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A vantagem competitiva na região dependerá cada vez menos de superar obstáculos e mais da habilidade de explorar plataformas, arquiteturas tecnológicas e investimentos como alavancas de escala
Durante décadas, empreender na América Latina significou enfrentar uma muralha de burocracia, informalidade e custos de transação. Agora, os sinais indicam mudança. Tecnologia, capital e regulação começam a atuar em conjunto, em um novo flywheel.
É o que chamo de “tese do fim da fricção”, no qual esta deixa de ser custo inevitável e se transforma em diferencial competitivo. Isso não significa ausência de problemas, e sim a busca de alinhamento para reduzir atritos e liberar novas formas de produtividade.
O Digital Transformation Report 2025, publicado pelo fundo de venture capital Atlantico, descreve esse movimento na América Latina: identidade digital em massa, inteligência artificial (IA), capital e talento se retroalimentando. Embora baseado em dados regionais, o relatório afirma que esse ciclo é estrutural e conecta a região a uma tendência global.
No Brasil, a identidade digital do cidadão foi consolidada pelo Gov.br. Mais de 80% da população já possui cadastro ativo na plataforma, que funciona como chave única para acessar serviços digitais em diferentes órgãos do Estado e também em empresas privadas, como bancos e fintechs.
Segundo a Atlantico, com base em dados oficiais, desde 2020 o Gov.br já gerou economia fiscal acumulada de R$ 9,7 bilhões, sendo R$ 3 bilhões apenas no primeiro semestre de 2025. Nesse período, foram realizadas mais de 2 bilhões de trocas automatizadas de dados entre sistemas públicos e privados, eliminando etapas burocráticas e reduzindo custos operacionais.
Estamos diante um case em que processos que exigiam autenticação em cartório agora são resolvidos digitalmente por meio de APIs. O que antes era barreira jurídica foi transformado em infraestrutura digital.
A América Latina é uma região hiperconectada. De acordo com levantamentos do We Are Social e do Datareportal, os brasileiros passam, em média, entre 8 e 9 horas por dia conectados à internet, acima de países como Estados Unidos e China. Desse tempo, mais de 40% é dedicado às redes sociais, com o WhatsApp exercendo papel central — acessado diversas vezes ao longo do dia, segundo estimativas de mercado.
Esse padrão de uso intensivo encurta distâncias e acelera ciclos de compra. O Pix, por exemplo, consolidou-se como bem público de baixa fricção e alta capilaridade: em 2024, foram registradas entre 64 e 69 bilhões de transações financeiras, de acordo com o Banco Central, Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e Matera.
O State of AI 2025, relatório global da McKinsey (Estados Unidos), mostra que mais de três quartos (de 75% a 78%) das organizações já utilizam IA em ao menos uma função empresarial — especialmente em tecnologia da informação (TI), marketing e operações.
Especificamente, na América Latina, mais da metade da população do Brasil e do México já utiliza ferramentas de IA ao menos uma vez por semana, e a penetração do ChatGPT está entre as maiores do mundo, segundo a pesquisa da Atlantico.
Um exemplo é a Cloudwalk, fintech do setor de pagamentos, que incorporou IA em todas as áreas — prevenção a fraudes, atendimento ao cliente, pricing e gestão de contas. Segundo a própria empresa, os resultados incluem R$ 15 bilhões em fraudes bloqueadas e mais de 75% dos chamados atendidos por IA, com níveis de satisfação comparáveis aos obtidos por atendentes humanos.
A fricção do capital também está diminuindo. A Associação Latino-Americana de Venture Capital (LAVCA) registra que, após o pico de 2021, o ecossistema se estabilizou em patamar mais seletivo, mas com valores médios de investimento mais altos em rodadas seed e série A. No primeiro trimestre de 2025, o México superou o Brasil em volume total de investimentos de venture capital, sinal de diversificação saudável no ecossistema.
Na infraestrutura digital, o relatório Global Data Center Trends 2025, da CBRE, revela que os quatro maiores mercados da região — São Paulo, Santiago, Bogotá e Querétaro — ampliaram em 13,7% o inventário de data centers no primeiro trimestre de 2025, em relação ao mesmo período do ano anterior.
No campo energético, dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) mostram que a participação de fontes renováveis na matriz elétrica brasileira supera 80% da geração total, o que garante uma vantagem competitiva frente a países como Estados Unidos e China para sustentar operações digitais intensivas em energia.
A lição central é que a América Latina não está apenas digitalizando processos: está redefinindo a lógica de custo e eficiência em seus mercados. A integração entre identidade digital, IA e capital reconfigura a forma como empresas operam e competem. Para executivos e fundadores, isso significa que a vantagem competitiva dependerá menos da capacidade de lidar com obstáculos e mais da habilidade de explorar plataformas públicas e privadas, arquiteturas tecnológicas e investimentos seletivos como alavancas de escala. O desafio, portanto, não é sobreviver à fricção, mas aprender a transformá-la em produtividade sustentável.
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