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Inove para enxergar melhor os seus fornecedores

Aumentar a visibilidade de práticas ao longo da cadeia de fornecimento dá trabalho, mas pode abrir novas oportunidades de mercado e criar valor

Tim Kraft e Yanchong Zheng
24 de julho de 2025
23 min de leitura
Inove para enxergar melhor os seus fornecedores

Em novembro de 2020, executivos de empresas como Amazon, Ikea, Nike e outras igualmente famosas foram sabatinados pelo Parlamento britânico sobre o suposto uso de trabalho forçado por alguns de seus fornecedores. Integrantes do Business, Energy and Industrial Strategy Committee da Câmara dos Comuns estavam investigando a possível exploração de muçulmanos uigures na região de Xinjiang, na China. Na ocasião, os executivos tiveram de responder o que sua respectiva organização fazia para garantir a visibilidade na cadeia de fornecimento e combater formas de escravidão moderna.

Com as práticas de terceirização das empresas sob tamanho escrutínio, a transparência da cadeia de fornecimento passou a ser fundamental. E legislações recentes, como o Modern Slavery Act, do Reino Unido, e o Transparency in Supply Chains Act da Califórnia, dos Estados Unidos, não são os únicos motores dessa tendência. Em setores como vestuário, eletroeletrônicos, alimentos e bebidas, a pressão para que empresas comprovem a adoção de melhores práticas ambientais e sociais na cadeia de fornecimento vem de todos os lados.

O consumidor quer, cada vez mais, entender onde e como os produtos que compra são feitos. E está ativamente recompensando empresas que conhecem sua cadeia de fornecimento e punindo as que não se preocupam com ela. Em paralelo, movimentos como o Fashion Revolution e a Clean Clothes Campaign avaliam e divulgam o grau de transparência de empresas como forma de pressão para que marcas sejam mais transparentes. Investidores também adotam uma postura cada vez mais crítica frente a incidentes que violam boas práticas de ESG: nos EUA, calcula-se que empresas de capital aberto perderam quase meio trilhão de dólares em valor de mercado de 2015 a 2019 devido a incidentes do gênero.

LENTES CRIATIVAS

Na prática, criar uma cadeia de fornecimento transparente não se resume a definir quais informações divulgar ao consumidor; antes de tudo, a empresa precisa enxergar a cadeia. Só que o esforço e os recursos exigidos para monitorar fornecedores diretos (o tier ou camada 1) – e aindamais os indiretos (tier 2) – podem ser exorbitantes, em tempo e dinheiro. Em geral, não é algo exigido por norma ou por lei e, portanto, só é visto como necessário quando surge um problema. Ou seja, convencer a liderança a ser proativa pode ser bem difícil.Neste artigo, sugerimos métodos inovadores para avançar no sentido de enxergar bem a cadeia de fornecimento – e apresentamos evidências do valor que a transparência pode gerar para a empresa.

Auditorias: só o primeiro passo

Normalmente, empresas usam auditorias para monitorar fornecedores diretos e garantir que sua cadeia de fornecimento esteja seguindo práticas responsáveis. Entretanto, auditorias por si só não bastam para se obter real visibilidade dessa cadeia. Primeiro, porque a auditoria produz uma imagem estática das operações do fornecedor em determinado momento. Há evidências de que fornecedores sabem manipular auditorias de modo a ocultar o que não querem que seja visto. A auditoria também consome um volume considerável de tempo e recursos – e o custo reduz sua frequência e restringe seu alcance a fornecedores diretos ou de extrema importância.

O fato, porém, é que problemas mais sérios de natureza social e ambiental em geral estão em pontos mais distantes da cadeia de fornecimento. Um estudo recente de 3.922 relações de fornecimento revelou, por exemplo, que fornecedores indiretos (do tier 2) respondiam, em média, por 18% mais episódios de violação das normas por auditoria do que fornecedores diretos (o tier 1); a incidência entre fornecedores do tier 3 era 27% maior.

Para que auditorias sejam mais eficazes e tenham mais impacto, é preciso ampliar seu alcance. Um exemplo: para monitorar melhor sua cadeia, a Patagonia reduziu em 50% o número de fornecedores no fim da década de 2000. Com isso, consegue auditar todo ano 100% dos fornecedores diretos (tier 1) e um universo de fornecedores indiretos (tier 2) que responde por 80% do custo total da empresa com matéria-prima. Com isso, a relação com fornecedores saiu fortalecida e ficou mais colaborativa, o que ajudou a empresa a ter mais controle e melhorar sua reputação junto ao consumidor.

Embora muitas marcas e fabricantes possam não ter os recursos ou a capacidade de uma empresa como a Patagonia para que o impacto de sua auditoria se faça sentir além de fornecedores diretos, há outras maneiras de exercer influência. Uma delas é se aliar a auditores independentes, a sindicatos locais ou a ONGs que atuem na região do fornecedor em questão. Um exemplo é o do programa Better Work: parte de uma colaboração entre a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a International Finance Corporation (IFC, braço do Banco Mundial), o programa vem fazendo avaliações externas independentes de 1,7 mil confecções de vestuário que, juntas, empregam mais de 2,4 milhões de pessoas em nove países. Atua também em estreita colaboração com governos locais para melhorar leis trabalhistas e assessorar sindicatos para dar mais voz a trabalhadores. Graças a auditorias frequentes e sem aviso prévio, essas iniciativas conseguem detectar, na região, problemas específicos que uma matriz no exterior simplesmente não conseguiria.

Outra saída é somar recursos de várias empresas para fazer, conjuntamente, auditorias de fornecedores em comum. Na esteira da tragédia do Rana Plaza em 2013, quando o edifício em Bangladesh ruiu matando mais de 1,1 mil trabalhadores, ficou patente que muitas marcas e varejistas do setor de vestuário tinham visão bem limitada da cadeia de fornecimento. A pressão que o setor sofreu à época para melhorar condições de trabalho ajudou a deslocar o foco de varejistas europeias da autocertificação para iniciativas de certificação mais colaborativas. Um dos resultados foi o Bangladesh Accord on Fire and Building Safety, um acordo vinculante com vigência de cinco anos voltado a aprimorar e melhor monitorar as condições de trabalho no país. O acordo previa auditorias conjuntas por várias varejistas, com a divisão dos custos.

Outra prática que vem ganhando força é compartilhar resultados de auditorias por meio de terceiros reputados. Provedores de serviços como a plataforma Sedex e ONGs como a Fair Factories Clearinghouse disponibilizam ferramentas e plataformas digitais para ajudar compradores e fornecedores a compartilhar esses resultados de forma mais fácil e eficiente. Essa partilha de informações pode minimizar a duplicação de esforços e reduzir o ônus de auditorias para fornecedores – que em muitos casos precisam se submeter a processos praticamente idênticos de seus distintos compradores. Poder demonstrar esses ganhos de eficiência é fundamental para convencer marcas e fornecedores a participar dessas plataformas inovadoras.Para que iniciativas colaborativas como essas deem certo, ainda há obstáculos a superar. Fabricantes e marcas podem ter receio de compartilhar plenamente dados de auditorias, devido a riscos ligados à propriedade intelectual (PI) e ao temor de que informações comercialmente confidenciais vazem. Líderes da Sedex nos disseram que vencer essa resistência segue sendo um desafio cuja superação vai exigir confiança entre empresas participantes. A adesão de grandes compradores pode ajudar a demonstrar aos demais a credibilidade da colaboração em auditorias.

Outro obstáculo é o fato de que dados de auditorias costumam ser mensurados e interpretados de forma distinta dependendo da empresa. Para sanar essa falta de um vocabulário comum em auditorias de condições sociais e de trabalho no setor de vestuário, marcas, agências governamentais e organizações sem fins lucrativos se uniram e criaram o Social and Labor Convergence Program (SLCP). A iniciativa tem como objetivo criar um framework e uma linguagem comuns para avaliar condições sociais e laborais. O SLCP põe ênfase na coleta e na partilha de dados – e não na interpretação dessa informação, que continua a cargo de cada empresa. Ao criar uma maneira de gerar e compartilhar dados comparáveis no nível setorial, a iniciativa tem o potencial de fazer a discussão avançar do monitoramento e da conformidade com normas para melhoramentos em fábricas.

Embora novas abordagens à auditoria possam dar uma visão melhor do grau de compliance da cadeia de fornecimento, a nosso ver são apenas parte da solução.

Derrubar barreiras

Muitos diriam que tecnologias como a internet das coisas (IoT, do inglês internet of things) e o blockchain são fundamentais para aumentar a visibilidade de cadeias de fornecimento. Dispositivos e sensores de IoT são um meio de coletar dados de desempenho ambiental e social granulares e de alta frequência por toda a cadeia de fornecimento para monitorar aspectos cruciais – como a pegada de carbono de um produto – em cada fase da produção. O blockchain garante a integridade dos dados com ledgers invioláveis para que usuários possam confiar na legitimidade dos dados (como o atestado de que critérios de certificação de comércio justo foram cumpridos).

O aprimoramento da coleta e da partilha de dados permitido por essas tecnologias pode, potencialmente, dar uma visão sobre a cadeia de fornecimento muito superior quando comparada à de auditorias infrequentes. Mas não vai, por si só, garantir a transparência. É preciso eliminar primeiro outros entraves, como limitações de infraestrutura e falta de alinhamento entre stakeholders.

Barreiras de infraestrutura. Muitas cadeias de fornecimento têm origem em regiões subdesenvolvidas do planeta, onde infraestrutura técnica, boas práticas de gestão e até a conscientização sobre questões ambientais e sociais são insuficientes ou inexistentes. Tentar aumentar a visibilidade e melhorar práticas de produção nessas regiões costuma ser difícil para muitas empresas.

Peguemos o caso da Goodio Chocolate, marca finlandesa de chocolate artesanal que se propõe a garantir “transparência radical” na cadeia de fornecimento de seus produtos. A tentativa da empresa de usar blockchain para rastrear insumos e remuneração de trabalhadores na cadeia do cacau foi frustrada por dois grandes motivos. Primeiro, pequenos produtores de cacau utilizados pela Goodio não têm o conhecimento e os recursos para usar uma tecnologia tão avançada como a do blockchain. Segundo, a relação com esses agricultores muitas vezes se rege por acordos verbais – e não contratos formais que poderiam ser rastreados com o blockchain.

Diante disso, há quem busque maneiras inovadoras de ampliar a visibilidade na cadeia de fornecimento com tecnologias mais populares como o celular. Por exemplo, a Sedex (em parceria com o provedor de TI &Wider) e a Elevate (com sua plataforma móvel Laborlink) estão criando soluções para detectar potenciais problemas de segurança e condições de trabalho com a ajuda dos próprios atingidos, criando canais de comunicação seguros para que o trabalhador possa denunciar incidentes por chamada ou mensagem de texto. Essas plataformas dão voz ao trabalhador e, ao mesmo tempo, permitem que fornecedores e compradores saibam rapidamente o que está ocorrendo em suas cadeias, sem depender de auditorias caras e demoradas.

Outro meio eficaz – mas sabidamente menos simples – que vem ganhando força é o uso de análise preditiva e triangulação de dados. Um exemplo: em uma parceria com a Elevate e o uso de vastos volumes de dados obtidos de relatos de trabalhadores, o Global Fund to End Modern Slavery está criando ferramentas preditivas para ajudar compradores a detectar a subcontratação não autorizada e o trabalho forçado em fábricas informais de roupas em Bangladesh e na Índia.

A Sedex também está criando soluções de triangulação de dados que integram fontes diversas (incluindo relatórios de auditoria e relatos de operários) para ajudar a compor um retrato mais fiel do trabalho em fábricas. A nosso ver, o analytics é um dos meios para que a discussão sobre como monitorar a cadeia de fornecimento passe de um modo reativo para uma gestão mais proativa.

Falta de alinhamento entre stakeholders. Muitas empresas não estão culturalmente prontas para partilhar dados. Fora isso, incentivos de distintos participantes de sua cadeia de fornecimento não estão bem alinhados. Esse desalinhamento de metas de parceiros da cadeia é outro grande obstáculo à visibilidade. Cadeias de fornecimento extensas ou nas quais o fluxo de informações é ruim são particularmente suscetíveis a esse desalinhamento. Nem sempre os fornecedores têm o mesmo senso de urgência quanto às exigências de reguladores e outros stakeholders. Muitos fornecedores veem a terceirização e sua própria cadeia de fornecimento como parte de sua proposta de valor a potenciais compradores. De seu ponto de vista, uma maior transparência pode diminuir seu poder de barganha e culminar com sua exclusão da cadeia de fornecimento. Além disso, fornecer os dados exigidos costuma ser visto como um trabalho adicional cuja única finalidade é permitir que o próprio comprador se adeque às normas.

Para promover a transparência dos fornecedores, é possível usar uma série de recompensas e ameaças. Isso vale especialmente para fornecedores pequenos e informais que, historicamente, podem não ter dado muita importância para questões ambientais e sociais. A provedora de ferramentas de mapeamento e rastreabilidade de cadeias de fornecimento Sourcemap, por exemplo, costuma recorrer à força de mercado de seus grandes clientes (como Hershey e H&M) para incentivar fornecedores a partilhar informações. Aliás, muitos fornecedores aderiram originalmente à plataforma da Sedex a pedido de compradores. Embora esses incentivos sejam um primeiro e importante passo para garantir a adesão de fornecedores, nossa tese é que recorrer apenas à “ameaça” não é uma abordagem sustentável.

Para conquistar a confiança de fornecedores, é importante mostrar-lhes a “recompensa” – que pode significar a classificação como fornecedor preferencial, contratos mais favoráveis ou o investimento conjunto em capacitação. Mais eficaz ainda, no entanto, é ensinar fornecedores a enxergar os benefícios da transparência no longo prazo. Como disse Simon McCalla, CEO da Sedex: “Nossa teoria da mudança é ajudar fornecedores a mudar sua mentalidade, a deixar de ver a transparência como um critério a mais a satisfazer e passar a vê-la como uma forma de reduzir custos e, em determinado momento, uma oportunidade de criar valor para a empresa”, como fechar mais contratos e atrair novos compradores.

Embora o processo de educação possa tomar tempo devido à falta de recursos e protocolos por parte dos fornecedores, o benefício no longo prazo é a mudança de mentalidade em toda a cadeia de fornecimento – da mitigação de riscos ao melhoramento proativo. É importante observar que muitas vezes há uma necessidade de educação também no lado do comprador, sobretudo entre altos gestores – já que alguns benefícios intangíveis e de longo prazo do investimento em transparência podem não aparecer imediatamente nos resultados da empresa.

Curiosamente, a transparência às vezes pode ser o próprio incentivo para melhorar o desempenho. Estudos na área da saúde e do consumo de energia mostraram que comparar o desempenho de alguém com o de um grupo semelhante pode ser um fortíssimo meio de promover uma mudança positiva de comportamento. Em nossas conversas com a Sedex, seus líderes disseram que estão investigando como o desempenho relativo na transparência pode ser usado para incentivar fornecedores em sua plataforma a compartilhar mais informações e aprimorar práticas. Uma consideração importante na concepção de um esquema desses é garantir que o componente de competição não leve a práticas antiéticas, com fornecedores cortando caminho para atestar sua conformidade e vencer a disputa por clientes.

A falta de alinhamento também pode ter a ver com a PI. Tomemos o exemplo da GreenBlue, uma ONG ambiental dedicada a aumentar a visibilidade de produtos químicos e substâncias usados em bens e cadeias de fornecimento. Em geral, fornecedores evitam revelar aos compradores a composição química de produtos e insumos usados na fabricação, por medo de revelar segredos comerciais e, com isso, perder sua vantagem competitiva. Para superar esse temor, a GreenBlue criou uma plataforma inovadora, a Material IQ (MiQ), para que fornecedores e compradores compartilhem informações sensíveis de toxicidade química sem divulgar segredos industriais. Fornecedores mandam uma amostra do produto à Scivera, parceira da GreenBlue especializada na avaliação da segurança química, que analisa e classifica a composição química de um produto e os respectivos riscos. Essa informação é incorporada à MiQ para que os compradores que assinam a plataforma possam conferir riscos potenciais do produto – sem ter acesso a informações que possibilitem alguma forma de engenharia reversa.

Gerar oportunidades

Deixar a cadeia de fornecimento mais visível é algo que aumenta a capacidade de monitorar e melhorar práticas ambientais e sociais de fornecedores, embora os potenciais benefícios não parem por aí. A maior visibilidade também pode abrir novas oportunidades no mercado. Vejamos, por exemplo, as pequenas empresas e startups cujo modelo de negócio é baseado no conceito de transparência. Nas indústrias de chocolate e café, em que condições de trabalho precárias e baixos salários nos pontos mais afastados da cadeia de fornecimento são comuns, empresas como a Goodio Chocolate e a Moyee Coffee estão criando propostas de valor centradas na ideia da visibilidade de ponta a ponta. E, no setor de cosméticos, há muito criticado pela falta de transparência sobre potenciais riscos de produtos à saúde, empresas como Beautycounter estão erguendo a marca em torno da ideia de “beleza limpa”.

Para empresas como essas, uma forma de capturar o valor de mercado trazido pela maior visibilidade da cadeia de fornecimento é uma boa divulgação do desempenho ambiental e social dessa cadeia ao público. Com a sustentabilidade se tornando cada vez mais parte integral dos critérios de compra do consumidor, uma comunicação melhor pode levar a vantagens de mercado. É o caso, por exemplo, da Alta Gracia Apparel, que produz roupas e acessórios oficiais de universidades mediante licença para venda em livrarias universitárias e no varejo online. A empresa garante que operários em suas fábricas na República Dominicana recebem salários e benefícios capazes de bancar as necessidades de uma família – salários 340% mais altos do que o exigido por lei. Para testar o valor dessa transparência no mercado, a Alta Gracia e um grupo de pesquisadores fizeram um experimento em uma livraria universitária: quando vídeos mostravam a prática da Alta Gracia de pagar salários dignos a trabalhadores, as vendas de artigos da empresa aumentavam.

Em nosso trabalho de pesquisa, observamos reiteradamente que empresas saem ganhando ao dar mais visibilidade a práticas de responsabilidade social de suas respectivas cadeias de fornecimento. Isso aumenta, por exemplo, a confiança de clientes na empresa e pode reverter em benefícios para a receita, sobretudo quando os clientes tendem a encarar com ceticismo o discurso de responsabilidade social (RSE). Além disso, maior visibilidade pode induzir consumidores menos pautados pelo social a fazer uma avaliação melhor de iniciativas de responsabilidade social de uma empresa.

Empresas voltadas a um mercado global podem exercer uma influência positiva sobre preferências de consumidores ao adaptar sua comunicação de RSE de um jeito mais alinhado com valores culturais de distintas regiões do mercado. Uma cultura que valoriza a competição e a realização pessoal (como a dos EUA) pode ser mais facilmente persuadida por declarações baseadas em fatos, enquanto uma que enfatiza o cuidado com o próximo e a qualidade de vida (como a da Finlândia) pode sentir uma influência maior de relatos de beneficiários.

Uma segunda oportunidade para a empresa vem da eficiência. Uma visibilidade maior ajuda a empresa a direcionar iniciativas de responsabilidade ambiental e social de forma mais eficiente e a avaliar com precisão os resultados. Com isso, é possível canalizar recursos para onde são mais necessários no enfrentamento de questões ambientais e sociais em suas extensas cadeias de fornecimento, além de determinar com que fornecedores realmente vale a pena estabelecer uma relação colaborativa. Isso, por sua vez, respalda a aquisição de competências, algo importante para melhorar a atuação, especialmente em países em desenvolvimento.

A Goodio, por exemplo, compra o cacau diretamente de cooperativas de pequenos produtores no Peru. Graças ao relacionamento estreito com esses fornecedores, a empresa enxerga melhor sua cadeia de fornecimento e pode trabalhar com eles para garantir a qualidade dos grãos de cacau e o tratamento responsável dos agricultores, incluindo preços justos. No longo prazo, o fortalecimento dessas cooperativas pode ajudar a melhorar os métodos dos agricultores e conferir a todos uma vantagem no mercado para cobrar mais pelo produto e ter acesso a um universo maior de compradores.

Um terceiro benefício potencial está em criar oportunidades para assumir uma posição de liderança no setor. Vejamos o exemplo da Taylor Guitars. No início da década de 2010, a combinação de alta demanda e baixa oferta de ébano fez disparar a extração ilegal da madeira, o que expôs muitos fabricantes de violão a riscos regulamentares e de reputação. A Taylor comprava o ébano da madeireira Crelicam, no Camarões, que adquiria a matéria-prima de vários pequenos fornecedores da região.

Em uma viagem ao país em 2011, executivos da Taylor descobriram, por exemplo, que os fornecedores de madeira tinham de derrubar dez árvores em média para encontrar uma na tonalidade desejada, o preto puro. Além disso, foram testemunhas de práticas trabalhistas inadequadas nas instalações da Crelicam. Isso tudo levou a Taylor a comprar a madeireira e a integrar verticalmente a cadeia de fornecimento do ébano. A empresa ainda instituiu normas trabalhistas nas instalações comparáveis às observadas nos EUA. A madeireira passou a aceitar madeira de cor diferente dos fornecedores a preços iguais aos da madeira no preto puro, e a Taylor passou a vender madeira a concorrentes. Utilizando essa dupla posição de fornecedora e produtora, a empresa ajudou a reeducar o mercado – tanto consumidores quanto concorrentes – para aceitar violões feitos com um ébano listrado, aumentando consideravelmente a sustentabilidade das florestas.

A Taylor Guitars não é um exemplo isolado de empresa que exerce um papel positivo na definição de padrões e de condutas do respectivo setor em torno da transparência da cadeia de fornecimento. Na indústria do vestuário, por exemplo, Patagonia e Nike ajudaram a instituir a expectativa de que grandes marcas devem divulgar listas de fornecedores e compartilhar mapas públicos da origem do insumo para seus produtos e onde são feitos.

Já a Starbucks lançou suas Coffee and Farmer Equity Practices em 2004, adotando um dos primeiros protocolos de fornecimento ético no setor. Um aspecto central das Cafe Practices é a transparência: fornecedores são obrigados a prestar informações sobre a origem dos grãos e os preços pagos a cafeicultores. As Cafe Practices permitem que a Starbucks estabeleça relações de trabalho profundas com fornecedores de café e promova práticas éticas de sourcing no setor. Embora a empresa compre apenas cerca de 3% do café mundial, mais de 18% hoje é cultivado seguindo essas boas práticas.

Próximos passos

A transparência da cadeia de fornecimento virou um aspecto crucial nos critérios de compra de consumidores e, hoje, cabe às empresas decidir o quão transparentes querem ser. Mas, antes de tornar cadeias de fornecimento mais transparentes para consumidores e parceiros, é preciso que você enxergue mais o que acontece ali. Isso pode ajudar a mitigar os riscos de supply chain – para trabalhadores, meio ambiente, consumidores, recursos de produção e reputação de uma empresa – e garantir a conformidade com normas sociais e ambientais. Também é crucial para os próximos estágios na evolução de cadeias de fornecimento sustentáveis, que incluem maior troca de conhecimentos, colaboração mais profunda com parceiros e concorrentes e maior responsabilidade de varejistas e marcas sobre aquilo que ocorre em suas cadeias.

Embora auditorias sejam uma ferramenta necessária, as empresas terão de inovar e ampliar seu instrumental, criando novos métodos para dar visibilidade às práticas dos fornecedores. Devem ter em mente também que o processo não se resume a fazer investimentos em tecnologia – requer inovações empresariais que resolvam problemas de infraestrutura e de alinhamento de incentivos.

Para colher os verdadeiros benefícios, no entanto, é preciso uma mudança de mentalidade. Ao educar parceiros da cadeia de fornecimento sobre o valor da transparência, empresas ao longo de toda a cadeia podem ganhar tanto mais eficiência quanto relacionamentos mais colaborativos e capturar potenciais oportunidades de gerar receita. E, ao liderar iniciativas de transparência em seu respectivo setor, a empresa pode se colocar em posição vantajosa para lidar proativamente com exigências de reguladores e ativistas, definir contornos de novas tendências de mercado e abrir novas oportunidades de negócios para si mesma.”

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Tim Kraft e Yanchong Zheng
Tim Kraft é professor-associado de operações e gestão da cadeia de fornecimento e diretor associado de pesquisa da Supply Chain Resource Cooperative na Poole College of Management, da North Carolina State University. Yanchong Zheng é professor titular de gestão de operações da MIT Sloan School of Management.

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