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Em vez de trazer a vanguarda, o festival de inovação é mais bem aproveitado como o lócus das narrativas. Entender isso é essencial para conseguir processá-lo corretamente, bem como entender que ele poderia ganhar um nome alternativo – South by East. Veja o que realmente fez diferença nesta edição
Março nos brindou com mais um South by Southwest (SxSW), festival que há quase 40 anos transforma Austin, no Texas, em uma espécie de capital temporária da inovação, da cultura e das ideias. Nos últimos anos, o evento também ganhou um ingrediente extra: a invasão brasileira. Em certos momentos, caminhar por Austin durante o SxSW parece quase um passeio pela Vila Madalena: bares lotados, português por toda parte e até nossa velha mania de atravessar a rua fora da faixa, para desespero de algum Waymo (sim, o carro autônomo) desavisado.
A esta altura, seu feed provavelmente já está cheio de resumos, tendências e “downloads” do SXSW 2026. E tudo bem: ainda é um privilégio estar lá, e faz sentido que tanta gente queira compartilhar o que viu. Mas este texto não é mais um apanhado das tendências do festival, como você viu por aí. É, antes, uma coleção de leituras que foram surgindo entre uma palestra e outra, caminhando pelas ruas de Austin ou simplesmente observando o que estava (e o que não estava) no centro da conversa.
Aqui vão, portanto, quatro conclusões menos óbvias do SxSW 2026.
A polarização da política nos EUA pegou o SxSW em cheio. Que o festival sempre teve uma veia progressista ninguém duvidava. Mas, minha impressão é que o festival deixou de apenas refletir uma sensibilidade progressista e passou a assumir uma posição mais explícita.
Tive a oportunidade de assistir sessões com o deputado Gabe Amo e o candidato a senador pelo Texas James Talarico, ambos do Partido Democrata, e pude perceber que a plateia também não era assim tão plural, diga-se de passagem. Tinha horas que sentia estar um comício eleitoral.
Talvez a predominância democrata tenha afastado a participação de apoiadores do presidente Trump, mas ainda é estranho para mim ir a um evento sobre tecnologia, nos Estados Unidos, e não contar com a presença de nenhum dos expoentes do mundo tech. Nvidia, Meta, Microsoft, Amazon, Apple, Tesla, Google. Praticamente nenhuma das “Magnificent 7” (as empresas de tecnologia mais valiosas do mundo) estavam presentes de forma contundente.
Com isso, o SxSW virou um evento sem grandes novidades de tecnologia. Na realidade, os maiores anúncios tech da semana aconteceram 2.300 km de Austin, em San Jose, Califórnia, onde Nvidia e seu CEO Jensen Huang lançaram as novidades dos seus chips Blackwell e o novo foco da companhia em inferência, para continuar surfando a demanda trilionária por IA.
Talvez o grande momento do evento foi o anúncio feito pela Amy Webb, a futurista queridinha do festival, do fim do seu aclamado relatório anual de tendências. A narrativa é eloquente e a Amy tem uma presença de palco impressionante. Mas não dá para deixar de pensar que aquilo tudo foi mais uma jogada de marketing do que qualquer outra coisa. Ela não matou o relatório de tendências, ela mudou o formato. Saiu de horizontal para vertical (literalmente!). O que antes apontava tendências hoje vislumbra cenários (quase que literários) criados pela convergência de tecnologias e as ideias da cabeça da Amy.
Na realidade, o que está por trás disso tudo, é que o mundo está mudando rápido demais e a informação gira ainda mais rápido. Simplesmente não dá para guardar segredo e esperar mais um ano para soltar uma novidade. A grande maioria das inovações que ela ilustrou no palco, como o óculos de IA da Even Realities ou a fábrica sem pessoas (e sem iluminação) da Xiaomi, já não são novidades para quase ninguém. Contar algo novo para uma plateia de early-adopters como aquela não é uma tarefa nada fácil.
Por falar em Amy Webb, algo que pode ter passado despercebido pela maioria foi o fato de que a grande maioria dos exemplos de inovações que ela usou para ilustrar seus cenários de convergências eram, na verdade, tecnologias chinesas. Os dois casos que menciono no ponto anterior são belos exemplares disso. Mas também vários dos outros exemplos que ela trouxe como a Xiaoice, um chatbot de IA, os robôs da Unitree e os sistemas agênticos chineses.
Esse fato ficou evidente até mesmo na palestra da MIT Tech Review [revista-irmã desta MIT SMR] sobre as dez tecnologias que irão transformar o mundo em 2026. Da lista, pelo menos 4 tecnologias têm claramente liderança global chinesa. Parece que o polo de inovação está aos poucos mudando de cep e o “sul pelo sudoeste” (tradução literal de South by Southwest) talvez vai ter que olhar mais pro Leste daqui pra frente.
Se há algo que o SxSW continua fazendo como poucos é reunir gente extraordinariamente interessante. Durante seis dias, Austin talvez concentre uma das maiores densidades de pessoas curiosas, talentosas e provocadoras por metro quadrado do planeta. Cada fila vira uma oportunidade de conversa; cada espera entre sessões, uma chance de conhecer alguém que pode acrescentar uma ideia, uma referência ou uma pergunta nova. Para um introvertido convicto como eu, isso ainda exige esforço. Mas nada que duas horas na fila para ver Steven Spielberg não ajudem a resolver.
Talvez o SxSW já não seja o melhor lugar do mundo para descobrir, em primeira mão, as tecnologias mais importantes do futuro. Mas continua sendo um excelente lugar para entender quais narrativas estão disputando esse futuro. E, por isso mesmo, Austin segue valendo a viagem.
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