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Com foco apenas no ROI, empresas deixam de lado responsabilidade socioambiental e equidade e colocam em risco seu próprio futuro
Não é segredo para ninguém que este foi um ano difícil para a sustentabilidade corporativa. Pouco tempo atrás, as grandes empresas estavam ansiosas para divulgar metas ousadas de sustentabilidade ou de equidade.
Mas, hoje, nos Estados Unidos, a maioria delas quer evitar chamar a atenção para esses tópicos. Embora eu acredite que a maioria ainda esteja trilhando esse caminho (em graus variados), dá para perceber que as organizações sentem calafrios quando tais temas são mencionados.
As razões para o mal-estar em torno da sustentabilidade são claras. Existem campanhas agressivas nas redes sociais contra as empresas que se comprometeram publicamente com causas sociais e ambientais, pejorativamente chamadas de “woke”.Há pressão direta do governo Trump para interromper os esforços nesse sentido.
Com a diversidade, é o mesmo cenário. Salvo raras exceções, não se fala mais nisso. Um estudo da consultoria Gravity Research descobriu que, entre 2024 e 2025, período marcado pela eleição presidencial nos EUA, o uso da sigla “DEI” (Diversidade, Equidade e Inclusão) nos relatórios das empresas listadas na Fortune 100 caiu 98%.
Os impulsionadores fundamentais da sustentabilidade não mudaram. Os desafios que compartilhamos são enormes. O tempo está se esgotando e os riscos são altos demais para que haja um retrocesso.
Mas não é fácil seguir em frente quando aqueles que trabalham com sustentabilidade estão tendo que lutar para justificar seu trabalho, ainda mais depois de um período em que tiveram forte apoio dos altos executivos. Hoje, eles enfrentam um ceticismo renovado e um medo absoluto da liderança sênior.
Isso não é um problema apenas para os que ocupam posições diretamente ligadas ao assunto. Qualquer líder de nível médio que tente, digamos, adquirir materiais mais sustentáveis ou obter energia limpa enfrentará questionamentos e ceticismo.
Como podemos manter o rumo diante da intensa pressão para recuar? A PepsiCo divulgou recentemente metas de sustentabilidade “revisadas”.
É um exemplo de uma multinacional tentando lidar com essa turbulência. Ela está dando continuidade (ou até mesmo expandindo) a esforços importantes em agricultura regenerativa e energia renovável. Ao mesmo tempo, recuou na inovação em plásticos e recipientes reutilizáveis.
Pelo que tenho lido e escutado, a conclusão é que os defensores da sustentabilidade nas empresas devem “refazer o business case”. Trata-se, em parte, de uma reação lógica ao que está vindo do outro lado da mesa de reuniões. Dos executivos de alto escalão que precisam ser convencidos, tenho ouvido afirmações do tipo: “Ainda trabalharemos com sustentabilidade, mas apenas se houver um ROI (retorno sobre investimento) claro”.
Não há nada de errado com o rigor financeiro – ele é, obviamente, essencial. Mas é estranho agir como se alguma vez isso tivesse sido deixado de lado.
Em 25 anos na área, nunca vi uma situação em que os gestores de sustentabilidade não fizessem o business case. Sim, organizações não governamentais e ativistas apresentam argumentos morais e existenciais, e essas razões mais profundas sempre surgirão nas discussões corporativas.
Porém nós, dentro das empresas, sempre descrevemos a justificativa para a ação pró-sustentabilidade, em grande parte, em termos financeiros. Muitas vezes nos concentramos na criação de valor de longo prazo em vez de ganhos rápidos. Mas, sempre, estamos falando sobre dólares.
Portanto, a preocupação que tenho não é “ter que voltar” ao business case em si. Nós nunca o deixamos.
O verdadeiro desafio que vejo é que reduzir a discussão a uma mentalidade de ROI mais básica pode causar danos reais à causa. A seguir, listarei três razões pelas quais eu acho que isso é um problema e cinco formas para lidar com o desafio.
Passei décadas defendendo a sustentabilidade nos negócios. Estou preocupado que um argumento mais restrito, como dar atenção exagerada ao retorno sobre investimento, impeça o progresso em nossos desafios existenciais e torne as empresas (principalmente dos Estados Unidos) menos competitivas.
Aqui estão os três pontos que vejo como problemáticos:
A lógica para uma ação maior em sustentabilidade é mais ampla do que aquilo que esses tipos de métricas dizem. Existem três grupos principais de ação em nossos grandes desafios ambientais e sociais: as empresas e seus líderes têm que agir porque 1) precisam, 2) devem e 3) querem.
Precisam porque as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade e o aumento da desigualdade são ameaças existenciais que podem desestabilizar a sociedade.
Devem porque o aumento das demandas regulatórias (como leis de divulgação das ações na União Europeia e na Califórnia) e as crescentes expectativas dos stakeholders, especialmente consumidores mais jovens e funcionários em todo o mundo, estão exigindo mais das empresas.
Querem porque estratégias sustentáveis e bem-feitas podem criar valores essenciais (custo, risco, receita e marca).
Quando as pessoas dizem para voltarem a tratar de negócios, geralmente se referem apenas a esse último tópico. Mas todas as três partes são importantes e criam uma justificativa mais completa e urgente para ações maiores e mais ousadas.
Como você avaliaria o risco de volatilidade dos combustíveis fósseis que pode ser evitado por meio da descarbonização? Como medir a redução do risco ao se evitar questões de violação de direitos humanos? Como quantificar o maior engajamento dos funcionários resultante de um aumento de salário?
Esses intangíveis criam um valor muito tangível. Por exemplo, ao pagar alguns dos salários mais altos do setor, a varejista americana Costco superou seus pares em uma série de métricas-chave, incluindo rotatividade de pessoal (apenas 8% ao ano, contra uma média do setor de 60%). Além disso, ela é uma das poucas grandes empresas dos EUA que mantiveram publicamente seu compromisso com a diversidade e a inclusão.
As empresas também superestimaram o custo de suas ações. É difícil acompanhar coisas mudando a uma velocidade exponencial, como a grande redução no custo das tecnologias limpas.
A energia solar e eólica são as fontes de energia mais baratas na maioria das regiões do planeta. Veículos elétricos, ao longo de sua vida útil, custam menos para operar.
Que outras ferramentas e tecnologias de descarbonização estão seguindo essa curva? Que economia sua empresa pode estar perdendo se você optar por não investir em tecnologia climática?
Quando você superestima o custo de agir e subestima o valor, você se move mais devagar e de maneira incremental. Pode até ter um progresso, mas não o suficiente para atender ao momento ou ao que a ciência exige.
Então, quando até mesmo pessoas bem-intencionadas dizem coisas como “devemos refazer o business case”, isso carrega uma mensagem um pouco autodestrutiva. Quer dizer que todo o trabalho de sustentabilidade feito até agora não foi bom para os negócios. Faz parecer que a sustentabilidade nunca foi uma escolha estratégica ou um caminho para a criação de valor a longo prazo.
O que os líderes devem fazer? Tenho cinco recomendações.
Raramente houve, se é que houve, um momento como este nos negócios americanos. O medo de cometer erros ou de receber o tipo errado de atenção é real. Mas os desafios que enfrentamos e as pressões para fazer algo a respeito não mudaram – a urgência só cresceu.
Esta é a hora que exige coragem. Precisamos da audácia de fazer a coisa certa para o mundo. Ajude sua empresa a resistir à tentação de reduzir seus esforços de sustentabilidade e diversidade. Faça o business case completo, com coragem, clareza e convicção.
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