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IA e Dados

O corpo humano está se tornando um conjunto de dados

Sensores, exames de imagem e inteligência artificial caminham para permitir o acompanhamento de mudanças fisiológicas com um nível de detalhe sem precedentes, transformando o próprio corpo em fonte contínua de dados clínicos

Gustavo Meirelles
5 min de leitura
O corpo humano está se tornando um conjunto de dados

Em junho, a Midjourney, conhecida pelas ferramentas de geração de imagens por inteligência artificial, apresentou uma iniciativa bastante diferente de seu negócio original: um projeto de scanner de ultrassom de corpo inteiro. O sistema utiliza um grande número de elementos ultrassônicos para captar sinais de diferentes ângulos e reconstruir imagens tridimensionais do organismo. A meta anunciada pela empresa é, no futuro, reduzir o tempo de aquisição para cerca de 60 segundos.

A tecnologia ainda está em desenvolvimento, mas ajuda a ilustrar uma transformação mais ampla: estamos adquirindo uma capacidade sem precedentes de converter sinais produzidos pelo corpo em dados digitais.

Durante praticamente toda a história da medicina, o conhecimento sobre um paciente foi construído a partir de retratos no tempo: um exame de sangue, uma radiografia, uma consulta. Cada procedimento registrava um determinado momento de uma realidade fisiológica que está em permanente movimento.

Hoje, sensores vestíveis já acompanham frequência cardíaca, sono, glicemia e padrões respiratórios por períodos prolongados. Algoritmos aplicados a exames tradicionais conseguem identificar padrões que não são perceptíveis a olho nu. E novas tecnologias de imagem ampliam a quantidade de informações que podem ser capturadas em um único exame.

A diferença está na possibilidade de conectar esses registros. Em vez de observar apenas como o organismo está em determinado momento, podemos começar a acompanhar como ele se comporta ao longo do tempo. É a transformação da saúde baseada em avaliações pontuais para um modelo de cuidado contínuo e capaz de observar trajetórias.

É aí que a inteligência artificial ganha relevância. O volume de informações produzido continuamente pelo corpo está muito além da capacidade humana de análise individual. Algoritmos podem comparar milhares de variáveis, identificar padrões e destacar alterações que merecem investigação. A tecnologia, nesse cenário, não substitui o julgamento clínico. Ajuda a tornar visível aquilo que seria impossível perceber apenas pela observação humana.

Mas mais dados não significam necessariamente mais conhecimento. Um fluxo contínuo de informações sem contexto clínico, validação adequada ou integração ao histórico do paciente pode produzir ruído, ansiedade e sobrediagnóstico. A questão central não é quantos dados conseguimos capturar, mas quanto deles conseguimos transformar em informação clinicamente relevante.

Quando o corpo passa a contar uma história

Essa capacidade de acompanhar trajetórias pode ser especialmente importante para doenças que evoluem silenciosamente. Diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares e outras condições crônicas podem produzir alterações muito antes de um evento clínico se tornar evidente.

Se conseguirmos identificar essas alterações com antecedência, a saúde ganha algo extremamente valioso: tempo. Para diagnosticar, investigar e intervir antes que uma alteração silenciosa se transforme em um evento clínico.

Mas observar mais também significa assumir novas responsabilidades. Quem terá acesso a esses dados? Como serão armazenados e utilizados? E até onde uma previsão sobre o futuro biológico de uma pessoa poderá influenciar decisões de terceiros?

Quanto mais detalhado se torna o retrato fisiológico de cada indivíduo, maior é a importância da governança desses dados. Não estamos falando apenas de proteger um resultado de exame, mas de cuidar de um histórico biológico capaz de revelar padrões, tendências e probabilidades sobre o futuro.

Para os profissionais de saúde, isso exigirá uma capacidade cada vez maior de interpretar trajetórias, e não apenas resultados isolados. Será preciso distinguir uma variação normal de um sinal de alerta e compreender o significado daquela alteração dentro da história de cada paciente.

No fundo, o que está surgindo é uma nova forma de observar o corpo. Durante séculos, a medicina precisou esperar que os sinais aparecessem para investigá-los. Agora, sensores, exames de imagem e inteligência artificial podem permitir que acompanhemos esses sinais enquanto eles ainda estão se formando.

O corpo passa a falar, e o tempo todo. O desafio da medicina será aprender a escutá-lo sem transformar toda informação em diagnóstico – e fazer dessa capacidade de observar mais uma ferramenta para cuidar melhor.

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Gustavo Meirelles
É vice-presidente médico e de relações institucionais da Afya, fundador da Comunidade Inovação em Saúde, apresentador do ExpertCast, investidor e conselheiro de empresas de saúde e tecnologia. Médico radiologista, com especialização, doutorado e pós-doutorado no Brasil e no exterior. Tem experiência como executivo de grandes empresas de saúde, com MBA em gestão empresarial.

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