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Diário de bordo: cultura de IA e transformação da força de trabalho

Por que construir uma cultura de inteligência artificial é um exercício — necessário e urgente — de visão ampliada para preparar as organizações para o que está além do horizonte da revolução digital

Daniele Botaro
1 de outubro de 2025
8 min de leitura
Diário de bordo:  cultura de IA e transformação da força de trabalho

Este artigo marca o início de uma nova série em que compartilho minha experiência à frente de um cargo inédito na Oracle América Latina: AI culture & workforce readiness strategist, algo como “estrategista de cultura de inteligência artificial e prontidão da força de trabalho para a IA”. Mais do que relatar uma transição profissional, o objetivo é propor uma reflexão prática: por que esse papel se tornou necessário — e estratégico — em empresas que desejam adotar inteligência artificial com consistência, responsabilidade e impacto real na cultura organizacional? Vou abordar aqui o porquê desse cargo, suas responsabilidades, perfil e desafios, por meio de experiências práticas e reais. 

Para começar, trago o contexto que me levou a essa mudança e a oportunidade concreta que enxergo: acelerar a adoção da IA e, ao mesmo tempo, criar oportunidades  para que mais pessoas façam parte dessa transformação.

A inteligência artificial está redesenhando o cenário organizacional brasileiro de formas que vão muito além da automação tradicional. Em um país onde a inovação tecnológica frequentemente enfrenta resistências culturais e estruturais, a adoção da IA para impulsionar produtividade e fomentar inovação apresenta desafios únicos. Surge, com esse movimento, a necessidade de requalificar colaboradores, repensar cargos, tarefas e competências e evoluir para uma cultura organizacional que adote a IA como aliada, e não como uma ameaça.

No entanto, muitos profissionais brasileiros, quando deixados sozinhos para explorar esse novo território, se sentem sobrecarregados, receosos de perder seus empregos ou céticos quanto à aplicabilidade da inteligência artificial em suas rotinas. É tentador presumir que colaboradores, conhecidos pela resiliência, adaptabilidade e criatividade características do Brasil, vão naturalmente absorver os conceitos de IA por iniciativa própria. Contudo, essa abordagem é não apenas ineficaz, mas prejudicial à saúde organizacional. 

A inteligência artificial está redesenhando o cenário organizacional brasileiro… Surge, com esse movimento, a necessidade de requalificar colaboradores, repensar cargos, tarefas e competências

Sem orientação clara, esses profissionais se deparam com um excesso de informações incertas e contraditórias, especialmente em um contexto em que o acesso à internet é amplo, mas a qualidade das fontes nem sempre é confiável. Diante de tantas possibilidades, muitos ficam paralisados e não conseguem traçar um caminho claro para aplicar a inteligência artificial de forma prática e benéfica em seu dia a dia.

Essa fragmentação na adoção da IA dentro das organizações cria silos prejudiciais. Por exemplo, enquanto um time de marketing utiliza a IA para personalizar campanhas, outras áreas, como recursos, humanos podem permanecer alheias às possibilidades de análise preditiva para retenção de talentos. Mais preocupante ainda é o risco de uso inadequado da tecnologia, especialmente considerando que a Lei Geral de Proteção de Dados regula o uso de informações pessoais no país. Em resumo: deixar colaboradores navegarem a IA sem suporte só alimenta inseguranças, inconsistências e vulnerabilidades, pois equipes precisam de clareza, confiança e um caminho bem traçado para abraçar a IA como ferramenta de transformação.

A solução estratégica

O cargo de estrategista de cultura de inteligência artificial e transformação organizacional vai além do escopo tradicional de recursos humanos. Trata-se de um papel estratégico, integrado às operações centrais, responsável por alinhar a adoção da tecnologia aos objetivos de negócio. Em outras palavras: estudar IA sem colocá-la em prática pouco contribui para a transformação real. Diferentemente de outras inovações, aqui o aprendizado é indissociável do uso: você não precisa estudar IA para saber, você precisa estudar IA para usar. Cabe a esse profissional desmistificar o tema, promover a experimentação, estruturar casos práticos e ampliar o acesso ao conhecimento — criando, assim, uma cultura que incorpora a inteligência artificial de forma ativa e intencional em toda a organização.

Na Oracle, um dos primeiros projetos conduzidos nesse sentido foram workshops práticos com o time de assistentes executivas. A proposta foi demonstrar, de forma aplicada, como a inteligência artificial pode automatizar tarefas rotineiras, liberando tempo para atividades mais estratégicas e de maior valor para os executivos — seus principais clientes internos. O impacto foi imediato: o que antes era visto como uma ameaça passou a ser compreendido como oportunidade. A equipe, então, elaborou um plano de ação para implementar melhorias concretas nos processos. Essa mudança de postura é essencial para que a adoção da IA saia do discurso e se traduza em resultados reais e sustentáveis.

Em resumo, contar com um estrategista de cultura de IA e transformação da força de trabalho não é apenas uma reação às mudanças tecnológicas, mas um investimento no futuro do negócio

Outra frente de atuação desse estrategista é o mapeamento das habilidades, tarefas e funções atuais dos colaboradores, com foco na identificação das competências que serão exigidas no futuro. Esse pente fino, feito de forma customizada para cada time, gera efeitos para além da produtividade: permite identificar quais talentos e perfis serão fundamentais para o novo momento do negócio. Um estudo da Microsoft, mapeou, por exemplo, 40 profissões mais impactadas pela inteligência artificial — principalmente carreiras que dependem de linguagem, computação, matemática ou atividades repetitivas. Sem clareza sobre as funções e competências que a organização precisará nos próximos ciclos, como tomar decisões estratégicas sobre contratação, retenção e transição de pessoas?

Igualmente importante é garantir que a IA seja usada de forma ética e segura. No Brasil, onde a confiança do consumidor na tecnologia está diretamente ligada à transparência, esse papel é crucial para educar sobre privacidade de dados e conformidade com a legislação local, protegendo empresas de riscos legais e reputacionais.

A pessoa na função de estrategista desempenha papel central na transformação cultural, integrando alfabetização em IA aos processos de onboarding, métricas de desempenho e metas de inovação. Segundo relatório da McKinsey de 2024, empresas com programas robustos de requalificação em IA aumentam produtividade em fluxos de trabalho integrados em 20 a 30%.

Em resumo, contar com um estrategista de cultura de IA e transformação da força de trabalho não é apenas uma reação às mudanças tecnológicas, mas, sim, um investimento no futuro do negócio. Ao orientar as equipes diante das complexidades da inteligência artificial, enfrentar inseguranças e cultivar uma cultura de aprendizado contínuo, as empresas estarão mais preparadas para transformar incertezas em oportunidades e construir organizações realmente preparadas para o que vem pela frente.

No próximo artigo, vou compartilhar estratégias de como criar um business case interno que demonstre, comprovadamente, a relevância desse cargo dentro da sua organização e quais os benefícios dessa estratégia de cultura de IA para o futuro do seu negócio. Até lá.

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Daniele Botaro
AI Culture & Workforce Readiness Strategist da Oracle para a América Latina, Daniele também é embaixadora da Gaia+ e foi empreendedora e sócia-diretora, da Impulso Beta, consultoria especializada em programas de diversidade.

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