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Por que os vendedores temem apresentar inovações radicais (e como fazê-los vender o novo)

Esses profissionais podem se sentir inseguros ao vender produtos inovadores. Os gestores podem ajudar criando uma cultura de vendas mais colaborativa

Bianca Schmitz, Olaf Plötner e Johannes Habel
13 min de leitura
Por que os vendedores temem apresentar inovações radicais (e como fazê-los vender o novo)

Em diversos setores, as empresas estão investindo pesadamente em inovações radicais, como novas camadas de software para hardware tradicional, ferramentas industriais com inteligência artificial e serviços inteligentes que prometem transformar a maneira como os clientes criam valor. No entanto, quando essas ofertas chegam ao mercado, os processos de vendas frequentemente estancam. Um exemplo? A Salesforce enfrentou dificuldades com a comercialização inicial de uma inovação radical lançada em 2016: o Einstein, um complemento de IA para o sistema Salesforce CRM.

Os gestores muitas vezes presumem que o problema decorre da aversão ao risco dos clientes ou da limitada maturidade técnica do produto. Nossa pesquisa aponta um fator humano do lado do fornecedor: o medo dos profissionais de vendas de perderem a credibilidade ao discutirem algo radicalmente novo. Não é medo de ser rejeitado; é um sentimento sutil de insegurança que mina a confiança e o desempenho justamente quando a empresa mais precisa deles.

MEDO DE PERDER REPUTAÇÃO IMPEDE O SUCESSO

Num artigo em coautoria com Julian Schmalstieg e Andreas Eggert  publicado na revista Industrial Marketing Management em outubro passado, examinamos produtos altamente inovadores que não atenderam às expectativas. Para tanto, entrevistamos 69 executivos de vendas, vendedores e clientes de três fabricantes globais e realizamos uma pesquisa com 400 gerentes de uma amostra diversificada de fabricantes industriais.

Descobrimos que, quando os produtos são radicalmente novos, os vendedores sentem um medo evidente de parecerem incompetentes para os clientes. Isso decorre da expectativa de falhas na consultoria, como fornecer informações incorretas, não conseguir responder a perguntas ou fazer promessas que a empresa ainda não pode cumprir.

Essas preocupações levam à hesitação, resultando em vendedores que evitam conversas profundas, recuam diante de novas oportunidades e se apoiam em ofertas já estabelecidas que podem explicar com segurança.

Tradicionalmente, o sucesso em vendas depende da expertise do vendedor. Esses profissionais conhecem o produto a fundo, tornam-se especialistas em solucionar problemas e exalam confiança. Mas essa dinâmica muda quando se trata de vender inovações radicais. Pelos motivos que detalharemos a seguir, as abordagens tradicionais de treinamento de vendas são menos eficazes com inovações radicais, e os vendedores precisam trocar a autoridade pela curiosidade, aprender junto com os clientes e coordenar-se com especialistas, em vez de buscarem projetar domínio absoluto. Essa mudança permite que eles se beneficiem do contato com especialistas desde o início do processo de vendas e da criação de diálogos em que nem todas as respostas são conhecidas.

Mas essa mudança também desafia a concepção que os profissionais de vendas têm de suas próprias identidades. Descobrimos que o medo de perder a reputação atingiu o pico entre os vendedores que mantêm altas expectativas em relação a si mesmos (“Eu deveria saber tudo sobre o que vendo”), resistem à mudança e não têm experiência profissional. Ironicamente, os vendedores que tiveram um desempenho excelente no passado muitas vezes têm mais dificuldade do que outros para vender produtos novos.

Embora o medo de perder a reputação possa parecer uma questão só emocional, nossos dados mostram que ele representa um risco comercial significativo e quantificável. Em dois estudos com quase 400 vendedores industriais, esse medo reduziu consistentemente o desempenho em vendas de inovação, mesmo quando controlamos fatores como experiência, expectativas pessoais, prontidão para mudanças, relacionamentos e posição da empresa. Aqueles que temiam parecer despreparados eram menos propensos a buscar oportunidades complexas ou a interagir com grupos de compradores desconhecidos.

Observamos o mesmo fenômeno em um fabricante global que havia lançado uma plataforma de manutenção baseada em IA. Apesar do forte interesse dos clientes, o ritmo de vendas estava lento. O problema não era técnico, mas psicológico. Muitos vendedores hesitavam em agendar demonstrações com compradores da área de TI, temendo não conseguir responder com segurança a perguntas detalhadas.

No entanto, quando a empresa combinou representantes de vendas com especialistas técnicos e forneceu casos de uso para problemas dos clientes, as taxas de adoção aumentaram. A lição é que produtos radicalmente novos exigem novas estruturas de vendas.

O TREINAMENTO QUE FALHA E O QUE FUNCIONA

A maioria das empresas responde à lentidão nas vendas devido à inovação com mais treinamento de produto, partindo do pressuposto de que mais conhecimento equivale a mais confiança. Foi o que fizeram as três empresas que estudamos, até que a gerência percebeu que o treinamento não estava funcionando.

O treinamento de vendas tradicional parte do pressuposto de que o conhecimento do produto pode ser totalmente transferido para o vendedor. No entanto, inovações radicais são frequentemente tão complexas que os vendedores nem sempre conseguem compreender completamente tudo o que há para saber sobre elas. 

Por exemplo, os participantes das entrevistas frequentemente mencionaram inovações de software que incorporam análises preditivas, inteligência artificial e funcionalidades que vão além dos equipamentos do próprio fabricante. Nessas situações, em vez de sanar completamente as lacunas de conhecimento dos vendedores, as sessões de treinamento muitas vezes os deixam dolorosamente conscientes do que desconhecem.

O que os vendedores precisam não é apenas de mais informações, mas das condições que possibilitem a venda consultiva ou baseada em valor. Os profissionais de alto desempenho têm sucesso não recitando características, e sim explorando os problemas dos clientes e mobilizando recursos.

Uma das estratégias mais eficazes que as empresas podem adotar nesse sentido é redefinir o significado de vender produtos tão inovadores. As melhores empresas que analisamos reformularam o papel do vendedor, transformando-o de especialista em orquestrador. Em vez de dominar cada detalhe técnico, os vendedores passaram a abrir portas, conectando os clientes aos especialistas certos e guiando a jornada de adoção. Os clientes perceberam transparência e colaboração em vez de insegurança, e a confiança aumentou consequentemente.

Os líderes reforçaram essa mudança ao normalizar o aprendizado na presença dos clientes e alinhar os incentivos. O reconhecimento passou a ser dado aos sucessos compartilhados em vez de conquistas individuais, e o aprendizado e o engajamento do cliente foram enfatizados nos estágios iniciais dos projetos. A empresa descobriu que, quando a colaboração se torna a expectativa, o medo de perder a reputação diminui.

TRÊS ALAVANCAS PARA VENDER O NOVO

Nosso trabalho aponta para três alavancas concretas que os líderes podem aplicar para ajudar suas equipes – e seus clientes – a adotar inovações radicais.

Ofereça suporte consultivo. O medo prospera quando os indivíduos estão isolados. Os vendedores se sentem mais seguros quando têm acesso imediato a conhecimento especializado e estudos de caso. As empresas líderes que estudamos oferecem às suas equipes de vendas os seguintes recursos:

• Duplas de especialistas. Cada vendedor é acompanhado por um especialista técnico ou de produto que pode participar de reuniões nas fases iniciais da venda do novo produto.
• Recursos de conhecimento úteis. Guias de entrevista concisos, personas de clientes e breves relatos de casos de uso são desenvolvidos para uso da equipe de vendas.
• Segmentação de clientes. Em vez de segmentar por tipos de clientes tradicionais, o foco está em identificar grupos de clientes que enfrentam problemas semelhantes. As mensagens são adaptadas a esses casos.
• Canais de resposta rápida. Ferramentas digitais de “pergunte a um especialista” ou grupos de bate-papo internos são criados para fornecer aos vendedores respostas imediatas durante as conversas com os clientes.

Esses recursos podem reduzir o risco de falhas nas consultas e a consequente ansiedade que mina a iniciativa. Em nossas entrevistas, os gerentes observaram que, quando as equipes de vendas tinham acesso a especialistas com pouco aviso prévio, elas se mostravam mais dispostas a iniciar conversas sobre novas soluções.

Selecione e desenvolva a prontidão para a mudança. O sucesso na venda de uma inovação radical depende menos do conhecimento do produto do que da adaptabilidade e da curiosidade. As organizações prosperam ao identificar e desenvolver pessoas que enxergam a incerteza como uma oportunidade. Isso começa com a contratação de pessoas com agilidade de aprendizado e abertura a novas experiências, e continua com o acompanhamento e o aprendizado entre pares, apoiados por líderes que promovem o aprendizado compartilhado em todos os níveis.

Em uma empresa, observamos que as equipes de vendas de inovação se reuniam mensalmente para compartilhar o que havia dado errado em projetos-piloto. Em vez de punir o fracasso, a liderança incentivava a reflexão sobre as lições aprendidas. Com o tempo, essas sessões promoveram um senso de segurança psicológica e experimentação compartilhada. O resultado foi maior autoconfiança entre os vendedores e uma adoção mais rápida em todos os segmentos de clientes, além de orientações práticas para os vendedores sobre como abordar os clientes quando surgissem problemas.

Redefina o papel das vendas. Durante décadas, a cultura de vendas em muitas das empresas que estudamos recompensou o domínio. A inovação radical exige uma cultura de aprendizado. Os líderes devem deixar claro que o objetivo nos estágios iniciais de vendas é ajudar os clientes a compreender algo novo, e não entregar certezas pré-definidas. Essa mensagem precisa ser reforçada por meio de processos: métricas de desempenho compartilhadas entre as equipes de vendas e de produto, reconhecimento conjunto por conquistas cocriadas e o envolvimento precoce de funcionários de marketing e engenharia nas conversas com os clientes. Quando os incentivos sinalizam que a colaboração é valorizada, os vendedores podem abandonar a pretensão de onisciência e, em vez disso, concentrar-se em adquirir uma compreensão mais profunda dos fluxos de trabalho dos clientes, descobrir desafios e ajudá-los a lidar com riscos.

LIDERANDO PELO EXEMPLO

Os executivos desempenham um papel decisivo na forma como suas organizações vendem inovação, e os comportamentos que eles exemplificam se espalham rapidamente.

Quando os líderes participam pessoalmente de reuniões iniciais com clientes, reconhecem o que a empresa ainda está descobrindo e demonstram curiosidade, eles legitimam a abertura em toda a equipe de vendas.

Em um dos fabricantes que estudamos, o diretor de vendas participou das discussões iniciais sobre a primeira plataforma digital oferecida pela empresa. Em vez de insistir em certezas, ele disse aos clientes: “Estamos explorando isso juntos”. Sua presença mudou o tom da conversa, transformando-a de uma abordagem de vendas para uma de aprendizado conjunto, e a disposição de sua equipe em iniciar conversas semelhantes aumentou consideravelmente no trimestre seguinte.

A liderança também é importante para a alocação de recursos. Os orçamentos para capacitação, treinamento e mentoria devem receber a mesma prioridade que os investimentos em P&D. A inovação não pode ser escalada se as pessoas responsáveis por levá-la ao mercado não tiverem o apoio necessário para fazê-lo com confiança.

Os clientes também se sentem expostos ao adotar algo novo. Oferecer projetos-piloto com métricas claras, usar compromissos faseados e manter a equipe de vendas envolvida durante as etapas iniciais de implementação reduz a incerteza dos clientes em relação às decisões que precisam tomar. Essas táticas não apenas tranquilizam os clientes, mas também reduzem a pressão psicológica sobre os vendedores, fazendo com que cada interação pareça menos um teste e mais uma parceria.

A principal conclusão da nossa pesquisa: o sucesso na venda do desconhecido acontece quando as empresas criam produtos que despertam a curiosidade, e não a perfeição.

Quando os vendedores temem perder a credibilidade, a inovação estagna. Quando são incentivados a explorar novos produtos livremente, a inovação ganha escala. A tarefa dos líderes é substituir uma cultura de perfeição por uma de aprendizado, colaboração e confiança.

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Bianca Schmitz, Olaf Plötner e Johannes Habel
Bianca Schmitz, Olaf Plötner e Johannes Habel
Bianca Schmitz é professora e membro do corpo docente da ESMT Berlin (Alemanha). Ela também é diretora-fundadora do Hidden Champions Institute, diretora de transferência de conhecimento do Bringing Technology to Market Center e coordenadora do programa de MBA em Telecomunicações da ESMT Berlin. Olaf Plötner é professor e diretor do Bringing Technology to Market Center da ESMT Berlin. Johannes Habel é professor-associado da CT Bauer College of Business da University of Houston (EUA).

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