa a ser, de fato, autossuficiente.
Ensinar passa a ser uma forma reconhecida de liderança – e a comunidade de aprendizagem passa a ser, de fato, autossuficiente
Em termos teóricos, esse deslocamento pode ser lido como a passagem da institucionalidade robusta para a continuidade comunitária. A desintermediação não elimina a necessidade de institucionalidade, mas redefine seu papel, de centro de controle para orquestrador de condições de aprendizagem. É nesse equilíbrio entre cooperação (que garante alinhamento estratégico) e colaboração (que assegura vitalidade e inovação) que a aprendizagem se torna, de fato, autossustentável.
Se o primeiro deslocamento trata de estrutura e governança, e o segundo de autoridade cognitiva, o terceiro reformula a própria lógica de desenho das experiências de aprendizagem. Durante décadas, o campo de T&D operou sob uma divisão binária: de um lado, as hard skills – conteúdos técnicos, frameworks conceituais e metodologias; de outro, as soft skills – empatia, colaboração e resiliência. Essa separação produziu trajetórias paralelas que raramente se encontravam e gerou um efeito colateral recorrente: profissionais capazes de reproduzir conceitos, mas com dificuldade de sustentar performance em contextos de alta pressão emocional e elevada exigência comportamental.
O “TikTok Way of Learning”” propõe uma alternativa baseada no design tridimensional, no qual cada experiência de aprendizagem articula, de forma integrada e intencional, três camadas complementares:
Esse arranjo encontra respaldo consistente na ciência da aprendizagem. Em Make It Stick, os pesquisadores Peter C. Brown, Henry L. Roediger III e Mark A. McDaniel demonstram que a retenção é mais duradoura quando envolve esforço cognitivo, engajamento emocional e prática variada. Na mesma direção, Understanding by Design, de Grant Wiggins e Jay McTighe, sustenta que experiências de aprendizagem devem ser concebidas a partir de evidências de transferência, isto é, da capacidade de aplicar o conhecimento em contextos autênticos de desempenho.
Ao integrar as três dimensões em uma única jornada, a aprendizagem deixa de ser apenas transmissão de conteúdo e passa a ser desenho de experiência capaz de converter conhecimento em comportamento e comportamento em performance, encurtando a distância entre aprender e conseguir fazer.
Na prática, isso altera a natureza da experiência. Em vez de workshops unidimensionais que se encerram em reflexões superficiais ou role plays descolados da realidade, o TikTok estrutura ciclos de prática deliberada. Os conceitos são imediatamente tensionados por exercícios aplicados a casos vivos (dimensão cognitiva); emoções são reguladas em simulações de rejeição ou pressão temporal (dimensão socioemocional); e os microcomportamentos são observados e ajustados entre pares em tempo real (dimensão psicomotora). O resultado é um ensaio intensificado das condições que o negócio exige no campo.
Exemplificando as três dimensões desse deslocamento em um treinamento em vendas, o TikTok Way of Selling, os conceitos estratégicos são a parte cognitiva, as simulações de objeções e rejeições correspondem à dimensão psicomotora e o treino de microcomportamentos que constroem credibilidade em reuniões presenciais ou virtuais é a dimensão socioemocional. O desempenho esperado? Conseguir sustentar conversas complexas, gerenciar a pressão emocional e alinhar gesto, voz e argumento em uma narrativa coerente.
No design tridimensional, a aprendizagem já nasce orientada para a aplicação. Cada módulo prevê tarefas explícitas de aplicação – onde, quando e com quem praticar – e mecanismos de registro que alimentam a plataforma com evidências de uso real. Assim, a fronteira entre treinar e trabalhar se dissolve: a formação é concebida como uma versão intensificada do próprio trabalho.
Os efeitos estratégicos desse deslocamento são diretos:
1. Redução do hiato entre saber e conseguir fazer: o conhecimento só é valioso quando se converte em performance verificável – e o design tridimensional acelera essa conversão.
2. Consistência cultural: ao tratar emoção, cognição e ação como dimensões indissociáveis, a organização sinaliza que performance não é apenas domínio técnico, mas também capacidade de regular emoções e agir com credibilidade sob pressão.
OS PRINCÍPIOS E DESLOCAMENTOS do “TikTok Way of Learning” devem se configurar como um laboratório vivo nas empresas. À medida que a desintermediação rompe a pirâmide tradicional e redistribui a legitimidade pedagógica, isso permite que o conhecimento circule na mesma velocidade em que é produzido no campo. O design tridimensional dissolve a dicotomia entre hard e soft skills, integrando cognição, emoção e ação em ciclos de prática que simulam as condições reais de trabalho sob pressão. Já a lógica de plataforma transforma cada prática em insumo de rede, fazendo com que a aprendizagem se expanda pelo efeito da interação contínua, e não por meio de trilhas curriculares estáticas.
Mais do que ajustes metodológicos, esses movimentos representam uma mudança de regime: da aprendizagem como evento periférico para a aprendizagem como infraestrutura organizacional.
Esse movimento também dialoga com reflexões recentes de Roger Spitz e Lidia Zuin em The Definitive Guide to Thriving on Disruption. Os autores sugerem que prosperar em cenários de instabilidade não significa resistir nem simplesmente adaptar-se, mas desenvolver antifragilidade, agência e capacidade de foresight. Sistemas vivos prosperam porque se fortalecem com o inesperado: aprendem com o erro, com a experimentação e com a interação contínua. O TikTok Way of Learning encarna esse princípio. Cada prática registrada, cada ritual cultural e cada champion legitimado não apenas contribuem para resolver problemas imediatos, mas aumentam a resiliência coletiva e tornam a organização mais preparada para futuros incertos.
A PRÓXIMA VANTAGEM COMPETITIVA EM APRENDIZAGEM CORPORATIVA não virá, conforme as evidências sugerem, de novos formatos de curso ou de maior investimento em tecnologia isolada, mas da capacidade de operar como uma plataforma viva – um sistema que aprende no ritmo do negócio, transforma cada prática em recurso coletivo e legitima a liderança não apenas pela hierarquia, mas pela influência cultural. O que começou como salto de engajamento em um programa específico no TikTok Brasil aponta para uma tese mais ampla: em um mundo de aceleração tecnológica, uma condição cada vez mais necessária para sustentar prosperidade organizacional é tratar a aprendizagem como infraestrutura estratégica.
BYTEDANCE. “TikTok Way of Learning” – LATAM [Manifesto]. Documento interno não publicado, 2024..
BROWN, Peter C.; ROEDIGER, Henry L. III; McDANIEL, Mark A. Make it stick: The science of successful learning. Cambridge, MA: Belknap Press of Harvard University Press, 2014.
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SPITZ, Roger; ZUIN, Lidia. The Definitive Guide to Thriving on Disruption. San Francisco: Disruptive Futures Institute, 2023.
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