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O próximo salto dos bancos não será medido pelo número de tecnologias

Oito em cada dez bancos tratam a experiência do cliente como diferencial, mas só dois usam IA em escala nessa frente.

Cíntia Scovine Barcelos
10 min de leitura
O próximo salto dos bancos não será medido pelo número de tecnologias

A Febraban Tech 2026, realizada entre 24 e 26 de agosto em São Paulo, marcou sua maior edição da história, consolidando-se como o principal ponto de encontro para líderes dos setores financeiro, de tecnologia e de inovação do país. O evento registrou um público recorde de 70 mil visitas com 220 painéis.

O tema central deste ano foi “Agentes inteligentes, liderança humana”, refletindo a principal transformação do mercado: a passagem da experimentação com Inteligência Artificial (IA) para sua aplicação em larga escala, ocupando um espaço central nas discussões sobre estratégia, arquitetura, experiência do cliente, segurança e modelo operacional. Os agentes inteligentes chegaram ao centro da agenda, trazendo a perspectiva de sistemas que não apenas respondem, mas compreendem objetivos, acessam informações, utilizam ferramentas e executam etapas de processos.

Essa evolução está redefinindo o trabalho no setor financeiro, com a formação de “squads híbridos” onde humanos orquestram tarefas executadas pela IA. Essa nova realidade impulsiona o conceito de “negócios autônomos”, onde agentes agirão em nome dos clientes, exigindo novas formas de governança, como o “Know Your Agent” (KYA), para garantir a segurança, a identidade e a credibilidade das operações automatizadas.

A segurança e a infraestrutura tecnológica foram pilares centrais dos debates. A cibersegurança emergiu como a prioridade máxima para todos os bancos, com a própria IA sendo usada para fortalecer as defesas contra ameaças cada vez mais sofisticadas. Para suportar essa transformação, a computação em nuvem foi consolidada como a base essencial para a inovação. Além disso, a busca pela hiperpersonalização em tempo real, utilizando grandes volumes de dados para entender o contexto do cliente, foi um tema chave, embora ponderada pela necessidade de governança e análise de custo-benefício.

Por fim, o evento abordou a maturação de novas infraestruturas financeiras e tecnologias emergentes. O Open Finance foi apresentado como uma ferramenta consolidada para aprimorar a análise de crédito, enquanto a tokenização de ativos, impulsionada pelo Drex, avança de uma fase experimental para uma agenda concreta, apesar dos desafios regulatórios. O setor também demonstrou estar atento ao futuro, explorando o impacto de tecnologias em ascensão, como a computação quântica, e se preparando para as transformações que elas trarão em novos negócios e segurança.

Novidades da Pesquisa Febraban

A pesquisa de 2026 mostra um crescimento de 8% em relação a 2025 em investimentos em tecnologia com um total de mais de R$ 50 bilhões no setor. As prioridades são cibersegurança, cloud e inteligência artificial. Essas tecnologias são utilizadas nas estratégias de diferenciação: experiência do cliente, segurança e privacidade de ponta, inovação tecnológica, personalização de produtos e serviços e sustentabilidade e responsabilidade social (ESG).

A captura de valor da IA está concentrada em eficiência e produtividade e os principais casos de uso estão em análise de risco de crédito, assistentes virtuais, know your customer (KYC) e agentic AI para automação. Os agentes de IA avançam, mas a escalabilidade ainda é o principal desafio, reforçando a necessidade de controles e governança. Segurança e privacidade se mantêm prioritárias, com os bancos utilizando IA para fortalecer suas estratégias, principalmente na prevenção à fraude e cibersegurança.

Houve um aumento de 169% das transações no mobile banking nos últimos cinco anos, que já é responsável por 78% das transações realizadas e 76% dos clientes são “heavy users” dos canais digitais.

Os bancos também irão aumentar em 22% os profissionais na área de tecnologia. São talentos especializados em desenvolvimento, IA, arquitetura e DevOps. O investimento em treinamentos de tecnologia foi de 61,9 milhões de reais com estratégias sólidas de requalificação.

O volume orçamentário é expressivo, mas, isoladamente, diz pouco sobre a transformação que será entregue. O orçamento viabiliza plataformas, infraestrutura e capacidade computacional. A geração de valor depende da qualidade das escolhas, da maturidade dos dados, do desenho dos processos e da capacidade das pessoas de incorporar a tecnologia ao modelo operacional.

A pesquisa revela uma distância importante entre ambição e capacidade operacional. Embora 80% dos bancos considerem a experiência do cliente uma estratégia de diferenciação, apenas 20% utilizam IA em larga escala nessa frente.

Esse é um dos dados mais relevantes do estudo. O setor já reconhece a prioridade e tem acesso à tecnologia. O desafio está em percorrer o caminho entre experimentar uma solução e transformá-la em uma capacidade confiável, integrada à operação e percebida pelo cliente.

Para saber mais, acesse aqui a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026.

O Bradesco na Febraban Tech – de casos de uso para capacidade organizacional

O Bradesco teve uma presença marcante no evento, com seus principais executivos reforçando o foco em inovação, eficiência e na aplicação prática e ética da tecnologia. Mostramos como a próxima fase da tecnologia bancária não será definida pela quantidade de ferramentas adotadas. O desafio é combinar IA, cloud, dados, segurança e arquitetura para resolver problemas relevantes de negócio e se tornar uma organização AI Powered, onde IA deixa de ser um recurso isolado e passa a operar como infraestrutura do negócio, integrada aos produtos, às decisões, à engenharia e à experiência.

Uma prova de conceito pode demonstrar que determinado modelo funciona em condições controladas. Colocar essa solução a serviço de milhões de clientes exige dados governados, integração com sistemas críticos, observabilidade, controle de custos, segurança e responsabilidades claramente definidas.

No Bradesco, essa visão levou à criação da Bridge, nossa plataforma corporativa de inteligência artificial generativa. Com uma arquitetura multicloud e multi-LLM, ela conecta modelos, sistemas, dados, agentes e ferramentas, incorporando segurança, privacidade, FinOps, observabilidade e governança. Hoje, reúne mais de 830 casos de uso e mais de 170 projetos.

A b.ia clientes, que completa dez anos em 2026, materializa essa estratégia na relação com os clientes. Ela evoluiu de assistente virtual para um concierge conversacional e transacional, com mais de 3 bilhões de interações históricas e resolutividade próxima de 90%. Os agentes de IA compreendem o contexto de cada interação para personalizar as jornadas de clientes, funcionários e parceiros em tempo real. O volume de dados das interações é usado para entender a intenção dos usuários e gerar insights para a criação de produtos financeiros mais dinâmicos, como limites de crédito ajustáveis e renegociações automáticas.

A mesma fundação se desdobra na b.ia corporativa, voltada aos funcionários, e na b.ia tech, aplicada à engenharia e à modernização tecnológica. O Bradesco mostrou os casos utilizando AI-DLC em que humanos revisam os entregáveis gerados por IA. Além disso, o banco investe em “AI Apps”, agentes específicos para tarefas como resumir documentos, facilitando a adoção da tecnologia pelos funcionários.

O Bradesco adota práticas de “security by design”. Isso significa que a cibersegurança não é tratada como uma camada externa ou uma verificação final, mas sim como um componente essencial integrado em todas as fases de desenvolvimento de novos produtos e tecnologias. Na preparação para a computação quântica, o Bradesco demonstrou uma visão de longo prazo sobre cibersegurança. A computação quântica tem o potencial de quebrar os sistemas de criptografia atuais, e o fato de o banco já estar se preparando para essa transição mostra que sua estratégia de segurança visa não apenas as ameaças presentes, mas também os desafios futuros.

As decisões que cabem à liderança

O desafio das lideranças de tecnologia já não está apenas em escolher as ferramentas corretas. Está em decidir como e em qual ritmo essas capacidades devem ser incorporadas ao negócio.

Essa próxima etapa exige cinco decisões. A primeira é definir o valor antes da tecnologia. A segunda é avaliar se o processo possui maturidade suficiente para receber IA ou se precisa ser redesenhado. A terceira é construir plataformas, dados e controles reutilizáveis. A quarta é calibrar a autonomia de acordo com o risco. A quinta é medir impacto, e não apenas adoção.

Também será necessário preparar as pessoas para novos papéis. À medida que agentes assumem partes da execução, profissionais passam a dedicar mais tempo à formulação de problemas, ao contexto, à arquitetura, à validação e à tomada de decisão. Isso não reduz a importância do conhecimento técnico. Torna esse conhecimento ainda mais necessário para avaliar e responder pelo trabalho produzido com apoio da IA.

Nesse cenário, o CTO deixa de ser apenas responsável pela execução tecnológica. Passa a atuar como arquiteto da estratégia, conectando decisões de tecnologia a crescimento, eficiência, experiência, resiliência e confiança. O próximo salto dos bancos não será medido pelo número de tecnologias adotadas, mas pela qualidade das decisões que conseguirem tomar com elas.

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Cíntia Scovine Barcelos
Cíntia é CTO do Bradesco responsável por arquitetura, infraestrutura, operações, cibersegurança, dados e inteligência artificial. Membro do conselho do Bradesco Europa e da Kunumi. Graduada em Engenharia Eletrônica pela UFRJ, concluiu o Advanced Management Program em Harvard e tem um MBA pelo IBMEC.

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