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A IA não é uma transformação tecnológica. É um redesenho organizacional

O que os hospitais podem ensinar

Mohamed Parrini
6 min de leitura
A IA não é uma transformação tecnológica. É um redesenho organizacional

As grandes revoluções tecnológicas não se distinguem apenas pelas coisas que são criadas, mas pela ruptura e pela destruição que provocam no mundo até então vivido. A escrita foi uma das primeiras grandes tecnologias cognitivas da humanidade, pois retirou a memória dos limites do cérebro individual e permitiu que conhecimento, leis e instituições sobrevivessem às pessoas que os criaram. Muito tempo depois, inovações como a máquina a vapor, a imprensa, a ferrovia, a eletricidade, o telégrafo, o computador e a internet ampliaram sucessivamente as dimensões da potência humana e encurtaram distâncias e tempo.

Agora, a inteligência artificial parece inaugurar uma ruptura de natureza semelhante, mas sobre um território que permanecia muito mais protegido: o trabalho cognitivo. Não porque as máquinas tenham adquirido uma inteligência humana, mas porque operações que antes dependiam de tempo e expertise humanos, como interpretação de linguagem, reconhecimento de padrões, programação e seleção de alternativas, podem agora ser reproduzidas a um custo marginal progressivamente menor. Ainda é cedo para estimar a dimensão final dessa transformação, mas algo nos faz perceber que estamos diante de uma tecnologia que pode alterar o preço dessa cognição. E, quando uma civilização que, ao longo do último século, deslocou progressivamente o valor econômico da força física para o conhecimento e a decisão vê modificada essa arquitetura, um novo sistema talvez já esteja surgindo.

A empresa moderna é, em grande medida, uma tecnologia social construída para organizar inteligência humana escassa, adquirindo e distribuindo conhecimento entre especialistas por meio de hierarquias que conduzem a informação e estabelecem processos para reduzir incertezas e permitir uma execução coordenada. Grande parte da administração e da gestão do século 20 nasce e cresce a partir dessa lógica. A IA não elimina essa lógica, mas pode modificar algumas de suas premissas fundamentais. Se análise, memória, produção de conteúdo, reconhecimento de padrões e parte da recomendação decisória podem ser ampliados exponencialmente por softwares, então a questão relevante passa a ser que parte das organizações deixará de ser essencialmente humana. É nesse ponto que a IA deixa de ser apenas uma tecnologia da informação e passa a ocupar o centro da perspectiva organizacional. Sua consequência mais importante talvez não esteja relacionada à produtividade, mas à necessidade de uma reflexão mais profunda sobre o papel da própria empresa, das profissões e do trabalho em um mundo ainda amplamente herdado da era industrial.

Quando meus filhos adolescentes me questionam sobre qual profissão escolher, confesso que fico sem saber o que responder. Mesmo sendo mentor de profissionais experientes que vivem desafios e dilemas do presente, sinto que não estou qualificado para imaginar o futuro profissional dos meus próprios filhos daqui a 20 anos. Então, limito-me a orientá-los para que sejam leitores vorazes e diversificados e, principalmente, que desenvolvam suas habilidades humanas. Trabalhar, cada vez mais, significará vocação, contribuição e pertencimento.

Quando meus filhos adolescentes me questionam sobre qual profissão escolher, não sei o que responder. Não me sinto qualificado para imaginar o futuro profissional dos meus próprios filhos daqui a 20 anos. Limito-me a orientá-los para que sejam leitores vorazes e diversificados e, principalmente, para que desenvolvam suas habilidades humanas

E se quisermos entender como será o cotidiano dessas profissões guiadas pela vocação, precisamos olhar para onde a técnica e a humanidade já convivem sob máxima pressão. É justamente nesse sentido que os hospitais se tornam um laboratório privilegiado para pensar a empresa e a sociedade do futuro. Poucas organizações reúnem, simultaneamente, tamanha intensidade de conhecimento, riscos, dados, emoções, interdependência entre especialistas e pressão por decisões rápidas. Essa tensão entre cérebro e emoção, ciência e julgamento, algoritmo e experiência, eficiência e vocação talvez antecipe o dilema que muitas empresas enfrentarão com a expansão da inteligência artificial.

Os hospitais ensinam que organizações complexas não podem ser administradas apenas pela substituição de pessoas por tecnologia. Quanto mais sofisticados se tornam os sistemas, maior é a necessidade de definir com precisão onde termina a recomendação algorítmica e começa a responsabilidade humana; quais decisões podem ser automatizadas e quais exigem contexto, ética e interpretação; quais conhecimentos devem permanecer concentrados em especialistas e quais podem ser distribuídos por toda a organização. A empresa do futuro poderá se parecer menos com a fábrica industrial, organizada em torno da divisão rígida do trabalho, e mais com um hospital de alta complexidade, onde políticas e processos são essenciais, mas a dimensão humana permanece central.

O aprendizado fundamental talvez seja que o futuro das organizações não dependerá apenas de quanta inteligência artificial conseguiremos incorporar, mas de nossa capacidade de redesenhar instituições nas quais a inteligência humana e a artificial possam coexistir sem que a eficiência substitua o julgamento humano e sem que a tecnologia nos traga, além da preguiça intelectual, também a preguiça moral. E, enquanto mantivermos essa chama humana viva, meus filhos poderão se sentir plenos na profissão que escolherem, entendendo o valor do trabalho em suas próprias vidas.

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Mohamed Parrini
Mohamed Parrini é CEO do Hospital Moinhos de Vento. Possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Mestrado em Filosofia pela PUCRS na área de Metafísica e Epistemologia. Também possui Extensão Executiva pela Harvard Business School, com ênfase em Estratégia, e também pelo MIT Sloan, com ênfase em Inovação. Atualmente é Membro do Conselho de Administração da Anahp (Associação Nacional dos Hospital Privados) e Global Advisory Board Member na Klas Research. Ao longo de sua carreira, já atuou em diferentes setores, como Diretor para América Latina das redes hoteleiras Starwood & Marriott, CFO no setor de Oil&Gas, e executivo na consultoria Arthur Andersen. Mohamed foi reconhecido em 2019 como CEO do Ano, no Prêmio Destaques da Saúde pela FEHOSUL & AHRGS, e eleito como um dos 100 mais influentes da saúde na última década.

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