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Estratégia

Por que o Brasil não deve temer a IA, e sim aproveitá-la para crescer

A história futura do Brasil talvez venha a apontar a inteligência artificial generativa como a maior alavanca de produtividade que vimos em décadas, especialmente se aproveitarmos três ativos-chave: nossa matriz energética, nossa comunidade de software e o agronegócio como fronteira da tecnologia aplicada à biologia

João Pedro Hoerde
15 min de leitura
Por que o Brasil não deve temer a IA, e sim aproveitá-la para crescer

Em algum ponto entre o anúncio do GPT-4 e a disseminação dos agentes de IA, instalou-se no Brasil uma narrativa que mistura medo genuíno com má economia: a de que a inteligência artificial vai destruir empregos em massa, concentrar riqueza nas mãos de poucos e deixar para trás a maioria dos trabalhadores. A narrativa tem apelo emocional, circula em editoriais e discursos sindicais, e é historicamente incorreta. Mais do que isso, aplicada ao Brasil, ela é duplamente equivocada, porque ignora o maior problema real do país, que não é excesso de automação, mas décadas de produtividade estagnada.

Para um país que não cresce em produtividade de maneira significativa há mais de quatro décadas, que envelhece antes de enriquecer e que opera com uma das menores densidades de automação industrial do mundo, o medo de automatizar demais é o medo errado. Este artigo explica por que esse medo é infundado e por que o Brasil reúne ativos que o posicionam de forma assimétrica para aproveitar essa transição.

Tecnologia não gera desemprego estrutural

A tese do desemprego tecnológico em massa não é nova. Ela reaparece, com roupagem atualizada, a cada grande onda de inovação. Quando o trator mecanizou a agricultura americana no início do século 20, cerca de um terço da força de trabalho dos Estados Unidos estava no campo. Em 2017, esse número havia caído para menos de 2%. Pelos cálculos dos alarmistas de então, a mecanização deveria ter deixado dezenas de milhões de americanos permanentemente desempregados. Não foi o que aconteceu. A produção agrícola quase triplicou, sustentando um aumento expressivo de população, e os trabalhadores deslocados migraram para fábricas, escritórios, hospitais e, décadas depois, para o setor de tecnologia. Tecnologia não gera desemprego estrutural, ela reorganiza a economia e expande a fronteira do que é economicamente possível produzir.

A evidência empírica mostra isso. O NBER Working Paper 34984 (2026), baseado em pesquisas com executivos de empresas americanas, concluiu que “a adoção de IA não produziu ainda mudanças significativas no emprego total”, com ganhos de produtividade concentrados em serviços de alta qualificação.¹ O Federal Reserve de Atlanta, em estudo com quase seis mil CFOs e CEOs em quatro países, encontrou que mais de 80% das empresas não relatam impacto da IA sobre emprego ou produtividade nos últimos três anos.² O Budget Lab de Yale monitora mensalmente os dados do mercado de trabalho americano e concluiu, na sua atualização de abril de 2026, que “métricas de exposição, automação e ampliação não mostram relação com mudanças no emprego ou no desemprego”.³ O que as três pesquisas convergem em mostrar é realocação de tarefas, não destruição de ocupações.

Dados recentes da Goldman Sachs reforçam esse quadro, ganhos de produtividade criam superávits de trabalho que migram para novas categorias de serviços, com o surgimento e crescimento acelerado de setores como cuidado de animais, tutoria educacional e atividades físicas e esportivas, ocupações que não existiam em escala relevante nas gerações anteriores e que respondem precisamente ao aumento de renda e tempo disponível gerado pela automação.⁸ Nas empresas que adotaram IA, a menção de ampliação supera a de substituição nas teleconferências de resultados em proporção de 8 para 1.⁹ As equipes de gestão estão usando a IA, em sua esmagadora maioria, para fazer mais com as pessoas que já têm, não para dispensá-las.

O argumento dos pessimistas pressupõe que a demanda por cognição humana é fixa: quando a IA executar tarefas cognitivas, os humanos simplesmente não terão mais o que fazer. Essa premissa viola o que sabemos sobre economia. Quando o custo de uma tecnologia cai, a demanda por ela cresce, e os recursos liberados migram para novas fronteiras. Quando a comida ficou mais barata com a mecanização agrícola, as pessoas passaram a gastar mais em moradia, educação, saúde e entretenimento. Quando a cognição ficar mais barata com a IA, o padrão não será diferente.

A questão para o Brasil, portanto, não é se novos empregos surgirão com a IA, a evidência histórica e empírica é clara: surgirão. A questão é como podemos aproveitar essa onda de inovação para potencializar nossos ativos e reduzir nossos problemas.

O problema que o Brasil realmente tem

Entre 1982 e 2018, a produtividade do trabalho brasileira, medida por pessoal ocupado, não cresceu nada.⁴ Em termos absolutos e relativos, o Brasil não acompanhou o crescimento da fronteira tecnológica global. Em 2024, a produtividade por hora efetivamente trabalhada variou apenas 0,1%, segundo o Observatório da Produtividade Regis Bonelli da FGV IBRE.⁵ Para efeito de comparação, nos Estados Unidos a produtividade do trabalho cresceu 85% entre 1970 e 2011. No mesmo período, a brasileira estagnou.

A produtividade é a única fonte sustentável de crescimento de renda per capita. Não existe enriquecimento de longo prazo sem que os trabalhadores produzam mais por hora. O Brasil, com quatro décadas de estagnação nessa métrica, tem uma lacuna de crescimento, e a IA representa a ferramenta mais promissora para começar a fechá-la.

O quadro fica mais urgente quando se adiciona a dimensão demográfica. Segundo o IBGE, o bônus demográfico brasileiro, o período em que a população em idade ativa cresce mais do que a população dependente, encerrará sua janela mais favorável na década de 2030. A população em idade ativa atingirá seu pico em 2033 (137,5 milhões de pessoas) e começará a declinar a partir de 2034.⁶ A população com 60 anos ou mais, que representava 9% do total em 2000, chegará a 20% em 2033 e a 38% em 2070. O Brasil está envelhecendo antes de enriquecer.

O Brasil não tem problema de automação excessiva, tem o problema oposto. Segundo dados da Federação Internacional de Robótica (IFR), a densidade de robôs industriais no Brasil é inferior a 50 unidades por 10 mil trabalhadores, contra uma média global de 141 e mais de 300 nos países líderes como Alemanha e Coreia do Sul.⁷ Apenas 30% das indústrias brasileiras utilizam robótica, segundo o IBGE, e entre as que ainda não adotaram tecnologias digitais avançadas, 74% citam custo elevado como principal obstáculo.

Esse déficit é um indicador de baixa competitividade. Economias que automatizam mais são economias que crescem mais, exportam mais e pagam salários maiores. A Coreia do Sul, com densidade robótica de mais de 1.000 robôs por 10 mil trabalhadores na indústria, registrou taxa de desemprego de 2,6% em 2024, uma das mais baixas entre os países da OCDE, e salários nominais em trajetória de alta contínua desde 2021.⁷ᵃ O medo de que a automação destrua empregos no Brasil ignora que a automação insuficiente já está destruindo a competitividade das exportações brasileiras e comprimindo os salários reais.

A chegada da IA representa, nesse contexto, uma oportunidade singular, por dois motivos complementares. O primeiro é que a IA reduz o custo de adoção de automação: sistemas que antes requeriam integração complexa e cara de hardware e software podem ser operados com interfaces muito mais acessíveis, o que é especialmente relevante para as pequenas e médias empresas brasileiras, que respondem por grande parte do emprego formal mas têm acesso limitado a crédito para investimento. O segundo é que o Brasil possui ativos competitivos específicos que a IA pode alavancar de forma assimétrica: energia abundante, talento técnico em software e capacidade de inovação em biologia aplicada.

Os três ativos do Brasil na era da IA

1. Uma matriz energética que o mundo quer ter

A inteligência artificial consome energia em escala industrial. Segundo o relatório da Agência Internacional de Energia (AIE), publicado em abril de 2026, a demanda global por capacidade de processamento de IA deve triplicar até 2030, enquanto o consumo total de data centers deve mais do que dobrar.¹⁰ᵃ Países que oferecem energia abundante, estável e barata têm vantagem estrutural crescente na atração desse investimento.

O Brasil está em posição singular nesse contexto, pois 88% da geração elétrica brasileira veio de fontes renováveis em 2024, mais que o dobro da média da OCDE.¹⁰  Entretanto, o potencial inexplorado ainda é expressivo. A geração eólica offshore tem potencial técnico estimado em mais de 700 GW, mas o primeiro leilão de áreas segue aguardando a finalização do marco regulatório, ainda em discussão no CNPE. A energia nuclear representa menos de 3% da matriz, em um país que possui a sexta maior reserva de urânio do mundo. O potencial solar do nordeste brasileiro, com irradiação entre as mais altas do planeta, segue amplamente subaproveitado. Um Brasil que acelere a expansão energética não apenas atende sua própria demanda, posiciona-se como destino natural para os data centers que a infraestrutura global de IA precisará instalar fora dos mercados saturados da América do Norte e Europa.

2. Uma comunidade de software relevante entre os pares emergentes

Entre os mercados emergentes, a posição brasileira é notavelmente favorável na quantidade de desenvolvedores de software. Na pesquisa anual da Stack Overflow de 2024, o Brasil aparece como o 3º país em número de respondentes, atrás apenas dos Estados Unidos e Alemanha.¹¹ Para efeito de comparação, México e África do Sul aparecem com participações muito menores, e a Rússia, outro par de mercado emergente, enfrenta restrições crescentes de integração com o ecossistema tecnológico global.

O mercado brasileiro de tecnologia da informação atingiu US$ 59 bilhões em 2024, consolidando o Brasil na 10ª posição no ranking mundial e como líder na América Latina com 35% dos investimentos regionais.¹² O Brasil, com o maior mercado doméstico da América Latina, o maior polo financeiro e empresas como TOTVS e os times de engenharia do Mercado Livre, concentra a maior fatia dessa capacidade de desenvolvimento.

A chegada da IA amplifica esse ativo, ferramentas como o Claude Code, da Anthropic, permitem que um desenvolvedor navegue e edite bases inteiras de código por linguagem natural, multiplicando sua capacidade produtiva. Para um país com massa crítica de engenheiros de software e custo de vida abaixo dos centros tecnológicos globais, isso representa uma oportunidade de exportação de capacidade técnica em escala muito maior do que a atual.

3. O agronegócio como fronteira da IA aplicada à biologia

O ativo mais subestimado do Brasil na era da IA é o agronegócio, e a razão para essa subestimação está na pouca visibilidade que a conexão entre IA e inovação na agricultura tem para quem acompanha o debate tecnológico a partir dos centros urbanos.

O Brasil é o 2º maior produtor de culturas biotecnológicas do mundo. Na safra 2024/25, a taxa de adoção de sementes geneticamente modificadas atingiu 99% em soja e algodão, e 95% em milho.¹³ O agronegócio já demonstrou, ao longo de quatro décadas, uma capacidade excepcional de incorporar inovação científica para ganhos de produtividade, transformando o Cerrado, considerado improdutivo até os anos 1970, no maior celeiro tropical do mundo.

A próxima onda de inovação nesse setor virá da inovação gerada a partir de pesquisa acelerada por IA. O AlphaFold, desenvolvido pelo Google DeepMind e premiado com o Nobel de Química de 2024, demonstrou que modelos de linguagem treinados em sequências proteicas conseguem prever estruturas tridimensionais de proteínas com precisão antes impensável. Pesquisadores da Michigan State University utilizaram simulações moleculares assistidas pelo AlphaFold para engenheirar enzimas fotossintéticas híbridas com tolerância ao calor de até 65 °C, substituindo regiões instáveis de plantas por contrapartes de algas termoestáveis, apontando para novas gerações de culturas resilientes ao aquecimento climático.¹⁴

Em maio de 2026, o Biohub, fundada por Mark Zuckerberg e Priscilla Chan, lançou um “modelo de mundo da biologia de proteínas”: um atlas de 6,8 bilhões de proteínas com três ferramentas de IA de código aberto para previsão, design e descoberta de estruturas proteicas.¹⁵ O sistema foi disponibilizado gratuitamente para pesquisadores de todo o mundo. Open science acelera descobertas, e descobertas em biologia molecular se traduzem em novas culturas, novos defensivos biológicos e novas variedades com resistência a pragas e secas.

Para o Brasil, que combina a maior biodiversidade tropical do planeta com o maior complexo agroindustrial entre os países em desenvolvimento, a convergência entre IA e biologia aplicada à agricultura é, potencialmente, a maior vantagem comparativa que o país já teve em qualquer transição tecnológica da sua história. O país que aprender a usar essas ferramentas mais cedo e com mais profundidade vai definir o padrão global de produtividade agrícola nas próximas décadas.

A maior oportunidade da história econômica recente do Brasil

A matriz energética mais renovável do mundo industrializado, com um potencial offshore, nuclear e solar ainda amplamente inexplorado, coloca o Brasil como destino natural para a infraestrutura física da IA global, que demanda energia abundante. A comunidade de desenvolvedores de software, 3ª maior do mundo em participação nas pesquisas globais da área, pode se tornar a principal exportadora de capacidade técnica amplificada por IA no hemisfério sul. O agronegócio, por sua vez, o setor que já transformou o Cerrado no maior celeiro tropical do planeta, está na iminência de uma nova revolução produtiva, desta vez movida por biologia computacional: o AlphaFold e o Biohub da Chan Zuckerberg Initiative já entregaram ferramentas abertas para redesenhar proteínas e culturas com tolerância climática que nenhum laboratório convencional conseguiria produzir.

Se o Brasil entender isso, e agir em consequência, não estará apenas protegendo empregos, estará criando uma nova classe deles, em setores que ainda não existem, a salários muito maiores que os atuais. A inteligência artificial não é uma ameaça ao trabalho brasileiro, é a maior alavanca de crescimento de produtividade que o país já teve ao alcance. O Brasil precisa aproveitar essa oportunidade.

Referências bibliográficas

1. Baslandze, S. et al. "Artificial Intelligence, Productivity, and the Workforce: Evidence from Corporate Executives." NBER Working Paper 34984, março de 2026.

2. Yotzov, I. et al. "Firm Data on AI." Federal Reserve Bank of Atlanta Working Paper 2026-3, março de 2026.

3. The Budget Lab at Yale. "Tracking the Impact of AI on the Labor Market." Abril de 2026.

4. De Negri, F. e Cavalcante, L.R. (Org.). Produtividade no Brasil: Desempenho e Determinantes. Vol. 1. Brasília: IPEA / ABDI, 2014.

5. FGV IBRE. "Produtividade do trabalho fica estagnada no Brasil em 2024." Observatório da Produtividade Regis Bonelli, março de 2025.

6. IBGE. Projeção da População do Brasil e das Unidades da Federação. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2023.

7. IFR — International Federation of Robotics. World Robotics Report 2024. Frankfurt: IFR, 2024.

7a. OECD. Employment Outlook 2025 — Country Note: Korea. Paris: OECD Publishing, julho de 2025.

8. Briggs, J. e Kodnani, D. "The Potentially Large Effects of Artificial Intelligence on Economic Growth." Goldman Sachs Global Economics Analyst, março de 2023.

9. Goldman Sachs Research. "AI Augmentation vs. Substitution in Earnings Calls." Citado em: George, D. 'The AI Job Apocalypse Is a Complete Fantasy.' a16z Growth, maio de 2026.

10. EPE — Empresa de Pesquisa Energética. Balanço Energético Nacional 2025 — Relatório Síntese. Ano base 2024. Ministério de Minas e Energia, 2025.

10a. IEA — International Energy Agency. Energy and AI. Paris: IEA, abril de 2026.

11. Stack Overflow. Developer Survey 2024. Stack Overflow, 2024.

12. ABES — Associação Brasileira das Empresas de Software / IDC. Estudo Mercado Brasileiro de Software 2025. ABES, junho de 2025.

13. USDA Foreign Agricultural Service. "Brazil: Agricultural Biotechnology Annual." 2024.

14. Roze, L.V. et al. "Increasing thermostability of the key photorespiratory enzyme glycerate 3-kinase by structure-based recombination." Plant Biotechnology Journal, 23(2): 454–466, fevereiro de 2025. DOI: 10.1111/pbi.14508.

15. Biohub / Chan Zuckerberg Initiative. "Biohub releases a world model of protein biology." PRNewswire, 27 de maio de 2026.

Nota sobre gráficos

Os gráficos sugeridos abaixo ilustram o padrão histórico global de transformação do mercado de trabalho em transições tecnológicas anteriores, e não dados específicos do Brasil. Sua função no artigo é evidenciar que o fenômeno de reorganização, e não destruição, do trabalho é recorrente e documentado ao longo de diferentes economias e períodos. Fontes: a16z Growth / Haver Analytics / Goldman Sachs Research / Deutsche Bank, 2026.

(1) "The Shape of the Labor Market Changes (A Lot)" - US Employment by Sector, Since 1850. Fonte: Haver Analytics, US Census, Deutsche Bank, março de 2026.

(2) "Productivity Gains Create Labor Surpluses, Leading to Entirely New Categories of Services" - Thousands of workers, 1990–2025. Fonte: Goldman Sachs Research, abril de 2026.

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João Pedro Hoerde
João Pedro Hoerde
João Pedro Hoerde é especialista de produto em automação e robótica no Mercado Livre, onde trabalha na expansão e otimização do uso de automação nos centros de distribuição da empresa. Engenheiro de produção formado pela UFRGS, foi membro do Instituto de Formação de Líderes de São Paulo e é cofundador do Fundo Centenário, fundo de endowment da escola de engenharia da UFRGS.

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